A fase decisiva da licitação das quatro corvetas Classe Tamandaré, para a Marinha do Brasil, terá por prioridade avaliar prazo de entrega, preços e condições de financiamento. O desempenho das embarcações também será objeto de estudo, assim como a navegabilidade, autonomia e capacidade de armamentos. Os quatro consórcios finalistas deverão apresentar uma oferta melhorada das propostas originais, a chamada Best and Final Offer (Bafo). A próxima fase, inicialmente prevista para ser anunciada em dezembro, foi alterada para março, com o objetivo de alinhar o programa ao novo governo.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) pretende conversar com representantes dos quatro consórcios proponentes da short list com o objetivo de conhecer melhor as demandas por equipamentos, além de apresentar os potenciais de fornecimento da indústria local. A associação considera possível atingir um percentual de 40% de conteúdo nacional nesses projetos.
A Abimaq avalia que seus associados podem fornecer um pacote que atinja o índice, com exceção do sistema de defesa. “Temos histórico de fornecimento para a corveta Barroso no passado e capacidade técnica. Facilmente a Abimaq, através de seus associados, consegue fornecer materiais suficientes para alcançar, já no primeiro projeto de corveta, os 40% de conteúdo local, que é intuito da indústria brasileira”, garantiu o vice-presidente da Abimaq, Marcelo Campos.
O executivo disse que essa aproximação com proponentes da short list já vem se desenrolando há um tempo e que a Abimaq está em contato com a Marinha desde o início do projeto. Ele ressaltou que o reaparelhamento do programa de superfície da Marinha é estratégico para o país. “Para se ter soberania sobre esses projetos, é imperativo que a Abimaq participe desse processo, em grande sinergia com a Marinha, para fornecer o maior número de equipamentos com qualidade e desempenho já provados em projetos anteriores e em projetos atuais”, comentou.
O vice-presidente da Abimaq acrescentou que projetos dessa relevância contam com indústria local em marinhas de todo o mundo, como a norte-americana, chinesa, francesa e italiana. “A indústria está muito próxima dos estaleiros já por conta do O&G e naval, aos quais já atendemos. Os requisitos de Marinha são um pouco diferentes, mas nada que não possamos atender. A questão é garantir que essas demandas tenham eco na indústria local”, defendeu.
Um fornecedor de equipamentos que manteve conversas com representantes dos consórcios da short list revelou que as cotações por equipamentos locais ainda estão tímidas nesta reta final. Um dos motivos alegados pelos consórcios seria a dificuldade de encontrar cotações localmente, seja por conta das demissões na indústria, seja pela falta de engenharia de projetos, ambas fruto da ociosidade no setor de O&G nos últimos quatro anos. “O mercado quer cotar itens de prateleira. Eles [proponentes] não estão cotando”, diz um fornecedor que preferiu não ser identificado.
A fonte observa que alguns dos proponentes da short list das corvetas estão declinando da cotação e afirma que há fornecedores dispostos a apresentar conteúdo local para os finalistas. A fonte acredita que a indústria brasileira consegue atender à parte da demanda de equipamentos para as corvetas.
Os fabricantes temem que os proponentes deixem de lado o conteúdo local por considerar os itens nacionais mais caros e peçam isenção de atendimento ao índice (waiver) à Marinha. Eles tentam evitar a importação de alguns itens, como ocorreu na construção dos submarinos da força naval, sob o argumento de não haver similares no Brasil. “Os fornecedores querem desmistificar a questão e provar que podem atender parte da demanda”, diz a fonte.
Procurada pela Portos e Navios, a Marinha negou a existência de pedidos de isenção de conteúdo local por parte dos proponentes à construção das corvetas. A força naval afirmou que as principais dúvidas apresentadas pelos consórcios no processo das corvetas foram esclarecidas. A primeira fase do processo (análise das propostas) teve estabelecidos dois períodos de questionamentos: o primeiro de 22 de janeiro a 27 de abril de 2018 e o segundo de 13 de agosto a 13 de setembro. “As proponentes apresentaram 284 solicitações variadas, as quais foram satisfatoriamente esclarecidas”, disse a Marinha em nota.
A short list é formada pelos consórcios: Águas Azuis, Damen Saab Tamandaré, FLV e Villegagnon. Com a decisão, a construção desses navios está entre os estaleiros: Enseada (BA), Oceana (SC), Vard (PE) e Wilson Sons (SP). Os investimentos previstos para construção das quatro unidades são da ordem de US$ 1,6 bilhão.
Consórcios que passaram para próxima etapa: Consórcio Águas Azuis — Atech Negócios em Tecnologias S.A., Embraer S.A. e Thyssenkrupp Marine Systems GmbH, contando com as empresas subcontratadas Ares Aeroespacial e Defesa S.A., Fundação Ezute, Oceana Estaleiro S.A., Omnisys Engenharia Ltda., SKM Eletro Eletrônica Ltda. e WEG Equipamentos Elétricos S.A.
Consórcio Damen Saab Tamandaré — Damen Schelde Naval Shipbuilding B.V. e Saab AB, contando com as empresas subcontratadas Consub Defesa e Tecnologia S.A., WEG Equipamentos Elétricos S.A., Teksea Sistemas de Energia e Wilson Sons Estaleiros Ltda.
Consórcio FLV — Fincantieri S.p.A, Leonardo S.p.A e Vard Promar S.A., contando com as empresas subcontratadas Fundação Ezute e Ares Aeroespacial e Defesa S.A.
Consórcio Villegagnon — Naval Group (antiga DCNS), Enseada Indústria Naval S.A. e Mectron S.A.
A escolha foi feita por intermédio da Diretoria de Gestão de Programas da Marinha (DGePM), em coordenação com a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron). De acordo com a Marinha, as avaliações das propostas e o processo decisório observaram as práticas de governança e princípios aplicáveis à administração pública, com base nos critérios definidos na RFP 40005/2017-1.
Fonte: Revista Portos e Navios