|
Em depoimento a esta coluna, o diretor de Marketing da V. Ships, Augusto Veladini, afirmou que a crise mundial de navegação não cessará até 2012 e ainda advertiu: " O fim da instabilidade representará apenas a volta dos fretes a níveis confortáveis. Mas tão cedo não serão vistos os altíssimos preços, para fretes e navios, de antes da crise. Era uma verdadeira loucura".
A V. Ships opera mais de 1.000 navios em todo o mundo, sendo líder nessa especialidade. Veladini, que fica na sede da empresa, em Mônaco, esteve no Rio, com outro diretor internacional, Antonio Ciocci, e recebeu convidados em recente evento ao lado do diretor do escritório no Brasil, Eduardo Bastos.
Veladini detalha que o setor marítimo - que em inglês se diz "shipping industry", quando, no Brasil, a atividade está incluída na área comercial - atua diretamente ligado a bancos. E, do mesmo modo, os donos das cargas, os embarcadores, também não operam com dinheiro vivo, mas sempre através de financiamento bancário.
- Antes da crise havia uma euforia irresponsável, com preços nas alturas. Em seguida, veio a retração dos mercados internos de cada país, somada ao corte de crédito, dos bancos, para armadores e embarcadores. Isso criou o pior dos mundos, o que, felizmente, já passou - disse.
Lembrou que um navio tipo "Capesize", de 150 mil toneladas, chegou a ser fretado pela fortuna diária de US$ 200 mil. Em seguida, despencou para US$ 40 mil e, agora, está em momento de quase normalidade, próximo de US$ 100 mil diários. Recordou que um navio do tipo Panamax chegou a ser alugado por US$ 100 mil diários e hoje está por volta de US$ 40 mil.
- Saímos do auge da crise, mas os armadores ainda trabalham para pagar os custos financeiros e de operação. Enquanto a atividade não der lucro, que é a base do capitalismo, não se pode dizer que esteja tudo bem.
Veladini compara a situação na navegação ao que ocorreu no mercado imobiliário americano, em que se comprava um apartamento em Nova York por US$ 200 mil e, em alguns meses após, o imóvel poderia valer o dobro ou o triplo, sem justificativa razoável para tamanha valorização.
Para Veladini, a crise econômica está mais forte nos Estados Unidos do que no Brasil e, na Europa, mais intensa ainda.
- Apesar do nome, quando ocorre uma crise, os Estados Unidos são um país uno e coordenado. Já a Europa é um conjunto de países, que carece de plena união política, o que atrasa a superação dos problemas econômicos e sociais. Cita que a valorização do euro em relação ao dólar é perversa, pois dificulta as vendas externas européias e, assim, inibe a oxigenação das economias européias." Essa valorização do euro é verdadeira tragédia" - garante.
Segundo Veladini, as empresas de containeres são as maiores vítimas da crise e prova disso é que muitos governos deram aportes para empresas nacionais da atividade. " Praticamente todas as grandes companhias de transporte de containeres sofreram acentuadamente com a crise e muitas foram ajudadas por seus governos, que não abrem mão de dispor de empresas com a bandeira nacional na atividade" - afirmou, sem citar nomes de empresas.
Sobre a V. Ships, Veladini revela que o controle de mais de mil navios é feito por escritórios espalhados em todo o mundo, onde trabalham 1.800 pessoas. Nos navios estão 28 mil marítimos, de praticamente todas as nacionalidades. Lembrou que o grupo cresceu muito, pois teve início apenas em 1984, quando controlava 35 navios.
Por fim, Veladini afirma que o mundo se defronta com sério problema, que é a falta de tripulações.
- Se um armador achar uma tripulação razoável para seu navio, pode se considerar sortudo. Se encontrar uma tripulação excelente, pode-se dizer que é muito sortudo. Há falta de gente para operar navios no mundo todo. Os jovens não querem mais se aventurar no mar, mas ficar em terra, mesmo com menor salário ou dificuldades de emprego. A vida no mar é dura e, embora remunere bem, não atrai mais os jovens, que querem ficar em terra para ir à universidade, namorar, ver shows de rock ou estruturar uma família.
Segundo Veladini, a falta de tripulações passará a ser, em breve, um problema discutido nas mesas dos principais líderes mundiais, uma vez que o progresso não pode parar e a navegação é o principal elo das correntes de comércio.
|