O ano está praticamente encerrado para as empresas com planos de captar recursos no mercado de capitais. E de maneira amarga. A rede de varejo de moda Restoque cancelou ontem uma oferta de ações que poderia movimentar pouco mais de R$ 400 milhões. No mercado de renda fixa, três companhias desistiram dos planos de captar recursos no exterior e, no país, as emissões de títulos de dívida, como debêntures, também têm enfrentado dificuldades para sair.
A piora nos mercados nas últimas semanas é creditada à forte queda das commodities no exterior, com destaque para o petróleo. O movimento atinge de maneira acentuada a economia de países emergentes e produtores de matérias-primas. O humor dos investidores com o Brasil, em particular, também se deteriorou com os desdobramentos das investigações de corrupção na Petrobras, que levou à abertura de processo contra a estatal nos Estados Unidos. Pesam ainda dúvidas sobre o grau de autonomia da nova equipe econômica.
A oferta de ações da Restoque, dona de marcas como Le Lis Blanc e Rosa Chá, era acompanhada com atenção especial pelo mercado porque seria a primeira realizada com a regra que dispensa o pedido de registro na Comissão de Valores Mobiliários. A ideia da norma é acelerar o processo e deixar as empresas menos sujeitas a oscilações de mercado. O Ibovespa, principal índice de ações da bolsa brasileira, acumula queda de quase 9% nos primeiros dias de dezembro.
Segundo fonte a par da operação, havia demanda pelos papéis a menos de R$ 7, mas a Restoque não quis seguir adiante nesse preço. O plano inicial da empresa era captar até R$ 528,4 milhões. Outra fonte diz que o problema maior foi a falta de apetite de estrangeiros; a demanda interna era satisfatória.
Além da empresa de varejo, a Azul Linhas Aéreas anunciou no início do mês a retomada dos planos de abertura de capital. Em sua terceira tentativa de ir a mercado, a companhia planeja fazer uma oferta inicial de ações na BM&FBovespa e na Bolsa de Nova York. Porém, diante do mau humor dos investidores, a operação pode estar mais uma vez ameaçada, segundo banqueiros. “Não tem demanda [por ofertas de ações em geral]”, afirma um desses interlocutores. Ele atribui grande parte da paralisia a questões específicas do Brasil, principalmente os desdobramentos da Operação Lava-Jato e a expectativa dos investidores em relação às novas medidas econômicas.
Outro executivo afirma que a conjuntura tem levado os investidores a buscar menos risco. Há uma combinação de aversão a emergentes, preocupações com a Grécia e mal-estar com as denúncias de corrupção na Petrobras, diz.
Com o fracasso da operação da Restoque, 2014 termina com apenas duas ofertas de ações no Brasil. A companhia de saúde animal Ourofino fez o único IPO (oferta inicial, na sigla em inglês) do ano, que movimentou R$ 418 milhões. Em abril, a Oi fez um aumento de capital de R$ 14 bilhões, incluindo a captação de recursos na bolsa e um aporte de ativos da Portugal Telecom. Foi o menor número de operações em mais de uma década.