A greve dos caminhoneiros autônomos nos portos de Itajaí, Navegantes e Itapoá trouxe um novo capítulo ao desgaste da agroindústria catarinense no exterior.
Cargas já negociadas com países que não suspenderam a compra da carne brasileira estão embarcando com atraso, o que pode prejudicar as relações – já balançadas – com o mercado. Ontem, em reunião na Associação Empresarial de Itajaí (ACII),
representantes das maiores exportadoras de aves e suínos no país ameaçaram deixar de operar nos portos catarinenses caso o entrave persista. A carne
congelada corresponde a 40% da movimentação dos terminais portuários em Santa Catarina.
Além do atraso no envio dos contêineres, a agroindústria tem dificuldade de baixar os estoques por demora no escoamento. Na BRF, maior exportadora de frangos no país, já falta espaço para armazenagem. Diretor executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados (Sindicarne) e da Associação Catarinense de Avicultura (Acav), Ricardo de Gouvêa diz que no fim de semana algumas indústrias chegaram perto de ter que suspender a produção para aliviar os estoques. O prejuízo ainda não foi mensurado, mas as entidades se preocupam.
– O problema é entre o sindicato das transportadoras e dos autônomos. Não temos nada a ver com isso, mas o prejuízo é nosso, porque a carga é perecível. A
tendência é remanejar para outros portos, como Paranaguá ou Santos, e diminuir o volume por aqui – afirma.
Além das cargas de exportação, também há atraso na entrega de contêineres de importação, que são levados pelos caminhoneiros autônomos para fora do Estado.
Uma possível queda na movimentação de carga congelada em Santa Catarina impacta diretamente nos portos de Itajaí e Navegantes, que respondem pela maior fatia desse mercado e mantêm uma rede logística e de armazenagem especializada nesse
tipo de carga. Preocupado com as consequências de uma perda de mercado, o presidente da ACII, Eclésio da Silva, que também responde pelo Sindicato das
Agências Marítimas (Sindasc), marcou uma reunião na manhí de ontem com o prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni (PMDB), o prefeito de Navegantes, Emílio
Vieira (PSDB), o presidente da Associação Empresarial de Navegantes, Rinaldo Araújo, e representantes do Sindicato dos Transportadores Autônomos de
Contêineres (Sintracon) para tentar um acordo.
Nos últimos dias o movimento, que até então era pacífico, passou a ter caminhões apedrejados e caminhoneiros que continuam trabalhando dizem ter recebido ameaças – pelo menos um deles teria sido agredido. A Polícia Militar está escoltando
comboios de caminhões nas proximidades dos três portos, para evitar confrontos.
Desde quinta-feira já foram feitas mais de 600 escoltas em Itajaí, Navegantes e Itapoá.
PARALISAçãO SE ARRASTA DESDE INÍCIO DE MARÇO
A greve dos caminhoneiros autônomos começou no início de março, mas o avanço das negociações, aliado a decisões judiciais obtidas por empresas como a JBS, em Itajaí, fizeram com que a paralisação fosse suspensa por cerca de 10 dias. A greve foi retomada na semana passada, porque não há acordo com as entidades patronais.
O principal entrave está no pedido dos autônomos para que haja um valor mínimo de frete. O Sintracon alega que o mesmo trecho de 16 quilômetros, que sai por R$ 90 em Santa Catarina, custa mais que o dobro em Santos – e que os valores, desatualizados, não são suficientes para cobrir os custos de transporte.
As entidades patronais, no entanto, argumentam que os preços têm que ser regulados pelo mercado e a definição de valor mínimo seria ilegal. O presidente
do Sintracon, Ademir de Jesus, não foi localizado para comentar as solicitações.
O sindicato afirma que não apoia os confrontos entre os caminhoneiros.
Para os representantes da agroindústria, falta urgência entre as empresas para resolver a situação.
– As transportadoras têm que fazer a linha de frente. Estão cuidando das escoltas, mas não estão dando muita atenção para solução definitiva do problema.
Vamos ter que cobrar esse prejuízo de alguém – diz Gouvêa.
Presidente da Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística de Santa Catarina (Fetrancesc), Ari Rabaiolli admite que há dificuldade na negociação.
– A maioria dos caminhoneiros não é filiada ao sindicato. O acordo fica muito difícil porque não temos como conversar.