Com a insurgência sunita num impasse e seus combatentes tentando consolidar seus ganhos, o temor de um abalo na produção de petróleo do Iraque diminuiu. E o mesmo ocorreu com o preço do petróleo. A cotação do barril caiu US$ 5 desde meados de junho, com o contrato para agosto do tipo Brent ficando ontem abaixo dos US$ 109. Mas as preocupações com o Iraque não desapareceram.
Em vez disso, o foco mudou para os efeitos de longo prazo da violência e o que os choques sectários significam para o futuro da indústria petrolífera do país.
“A realidade não mudou… a perturbação interna é pequena”, diz Ed Morse, diretor global de análises de commodities do Citigroup. “A preocupação envolve o médio e o longo prazos, e não o curto prazo. As maiores preocupações… dizem respeito à balança em 2020.”
O Iraque é importante para o mercado mundial de petróleo. É o sétimo maior produtor mundial e o segundo maior da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). Tem reservas comprovadas de até 150 bilhões de barris, que segundo analistas estão entre as de desenvolvimento mais barato do planeta. Seus campos estão em terra e, no caso das reservas gigantescas ao redor de Basra, em terreno não povoado e plano, com geologia relativamente simples.
“É por isso que, quando se trata do potencial de agregar volumes significativos num perãodo de cinco a dez anos, o Iraque é a melhor opção”, diz a consultoria Energy Aspects de Londres.
Nos últimos anos, o Iraque ressurgiu como fonte importante de petróleo, com a produção atingindo o maior patamar em 35 anos, de 3,6 milhões de barris/dia, em fevereiro. A Agência Internacional de Energia (AIE) acredita que o Iraque responderá por cerca de 60% da capacidade de crescimento da Opep entre hoje e 2019.
Mas sempre há uma preocupação constante com a capacidade do Iraque de cumprir metas ambiciosas por causa da infraestrutura fraca, problemas com água e escassez de mão-de-obra. Antes mesmo dos conflitos sectários recentes, que vêm fervendo em fogo brando há anos, poucos analistas acreditavam que o Iraque iria cumprir sua meta de produzir de 8,5 milhões a 9 milhões de barris/dia até 2020.
Os combates contribuíram para esses problemas e criaram novos, com efeitos mais duradouros, dizem analistas. A deterioração da segurança no Iraque vem forçando empresas como a Exxon e a BP a contratar trabalhadores estrangeiros, enquanto os entraves burocráticos aumentaram e os projetos de infraestrutura estão ficando em segundo plano enquanto o governo luta contra os insurgentes.
A maior parte da produção de petróleo do Iraque (cerca de 2,5 milhões de barris/dia) está no sul, longe da insurgência, mas a infraestrutura no norte está vulnerável. Qualquer dano significativo à refinaria de Baiji, a maior do Iraque, poderia prolongar os distúrbios no norte e levar à falta de energia em Bagdá e seus arredores.
O oleoduto de Kirkuk-Ceyhan, que transporta petróleo e percorre quase todo o território controlado pela milícia Estado Islâmico do Iraque e Síria (Isis) está desativado, por ter sido bombardeado, e é difícil imaginar como ele será reparado num futuro previsível.
Portanto, não foi nenhuma surpresa quando a AIE reduziu suas previsões de produção para o Iraque no mês passado em quase 500 mil barris/dia. Ela agora estima que o país produzirá apenas 4,5 milhões de barris/dia até 2019.
“Para começar, as metas de produção do Iraque não eram realistas. Mesmo sem essa instabilidade, seria difícil alcançá-las”, diz Laura El-Katiri, analista do Oxford Institute for Energy Studies. “Psicologicamente, o Iraque é muito importante, especialmente em razão da instabilidade na Líbia e das sanções que estão prejudicando o Irí.”
Alguns analistas dizem que a crise no Iraque pode levar a exportações maiores no curto prazo, via a região semiautônoma curda. O governo da região, que está preparando as bases legais para um referendo sobre a independência, espera poder bombear 1 milhão de barris/dia até o fim de 2015, incluindo o petróleo de Kirkuk.
Mas problemas de capacidade do oleoduto de exportação curdo e a oposição de Badgá às vendas de petróleo da região poderão atrapalhar as exportações. Um acordo envolvendo o compartilhamento de receita e acordos de exportação precisam ser firmados para que haja progressos importantes.
A possibilidade de o Iraque criar um sistema político robusto o suficiente para estimular uma produção maior até o fim da década é incerta, já que é preciso tempo e vontade política para resolver os conflitos regionais, éticos e religiosos. A instabilidade política pode dissuadir e até obstruir o investimento estrangeiro, afetando a produção e obras de infraestrutura.
“Em nenhum momento nos últimos 11 anos o governo deixou de conduzir os negócios, mas teme-se o que poderá acontecer se o centro desmoronar”, diz Shashank Joshi, do centro de estudos Royal United Services Institute.