Oportunidades do agronegócio diante da guerra comercial entre EUA e China. Há exatos 44 anos, Brasil e China estabeleceram formalmente suas relações diplomáticas com a abertura, em 15 de agosto de 1974, da embaixada brasileira em Pequim e da chinesa em Brasília.
Esse marco histórico nos faz lembrar o quanto avançaram as relações comerciais entre os dois países nesse período e como há espaço para o Brasil acentuar essa parceria. Entre os especialistas, ainda parece haver certa discordância sobre os impactos da atual guerra comercial entre China e Estados Unidos a respeito da economia brasileira. Não vejo esse quadro como incógnita.
Desde 2009, os chineses são nosso maior parceiro comercial. No ano passado, o saldo de nossa balança comercial com a China, de US$ 20,1 bilhões, foi recorde, assim como foi recorde nosso volume de exportações para lá, de US$ 47,5 bilhões. Se nos beneficiamos do comércio com os chineses em um cenário sem escalada tarifária entre eles e os norte-americanos, maior é o benefício que podemos ter ao ocupar o espaço dos Estados Unidos nas trocas comerciais.
Enxergar oportunidades nesse embate não significa ignorar os desdobramentos negativos que possam ter sobre a economia global. A disputa tarifária entre as duas maiores potências econômicas do planeta pode desencadear aumentos de tarifas similares destes com outros parceiros comerciais — o que, no fim das contas, afetaria as operações de importação e exportação entre os países e, em última escala, limitaria o crescimento no mundo todo.
Ocorre que a planificação da economia chinesa exige que eles encontrem alternativas para os alvos de crescimento estabelecidos. O PIB chinês deverá avançar 6,5% em 2018, segundo a meta apresentada em março pelo primeiro-ministro Li Keqiang na sessão de abertura do Congresso Nacional do Povo, a reunião legislativa anual. Em17 de julho, já com as sobretaxas para produtos americanos em vigor a disputa começou em março, quando os EUA impuseram sobretaxa ao aço e alumínio chineses; um mês depois, os asiáticos sobretaxaram itens como soja, carros, aviões, carne e produtos químicos vindos dos Estados Unidos, o governo chinês reiterou que seguia otimista com a possibilidade de atingir a meta de 6,5%, e que encontraria alternativas para isso.
O agronegócio do Mercosul tem particular oportunidade para ocupar os espaços que se abrem. Um terço das compras chinesas de soja no exterior é feita nos EUA. Com os norte-americanos fora do páreo, a América do Sul, com Brasil e Argentina à frente, tem potencial para suprir essa demanda que surge. Itens como carne suína congelada, outro produto sobre o qual passou a vigorar sobretaxa, também podem abrir negócios adicionais para os brasileiros.
Identificar oportunidades de ganho comercial que surgem dessa disputa tarifária tampouco é sinônimo de relevar o fato de que, a despeito de termos um superavit comercial com os chineses, historicamente o Brasil vende a eles matérias-primas básicas e compra manufaturados. Sim, a economia brasileira teria mais musculatura se nossas vendas de bens finais ao exterior fossem maiores que as de commodities. Mas também não se pode ignorar os benefícios que temos colhido com o estreitamento da parceria com os chineses, ainda que commodities sejam o item de maior peso.
Só no ano passado, por exemplo, a State Grid Corp of China comprou ações da CPFL Energia e da CPFL Energia Renováveis e a China Merchants Port fez o mesmo com o Terminal de Contêineres de Paranaguá, no Paraná. Além disso, a State Power Investment Corporation (Spic) venceu o leilão da hidrelétrica de São Simão, que antes pertencia à Cemig. Neste ano, a China Communications Construction Company, maior empresa chinesa de infraestrutura, lançou a pedra fundamental do porto São Luís, que ela está construindo no Maranhão, e revelou interesse nos editais de ferrovias previstos pelo governo brasileiro, como o da Ferrogrão, entre Mato Grosso e Pará. Todos são projetos de infraestrutura que o país ganha com o interesse chinês no agronegócio brasileiro. O Brasil não pode abrir mão de seu papel de protagonista na economia global e, na escalada tarifária entre EUA e China, tem de reiterar a defesa do livre comércio entre os países. Mas isso pode ser feito sem que precisemos abrir mão de oportunidades de negócio quando elas aparecem.
Fonte: CORREIO BRAZILIENSE (DF)