Nafta petroquímica, produto que não contribui para o aquecimento global como os combustíveis fósseis, perde quase metade do peso no total da produção de derivados

Apesar da crescente preocupação com as mudanças climáticas, o Brasil reduziu nas últimas duas décadas a parcela de produtos leves no total da produção de derivados de petróleo. Por outro lado, produtos pesados e de intensidade média como óleo combustível e diesel ganharam espaço desde 2000, início da série histórica do órgão regulador.
Gasolina, nafta e GLP considerados leves pela classificação API (American Petroleum Institute) representam 34,2% da produção total segundo dados de 2023, calculou o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep) a pedido da Brasil Energia.
Em 2000, estes derivados leves compunham 38% da produção de derivados de petróleo no Brasil. Na última década, a respectiva participação de derivados leves e pesados se manteve relativamente estável, com poucas mudanças, o que, para especialistas, é um retrocesso num momento em que países discutem zerar as emissões para cumprir o Acordo de Paris.
Querosene, diesel e óleo combustível correspondem a 57,4% da produção segundo o último ano apurado, levantou o Ineep com base em dados da ANP. Essa participação era de 54% em 2000.
Já a participação de asfalto e coque, mais pesados, subiu de 3,9% para 5,7% da produção total, do começo da série histórica até o último ano apurado.
O diesel, carro-chefe da produção, com cerca de 40% mais emissões de carbono que a gasolina, elevou a participação na matriz de derivados de 33% para 38%.
“Realmente o mundo civilizado vem reduzindo a produção de diesel, mais poluente, mas temos um déficit imenso neste derivado que nos obriga a manter uma importação de quase 30% do equivalente à produção total de derivados de petróleo”, explica um executivo do setor de refino.
O diretor do Ineep, Mahatma Ramos dos Santos também não vê soluções de curto prazo para neutralização total das emissões provocadas pelo uso do diesel, mas acredita há avanços para mitigá-las.
Sem solução pronta
“Há um intenso debate e busca por soluções para redução do uso dos derivados de petróleo no Brasil e no mundo hoje, ou ainda, para mitigação dos seus efeitos. No entanto, o Ineep acredita que essa substituição será gradual e diferente de acordo com cada tipo de derivado e território”.
Ele cita algumas iniciativas que vão nessa direção, como o aumento progressivo da mistura do biodiesel no diesel que hoje é de 14% (B14) e deve atingir 15% (B15) em 2025, definido pelo CNPE. O PL dos Combustíveis do Futuro, recém aprovado na Câmara dos Deputados, prevê que essa parcela chegue a 20% até 2030.
“São algumas medidas adotadas para mitigar as emissões decorrentes do uso desses combustíveis, mas ainda estão longe de neutralizar as emissões”.
O setor deu início a estudos e investimentos para substituir derivados fósseis por verdes. A Petrobras e a Acelen possuem, entre seus projetos, plantas de biorrefino. São iniciativas promissoras, como avalia o pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) Felipe Barcellos e Silva. Para ele, porém, antes de se pensar na oferta de alternativas, o Brasil precisa focar na demanda.
Mais foco na demanda e planejamento
“É preciso acelerar a reestruturação das cidades, menos distâncias percorridas, menos viagens, incentivo de transportes públicos, para aí sim se pensar em alternativas como biocombustíveis, eletricidade, diesel verde etc”.
Mahatma lembra que em abril a ANP aprovou uma resolução que propõe o encerramento do uso de diesel S500 e S1800 no Brasil e sua substituição por S10. “Tal medida não estabeleceu ainda um cronograma para efetivação dessa substituição total, mas pode acelerar esse processo.
A melhora na qualidade do diesel nos últimos anos, com muito menos teor de enxofre, é fundamental para reduzir a poluição do ar, mas não faz diferença para as mudanças climáticas, destacam especialistas. A Petrobras tem acelerado a substituição do diesel S500 para S10, com muito menos moléculas de enxofre. Mas a intensidade de carbono nos dois tipos é a mesma, lembra o pesquisador do Iema.
“O Brasil é um país que cresce em cima do caminhão, nossa agricultura está baseada no transporte rodoviário, ou seja, este problema só tende a aumentar”, acrescenta a fonte do setor, que possui experiência de décadas na gestão de refinarias.
