Há algumas semanas foi possível verificar um alvoroço em razão do pedido de Recuperação Judicial (Chapter 11) da famosa marca de cosméticos Revlon, nos Estados Unidos. Tal agitação se deu não em virtude de sua reestruturação, mas sim pela valorização de 800% de suas ações. Como se pode perceber, algo aparentemente surpreendente aconteceu após o pedido de reestruturação. As ações que estavam a pouco mais de US$1, dispararam para mais de US$8, em apenas alguns dias, alimentadas em parte por um pequeno squeeze organizado pelos traders da rede Reddit.
Este é um exemplo icônico de que a especulação, no mercado financeiro, de ações de empresas em Recuperação Judicial pode ser uma estratégia potencialmente recompensadora. Isso porque, quando uma empresa pede Recuperação Judicial (ou Chapter 11 nos EUA), muitas vezes a Companhia é destaque nas notícias gerando um aqueda abrupta de suas ações. Nesse momento, entender o caso, analisando as chances de investimento DIP (debtor-in-possession) e as possibilidades de soerguimento podem ajudar na tomada de decisões para o investidor comprar ações de determinada empresa ou até de suas concorrentes.
Contudo tal investimento deve ser utilizado apenas por profissionais assessorados por especialistas que conheçam os processos de Recuperação Judicial (ou Chapter 11) deforma a compreender as vantagens, o
timing e os riscos inerentes a transação.
Tais títulos têm riscos elevados, em parte porque é frequentemente difícil obter informações atualizadas dos processos de restruturação, notadamente quando as empresas entram em processo de Recuperação Judicial (ou Chapter 11).
É aí que entra a consultoria especializada capaz de prover subsídios técnicos e processuais para que o trader possa entender a real situação da empresa, decidindo assim qual o melhor momento para investir e desinvestir, gerando um lucro diferenciado no mercado. Outro atrativo para investir em empresas em reorganização é a existência de algumas histórias.
de sucesso notáveis, como o caso da Oi, Hertz, Latam, Avianca Holding e mais recentemente o sucesso da Revlon.
Especificamente com relação a Revlon, como já mencionado, a marca icónica de beleza alguns dias após divulgar sua restruturação, viu suas ações valorizarem sobremaneira, gerando ganhos espetaculares aos mais atentos ao processo de reestruturação. As ações da Revlon subiram mais de 800% no espaço de uma semana, ganhando o estatuto de ações REV.
Isso ocorre porque um pedido de restruturação (nos EUA e no Brasil) não significa que a empresa vai falir. Ao revés. Em muitos casos ao analisar o processo é possível verificar a possiblidade real de soerguimento da empresa, inclusive para voltar ao mercado com mais estabilidade e com um valor comercial mais adequado.
Mas essa análise deve ser feita ao longo do processo já que há altos e baixos no procedimento de reestruturação, e é com atenção à intrínseca volatilidade do mercado que os traders devem estar atentos, sempre informados por consultores jurídicos que acompanham o caso no judiciário, antecipando assim as previsões.
Dessa forma, para os investidores ousados com vontade em investir em empresas em reestruturação, a consultoria jurídica é indispensável para oferecer previsões antecipadas e diretrizes para um possível sucesso. Seguem, abaixo, algumas sugestões:
Analisar a troca do comando da empresa. Isto pode ser um sinal favorável, particularmente se a queda da empresa foi responsabilidade da sua anterior liderança;
Analisar os documentos que acompanham o pedido de reestruturação e indicam sua possibilidade de soerguimento;
Foco nas empresas de grande porte que possuem maior probabilidade de reter poder aquisitivo durante e após a reorganização;
Diversificar o risco comprando quantias iguais em dólares de várias ações falidas. Mas colocar apenas uma pequena percentagem de fundos investíeis em tais ações;
Limitar a especulação às ações de empresas em recuperação que estejam cotadas embolsas de valores;
Comprar as ações pouco tempo depois de a empresa se ter apresentado o pedido de recuperação (ou Chapter 11). Neste ponto de maior incerteza e risco máximo, o preço das ações pode ser indevidamente depreciado; e
Comprar ações que, normalmente, estão disponíveis no final do ano, quando a perda com impostos é relevante.
Essas são apenas algumas dicas para os investidores, já que as Companhias em reestruturação normalmente revelam processos lentos e complexos sendo necessária uma análise detida e cuidadosa dos casos para que os operadores do mercado possam fazer o que fazem de melhor, comprar e vender ações no tempo certo, preferencialmente de acordo com os eventos relevantes do procedimento judicial.
Em suma, identificar oportunidades em meio às fragilidades econômicas das empresas sem dificuldade é, na verdade, um planejamento estratégico para investidores arrojados que buscam alta performance. E, para tanto, a consultoria jurídica especializada em insolvência tem a inexorável capacidade de potencializar os ganhos e reduzir os riscos através da análise técnica dos procedimentos de reestruturação.
*Ana Carolina Monteiro é advogada do escritório Kincaid | Mendes Vianna Advogados Associados
Fonte: Estadão