unitri

Filtrar Por:

< Voltar

Clippings - 02/07/26

Brasil e Países Baixos projetam fortalecimento da cooperação na cadeia de H2V

O Brasil tem projetos avançados ligados à cadeia do hidrogênio que aguardam a regulamentação de leis nacionais e internacionais para destravar um alto potencial de investimentos privados e quase R$ 20 bilhões em créditos fiscais para empresas que produzirem metanol, amônia e hidrogênio verde. Esse montante será distribuído, entre 2030 e 2035, aos primeiros entrantes dessa indústria, tanto produtores quanto compradores, a fim de reduzir os preços das soluções de baixo carbono. Com a descarbonização de setores da indústria global e a corrida pela segurança energética, parceiros europeus, como os Países Baixos, buscam cooperação com o Brasil, o que passa pelo desenvolvimento de corredores marítimos e pela possibilidade de financiamentos de projetos.

GroenvermogenNL, programa dos Países Baixos para o desenvolvimento da capacidade verde da economia e da sociedade holandesa, mapeou aspectos positivos no Brasil, em especial a matriz energética renovável, que representa um alto potencial para fornecer insumos aos europeus. Em evento no Rio de Janeiro (RJ), nesta quarta-feira (1º), o gerente de projetos internacionais do GroenvermogenNL, Steef Kalsbeek, destacou que os dois países possuem complementaridades para desenvolver um corredor eficiente de descarbonização.

Ele explicou que os Países Baixos possuem uma disponibilidade insuficiente de energias renováveis e limitações estruturais para a captura do CO2 doméstico. O país, no entanto, tem ambição de ampliar os sistemas industriais de forma sustentável. Nesse cenário, o desenvolvimento desse mercado no Brasil pode representar um acesso de produtos brasileiros com baixa emissão aos mercados da União Europeia.

Os Países Baixos possuem clusters industriais avançados e com emissões concentradas: 12 empresas juntas causam 75% das emissões industriais de CO2. Há um importante potencial para o desenvolvimento de hidrogênio para uma demanda por aço e produtos químicos de baixo carbono, por exemplo, assim como combustíveis sintéticos. Kalsbeek destacou que o Porto de Roterdã é porta de entrada para a Europa, movimenta 5% do combustível marítimo global, e 13% da energia da União Europeia passam por ele.

A CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), Fernanda Delgado, considera que o Brasil tem fundamentos mercadológicos para ser um grande hub de hidrogênio, mas ainda falta a segurança da regulamentação do marco regulatório, aprovado há dois anos (leis 14.748/2024 e 14.990/2024). “Precisamos avançar em algumas frentes para sentarmos com os protagonistas para essa discussão”, afirmou, durante o evento ‘Orange Dialogues’, promovido pelo Consulado Geral dos Países Baixos no Rio de Janeiro.

Há duas semanas, o Ministério da Fazenda anunciou que o primeiro leilão de acesso concorrencial dos R$ 18 bilhões em subsídios ocorrerá em janeiro de 2027, o que deixou a indústria otimista. Na sequência, os ministérios de Minas e Energia (MME) e de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) sinalizaram que o decreto regulamentador está na iminência de ser assinado pelo governo federal.

“Só falta essa pequena atuação para que a gente tenha o arcabouço regulatório. Depois, vem o trabalho da ANP [Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis], que já começou. Já se tem uma série de publicações, grupos de trabalho e pessoas dedicadas para formar o marco regulatório dessa indústria”, destacou Fernanda à Portos e Navios. Pela nova legislação, a ANP vai incorporar a regulação do setor de hidrogênio a suas atribuições.

Ela citou que já existem, ao menos, dois projetos concretos de hidrogênio e metanol no Brasil, em escala comercial. Uma planta da White Martins que comercializa hidrogênio verde para para indústrias de vidro no interior de São Paulo, além de uma planta da Neoenergia, em Brasília, para produção do H2V para ônibus e caminhões. Segundo a executiva, eses caminho foi pavimentado pela tecnologia e pelo desenvolvimento da engenharia.

Fernanda destacou que existem projetos de larga escala no complexo do Pecém (CE). Os mais avançados são das empresas Fortescue e da Casa dos Ventos, voltados para a produção de amônia verde, visando o mercado de combustíveis marítimos do futuro. A primeira, que atua na área de mineração, trouxe ao Brasil uma embarcação movida à amônia, durante a COP-30, em novembro do ano passado.

A associação de indústrias ao H2V representa um ‘selo premium’, que facilita o acesso a mercados que exigem comprovação da origem da matéria-prima. O diretor no Brasil da Fortescue, Luis Viga, destacou a possibilidade de alavancar e gerar valor aos produtos a partir do selo verde, além de gerar independência do uso de combustíveis fósseis, aumentando a segurança energética.

Ele observa que Países Baixos, Alemanha e França, são exemplos de consumidores de hidrogênio verde e de seus derivados, para os quais o Brasil vem  se apresentando como potencial parceiro. “Existe uma necessidade na Europa que precisa ser suprida e o Brasil está bem posicionado pela qualidade (…). O Brasil reúne uma série de predicados para ser esse hub de H2V mundial”, disse Viga.

O executivo contou que o projeto de larga escala em Pecém está avançado e terá 1,3 gigawatts (GW) de capacidade instalada. Ele vê a demora na regulamentação brasileira é parte do problema, mas que a Europa também está ‘patinando’ nesses mandatos, que vão ancorar os contratos no Brasil. “O principal problema é ter essa certeza do mandato para começar a indústria e para que depois ela possa andar com seus próprios pés”, analisou. Viga acredita que a parceria de Roterdã com Pecém, além da eficiência e de questões operacionais, foi importante para a criação do corredor verde marítimo entre os Países Baixos e o Brasil.

A CEO da ABIHV lembrou que a regulação da Organização Marítima Internacional (IMO) vai obrigar empresas de navegação a reduzir as emissões. “Já existem navios, já existem motores e os combustíveis estarão prontos no Brasil a partir de 2030-2032, com a FID (tomada de decisão de investimentos) dessas empresas que aguardamos ansiosamente”, projetou Fernanda.

Ela acrescentou que a tecnologia é sempre mais rápida que o desenvolvimento regulatório. Fernanda lembrou que, em recente reunião da Organização Marítima Internacional (IMO), foi dito que já existem navios e motores preparados para os novos combustíveis. “Já existem combustíveis, já existem motores duais que queimam etanol e metanol, ou GNL (gás natural liquefeito) e amônia, por exemplo, mas ainda precisamos do impositivo da lei”, reforçou.

Fonte: Portos e Navios.