A expansão do terminal portuário da VLI – empresa de logística integrada – em Santos (SP) está no meio de um imbróglio que rachou a diretoria da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), estatal que administra o porto público santista.
Contrariando decisão da diretoria, o presidente da Codesp, Alex Oliva, autorizou de forma isolada que a VLI – cujo terminal fica fora do porto público – iniciasse uma dragagem e descartasse o material no bota-fora gerenciado pela estatal.
A posição do presidente da Codesp surpreendeu a diretoria da estatal. Após tomar a medida, Oliva explicou aos demais diretores em conversa pelo aplicativo whatsapp à qual o Valor teve acesso que o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, teria ligado para ele e determinado “que fosse dada a autorização para a dragagem da VLI”. Os sócios da VLI são a Vale, Mitsui, FI-FGTS, e Brookfield. A Casa Civil nega.
Os quatro demais diretores da Codesp queriam esperar um parecer técnico – previsto para sair hoje – que mensurasse os riscos e medidas a serem tomadas para que o material da VLI não causasse danos ambientais na área que a Codesp usa para dispor os sedimentos da dragagem do porto.
O temor é que se houver algum nível de contaminação do material da VLI o serviço de desassoreamento do cais santista seja, no limite, paralisado por órgãos ambientais. Sem dragagem constante, as dezenas de terminais do porto público perdem competitividade, pois o assoreamento ali é perene.
Mas Oliva ignorou os colegas e, no dia 2 de setembro, deu uma autorização “ad referendum” (sujeita à alteração por parte de um colegiado) para a VLI. O presidente teria se baseado em uma manifestação preliminar da área de meio ambiente da estatal, mas que não autorizava em definitivo o despejo do material da empresa no bota-fora da Codesp. Desde então, a VLI realiza o depósito dos sedimentos. Procurada, a Codesp não se manifestou até o fechamento desta edição.
A Casa Civil disse que o ministro Padilha “não determinou nada para a Codesp”, mas confirmou que a subchefe da Casa Civil para articulação e monitoramento, Natália Marcassa, se reuniu um dia antes, em 1º de setembro, com o presidente da VLI e uma diretora da empresa.
Segundo a pasta, na reunião, a VLI questionou se teria alguma diretriz de governo que pudesse impedir o andamento da obra de dragagem do terminal da empresa, o chamado “Tiplam”. Natália informou que não e “entrou em contato com o diretor-presidente da Codesp e com o diretor-geral da Antaq, que informaram que uma primeira parte da obra não tinha pendências técnicas e que poderia ser autorizada”.
A dragagem da VLI é uma das etapas da expansão do terminal de uso privado que está avaliada em R$ 2,2 bilhões e em curso desde 2013. Somente com a dragagem a VLI poderá receber navios graneleiros de grande porte.
A empresa, contudo, está instalada próxima a uma região que, no passado, foi despejo de material contaminado das indústrias de Cubatão, daí o temor. A VLI afirmou ao Valor que o material da dragagem em curso tem qualidade adequada para ser disposta no bota-fora da Codesp, que é licenciado pelo Ibama.
A dragagem da VLI será feita em duas fases. A primeira é a abertura de uma cava que posteriormente receberá, na segunda etapa, o material a ser de fato dragado do canal de Piaçaguera – espécie de continuação do canal do porto de Santos e que está fora da jurisdição da Codesp.
“O material a ser retirado da abertura da cava apresenta, de acordo com o órgão ambiental que licencia o processo, qualidade adequada para a sua disposição no PDO [Polígono de Disposição Oceânica] do porto de Santos”, disse a VLI em nota. A empresa sustenta que obteve no dia 1º de julho a anuência prévia da Codesp e no dia 2 de setembro a autorização definitiva para realizar a primeira etapa de depósito no PDO do material oriundo da abertura da cava.
Nessa etapa, serão depositados 280 mil metros cúbicos por mês que, segundo a VLI, irão para uma área do bota-fora “menos utilizada nos processos de dragagem realizados pela Codesp”.
Para a segunda etapa de abertura da cava, em que o volume de material gerado mensalmente aumentará, a empresa diz que será necessária uma nova autorização a ser emitida pela Codesp. Segundo a empresa, técnicos da VLI e da Codesp “avaliarão a melhor forma para o depósito do material de acordo com o cronograma de dragagem do porto”.
As obras de expansão do terminal da VLI estão atualmente cerca de 90% concluídas. A previsão é que a inauguração do empreendimento ocorra em 2017. A VLI completou que o Tiplam “foi devidamente autorizado pelos órgãos competentes como Cetesb e Antaq e chancelado como prioritário pela SEP [agora vinculada ao Ministério dos Transportes]”.