Menos emissores de dióxido de carbono, gasolina, GLP e nafta não cresceram como diesel ao longo das últimas duas décadas por questões diferentes. O Brasil é praticamente autossuficiente em gasolina, não precisa produzir mais como o diesel.
Nos últimos dez anos, a gasolina ficou praticamente estável no total da produção de derivados, cerca de 23%. Já o óleo combustível ganhou mais peso, com produção mais acelerada. A demanda não cresceu no Brasil, mas as exportações cresceram e refletem a procura por bunker, combustível de navios.
Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de derivados, a gasolina é o carro-chefe. Também são grandes produtores de nafta petroquímica, produto que perdeu bastante espaço na matriz brasileira.
A nafta perdeu quase metade do peso que tinha na produção de derivados. Uma pena, porque seu uso voltado na cadeia de polímeros e plásticos não contribui para o aquecimento global como os combustíveis fósseis, como lembra o pesquisador do Iema.
Segundo o Ineep, na comparação entre 2023 e 2000, há uma queda de 44% na produção de nafta – a participação do produto varia de 4 a 5% da produção total. A queda, segundo o instituto, reflete o comportamento da demanda da indústria petroquímica pelo insumo básico para produção de polietileno, polipropileno, poliestireno e poliuretanas.
Dados da Secex apontam para um aumento considerável da importação de nafta pela indústria brasileira.
Perspectivas
Para o diretor do Ineep, as tendências observadas apontam para um avanço progressivo e gradual da indústria de óleo e gás e energética de forma geral para substituição dos derivados de petróleo. A velocidade dessas mudanças, porém, ninguém arrisca dizer.
Mahatma e Felipe lembram das diversas novas rotas tecnológicas que estão sendo estudadas e desenvolvidas nesse sentido, como as rotas orgânicas, especialmente associadas à produção de biocombustíveis (diesel verde, biometano, bio-bunker e bio-QAV), e as rotas eletrolíticas, isto é, o desenvolvimento de combustíveis sintéticos (e-metanol, e-SAF), hidrogênio de baixo carbono (inclusive o hidrogênio verde) e amônia verde.
“O Brasil detém fortes potencialidades para desenvolvimento de ambas as rotas, contudo, é necessário ainda tanto a regulamentação desses novos mercados, como de uma política industrial ativa de indução e promoção dessas rotas tecnológicas. A coordenação do Estado no desenvolvimento e promoção dessas novas rotas tecnológicas são elementos essenciais para descarbonização de nossa matriz e transição energética justa no Brasil”, diz Mahatma.
A reportagem procurou as maiores empresas de refino do Brasil, Petrobras e Acelen.
A empresa privada que detém a Refinaria de Mataripe, na Bahia, informou que irá investir inicialmente mais de US$ 3 bilhões nos próximos anos no primeiro projeto modelo com objetivo de atingir a capacidade anual de 1 bilhão de litros de SAF (combustível renovável de aviação) e HVO (diesel renovável), “criando um modelo inovador, competitivo e totalmente integrado, desde a germinação da semente até a distribuição dos combustíveis, nos tornando um vetor de desenvolvimento sustentável”.
A Acelen Renováveis escolheu a macaúba como a principal matéria-prima, com foco na produção SAF. “Nos próximos anos, esperamos plantar 180 mil hectares de macaúba e estamos no caminho para produzir 20 mil barris por dia (cerca de um bilhão de litros por ano) de SAF e diesel renovável. Isso é mais do que a produção global total de SAF hoje, e seremos capazes de fazê-lo a preços muito competitivos”.
A Acelen Renováveis assinou parcerias em tecnologia que serão incorporadas ao CITA – Centro de Inovação e Tecnologia Agroindustrial, que está sendo construído pela empresa em Montes Claros. Instituições de pesquisa renomadas como ESALQ/USP, Unicamp, Instituto Agronômico de Campinas – IAC, Universidade Federal de Viçosa – UFV e Embrapa, além de universidades internacionais como a University of Califórnia-Davis e Cornell University, integram o ecossistema que a Acelen Renováveis formou para o desenvolvimento do pilar agro.
A Petrobras não retornou aos pedidos de entrevista para esta reportagem.
Fonte: Revista Brasil Energia