
Para empresas e entidades do setor, a transformação energética dependerá da disponibilidade técnica, econômica e logística.
O debate em torno da transição energética para o setor da navegação não é recente. Porém, se intensificou desde o ano passado, em razão da necessária adequação à resolução da IMO 2020 (Internacional Maritime Organization) sobre a redução de 3,5% para 0,5% da emissão de enxofre das embarcações. Além disso, a estratégia da organização define que até 2050 deverá ser reduzida em 50% a emissão total de gases de efeito estufa. No entanto, embora seja consenso que a transição energética signifique um caminho sem volta, ainda não é possível afirmar concretamente se o Brasil alcançará aquela meta. Para empresas e entidades do setor, a transformação vai depender de alguns fatores que passam pela viabilidade técnica e econômica para a utilização de combustíveis mais limpos. O debate aconteceu durante Webinar “Novos combustíveis marítimos”, realizado pela Portos e Navios, nesta quinta-feira (17).
De acordo com o assessor para assuntos internacionais do Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma), o Comandante Mário Mendonça, a velocidade da transição energética depende de fatores como necessidade, disponibilidade técnica, viabilidade econômica e logística. Entretanto, ele avalia que, no segmento da navegação, entre esses fatores o que de fato existe efetivamente é apenas a necessidade. Isso porque, no atual estágio, a técnica que vem sendo desenvolvida ainda tem baixo alcance em termos globais.
Para Mendonça, em 30 anos é difícil imaginar o setor sem consumir combustíveis fósseis. Ele acredita que a curva da utilização desta fonte de energia só deve começar a cair daqui a 15 anos. Até mesmo o uso do GNL (gás natural liquefeito), considerado o combustível de transição e existente em abundância nos campos de pré-sal no país, vai depender de condições econômicas e logísticas para ser um substituto. Ele lembrou, por exemplo, que ainda não existem terminais de abastecimento do gás no Brasil. E apesar de ser uma alternativa há mais uma década, existem apenas 400 navios, em um universo de 100 mil em todo mundo, que utilizam o GNL como combustível.
O gerente de vendas da área marine da Wärtsilä Brasil, Mário Barbosa, analisa de forma mais otimista o aspecto da viabilidade técnica. Segundo ele, atualmente já existem inúmeras soluções tecnológicas que estão sendo aplicadas em determinados tipos de embarcações, como é o caso dos navios aliviadores totalmente elétricos em alguns países. O ponto importante, para ele, é a necessidade de trazer economicidade aos projetos e analisar onde é possível ser aplicado. Portanto, ele entende que a questão técnica tem que ser vista caso a caso.
A expectativa, segundo o gerente de desenvolvimento de negócios da DNV-GL, Jonas Mattos, é de que em 2050 o combustível fóssil não será predominante, pois, provavelmente existirá no mercado uma diversidade de alternativas como é o caso do Amônio, Hidrogênio, além da possibilidade de embarcações totalmente movidas à eletricidade. Devido ao acesso à tecnologias, com as novas pressões da sociedade e entidades internacionais, ele avalia que a migração para combustíveis limpos se dará de forma mais rápida.
Mattos destacou que, embora as soluções elétricas ou híbridas já sejam uma realidade, ainda não são adequadas para navios de longo curso, isto é, apenas para navegação de distâncias curtas. Para longas viagens, ainda se faz necessário combustível com alta densidade energética. No caso do Amônio e o Hidrogênio, fontes renováveis, ainda são esperados para o futuro, visto que precisam ser regulamentados e melhor estudados quando ao uso, logística, armazenamento, entre outros fatores. Isso porque, o Amônio, por exemplo, possui um alto índice de toxidade e o Hidrogênio é bastante inflamável.
Além de novos combustíveis, Barbosa ressaltou que existe espaço para melhorar a eficiência energética a partir de outras operações como na digitalização, hélices e propulsores mais eficientes, cascos com melhores desenhos, entre outros fatores que ele podem ser vistos também como passos para a transição. A Wärtsilä vem atuando da produção de sistemas de motores otimizados, capazes de queimas GNL, entre outros combustíveis alternativos de forma eficiente.
A Webinar “Novos combustíveis marítimos”, realizado pela Portos e Navios, teve o patrocínio da Wärtsilä Brasil.
Fonte: Revista Portos e Navios