O Porto do Açu (RJ) estará na rota para o escoamento de grãos, soja e milho, já na safra deste ano. Serão testados produtos e rotas específicas, a exemplo da soja “OGM free”. Em 2020, o porto chegou a realizar a primeira movimentação de fertilizantes. E para este ano, a expectativa é de movimentar 150 mil toneladas deste produto, sendo que o porto tem capacidade de armazenagem de 25 mil toneladas. De acordo com o diretor de portos e logística do porto, João Braz, existe ainda a previsão de expandir o Terminal Multicargas com ampliação da capacidade de estocagem.
Concebido originalmente para as exportações de petróleo e minério, o porto passará pela primeira vez a transportar carga do agronegócio. Braz afirmou que a infraestrutura rodoviária que existe atualmente atende a demanda dos próximos anos, porém, investimentos em infraestrutura e logística são necessários para consolidar a região como uma opção para o agronegócio em longo prazo.
Entre os investimentos estão o contorno viário de Campos, obrigação prevista na atual concessão da BR-101/Norte, a implantação da rodovia estadual (RJ-244), que conectará o porto à BR-101. Além da ferrovia (EF-118), conhecida como Rio-Vitória. A RJ-244, segundo Braz, deve ser licitada pelo governo do estadual ainda este ano viabilizará um acesso dedicado ao porto.
A EF-118 permitirá a criação de um anel ferroviário entre os estados do Sudeste. Além disso, a conexão ferroviária do Porto do Açu vai proporcionar uma nova opção de exportação para o corredor logístico centro-leste, hoje limitado à capacidade de movimentação do Porto de Tubarão (ES).
No entanto, para o ex-secretário estadual de Petróleo, Energia e Indústria Naval do Rio de Janeiro, Wagner Victer, que participou do processo de concepção do Açu, nunca houve previsão da colocação de soja. Ele afirmou que isso, inclusive, foi discutido nos processo de licenciamento ambiental. Ele disse ainda que a única commoditie prevista à época foi o minério de ferro vindo através de minerodutos.
“Não havia previsão de soja, ainda mais para chegar ao porto pelas rodovias”, frisou Victer. Para ele, a soja a rigor só pode ser levada pelas ferrovias e que, transportá-la pela rodovia representa uma visão “curta” e fora de toda a concepção original. Mesmo que ocorram eventuais melhorias nas rodovias, como a afirma a Autoridade Portuária, ele avalia que seria uma perda de oportunidade de se implantar a ferrovia.
Victer afirmou que uma nova carga chegando ao porto pode ser importante apenas para uma pequena arrecadação. Ele entende que só seria justificável a exportação de grãos no porto caso fosse o elemento para alavancar o transporte ferroviário, capaz de impulsionar também outras cargas como carga geral de caráter industrial. “O porto tem uma grande vocação para instalação de indústrias”, pontuou.
Ele disse que ainda os próprios políticos locais e pessoas ligadas ao tema não tinham conhecimento, até então, dessa evolução do terminal de soja. Victer questiona também sobre a existência do licenciamento ambiental e as audiências públicas que são necessárias para a nova movimentação de carga.
Porém, Braz acredita que a nova carga poderá agilizar a implantação da Ferrovia Rio-Vitória. Segundo ele, o porto trabalha junto aos governos do Rio de Janeiro, do Espírito e do governo federal para que a ferrovia siga como prioridade na lista de projetos ferroviários. Ele destacou que a retomada do modal vai diminuir os gargalos logísticos atualmente existentes, conectando importantes portos da região sudeste, além de contribuir para a redução do chamado Custo Brasil.