Os ataques de drone à refinaria de Abqaiq, da Saudi Aramco, no último sábado (13/9), reduziram em 5,7 milhões de b/d a produção de petróleo da Arábia Saudita, o que corresponde a quase metade da capacidade do país e 6% do volume global. Como reflexo, os preços futuros do barril dispararam na segunda-feira (16), registrando alta de 20%, em meio a um cenário de crescente instabilidade geopolítica.
“Simplesmente não há mais capacidade ociosa de produção global de petróleo para garantir segurança energética se os conflitos geopolíticos se intensificarem”, alertou a IHSMarkit em nota divulgada hoje.
Cerca de 6,4 milhões de b/d da Arábia Saudita têm sido importados por outras nações desde o início do ano, sobretudo por países asiáticos, como China e Índia, além de, em menor escala, Japão e Coreia do Sul. “Esses países precisarão rapidamente buscar novos fornecedores se os estoques não puderem cobrir seu apetite por petróleo”, ressaltou a consultoria.
De acordo com a Rystad Energy, a Arábia Saudita tem capacidade para suprir 26 dias de exportações com os atuais níveis de estoque – da ordem de 185 milhões de barris – principalmente a partir do terminal local de Ras Tanura. O país também possui petróleo armazenado em Roterdam, na Holanda, Okinawa (Japão) e Sidi Kerir (Egito).
Caso os danos causados pelo maior ataque a instalações petrolíferas desde a Guerra do Golfo resultem em uma interrupção da produção por mais 40 dias, os impactos no mercado serão críticos, já que a capacidade de reposição global é limitada.
“Reservas estratégicas de petróleo em países da OCDE seriam, então, acionadas. Acreditamos que as exportações dos EUA poderiam ser ampliadas em 1 milhão de b/d. Outros países como os Emirados Árabes Unidos, Rússia, Kuwait e Iraque poderiam ainda acrescentar milhares de b/d”, observou a consultoria na segunda-feira.
Em entrevista à emissora americana CNBC na manhã de hoje, o megainvestidor Marl Mobius disse que o Brasil poderá se beneficiar dos ataques. “Se analisarmos as reservas brasileiras, veremos que podem produzir muito mais petróleo”, assinalou.
“Condomínio petrolífero” com os EUA
Segundo dados da BP Energy, a Arábia Saudita possuía, no fim de 2018, a segunda maior reserva de petróleo do mundo (297,7 bilhões de barris), ocupava a vice-liderança na produção do hidrocarboneto (12,287 milhões de b/d) e a sétima posição no refino ( 2,77 milhões de b/d).
Os sauditas funcionam, há décadas, como “cabeça” da Opep devido à combinação de suas enormes reservas com seu baixíssimo break-even de produção, o que lhe permite regular a oferta mundial mundial de petróleo e, por tabela, afetar países exportadores e importadores, ao provocar baixa ou alta nos preços da commodity.
A monarquia saudita conta com a proteção dos EUA desde 1945, quando o então presidente Franklin Roosevelt se encontrou com o rei Ibn Saud a bordo do cruzador USS Quincy. Em troca, os norte-americanos assegurariam fornecimento de petróleo com baixo risco e a preços “razoáveis”.
Em 1980, o governo dos EUA definiu oficialmente o Oriente Médio como área de segurança máxima, visando não somente garantir seu abastecimento e de países aliados, como negar acesso a nações rivais, sobretudo a União Soviética. A estratégia ficou conhecida como Doutrina Carter:
“Que nossa posição fique absolutamente clara: qualquer tentativa de uma força externa de ganhar controle sobre o Golfo Pérsico será visto como um ataque aos interesses vitais dos Estados Unidos da América, e esse ataque será repelido por quaisquer meios necessários, incluindo força militar”, alertou o presidente Jimmy Carter, em discurso feito em 1981.
Desde então, o Oriente Médio aparece na estratégia de segurança dos EUA como região onde o país deve agir para garantir o fluxo de petróleo no mundo: “Os Estados Unidos buscam um Oriente Médio (…) que não seja dominado por nenhum poder hostil e que contribua para o mercado global de energia”, diz a última edição do National Security Strategy, de 2017 – a única publicada na gestão de Donald Trump.
Irã sob suspeita
Na segunda-feira, o presidente americano disse, em sua conta no Twitter, que, embora os EUA não precisem mais da produção do Oriente Médio – já que são, hoje, exportadores líquidos de petróleo –, ajudarão seus aliados na região. No domingo, ele autorizou a liberação de reservas estratégicas de petróleo para manter os mercados abastecidos, caso necessário.
Apesar da fala de seu presidente, os Estados Unidos ainda dependem do petróleo produzido no exterior, inclusive no Oriente Médio. De acordo com dados da Energy Information Administration (EIA), o país importou 6,725 milhões de bopd na última semana, sendo 271 mil bopd da Arábia Saudita.
Até o fechamento desta matéria, Trump aguardava o desfecho de investigações e de um retorno da Arábia Saudita para saber como proceder na retaliação aos ataques. Embora um grupo rebelde do Iêmen tenha assumido a autoria, as principais suspeitas recaem sobre o Irã, cujo governo ainda não se manifestou sobre o assunto.
“Lembram-se de quando Irã derrubou um drone alegando que o equipamento estava em seu espaço aéreo, quando, na realidade, não estava nem próximo disso? Eles se ativeram fortemente a essa versão sabendo que se tratava de uma grande mentira. Agora afirmam que não têm nada a ver com o ataque à Arábia Saudita. Veremos…”, provocou o presidente em sua conta na rede social.
Ontem, o ministro de Energia da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, afirmou, via Twitter, que os ataques às instalações da Saudi Aramco são uma ameaça à economia global e pediu que a comunidade internacional se mobilize para preservar o fornecimento energético ante novas ameaças de ataques terroristas. Segundo o governo, parte do declínio da produção saudita será compensado por estoques mantidos pelo país.
Fonte: Revista Brasil Energia