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Na Mídia - 01/02/23

Cresce a demanda por avião, que fica mais caro

Preço de motor de avião já havia subido entre 10% e 13% em 2022 e a alta do custo dodinheiro encarece operações de leasing — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Depois de dois anos com muitos aviões estacionados ao redor do mundo por causa da pandemia, o crescimento da demanda por transporte de passageiros tem feito as aéreas correrem para conseguir aviões. A ainda difícil situação da cadeia produtiva global, associada à alta repentina da procura, tem feito o preço das aeronaves subir e postergado as entregas.

O mercado brasileiro, entretanto, tem conseguido firmar contratos. A frota operacional das três principais aéreas do Brasil (Latam Brasil, Gol e Azul) fechou 2022 com 392aviões. Considerando apenas Azul e Gol (Latam não divulga projeção local), a frota das duas deve saltar 11% neste ano, para 283.

A irlandesa Avolon, terceira maior arrendadora de aeronaves do mundo, estimou em pesquisa recente que o tráfego global deverá retomar aos níveis pré-pandemia em junho próximo. “A previsão é mais positiva do que as anteriores, como a da Iata [Associação Internacional de Transporte Aéreo], que chegou a apontar retomada total em 2024”, disse ao Valor Jim Morrison, diretor de risco da Avolon.

Com as aéreas segurando caixa na pandemia, os arrendadores ganharam um espaço maior no mercado. Em 2019, os arrendadores responderam por 45,87% de todos os 24,2mil aviões da frota global de aeronaves (de corredor único e duplo), mostrou o estudo da Avolon.

Em 2022, os arrendadores foram responsáveis por fazer a frota global subir 6,2%,para 25,7 mil aeronaves. Sozinho, os chamados lessores adicionaram 1.850 aeronaves, enquanto as aéreas reduziram em 350. Com o salto, o setor passou a responder por 50,4%da frota global.

“As aéreas do mundo precisavam de suporte adicional na pandemia. Trabalhamos juntos. Com a queda nas restrições de fronteira os passageiros estão voltando e agora vemos um bom momento tanto para as aéreas quanto para os lessores”, disse Morrison.

Depois, ele ponderou: “Temos agora um movimento reverso, com as aéreas retomando a procura por aviões e as fabricantes não sendo capazes de entregar [na velocidadenecessária]”, disse, acrescentando ainda a inflação global.

As fabricantes de motores (componente mais caro) aumentaram os preços de catálogo entre 10% e 13% apenas em 2022, segundo o estudo divulgado pela arrendadora, do qual Morrison é co-autor.

O cenário de alta do custo do dinheiro tem colaborado com um leasing mais caro dos aviões, disse Alexandre Wagner Malfitani, diretor vice-presidente financeiro da Azul. Ele explicou que o leasing tem um ajuste que considera a inflação, assim os contratos já fechados também são impactados.

Malfitani disse que a aérea conseguiu um suporte importante dos arrendadores no início da crise, sobretudo em 2020, quando a empresa teve a isenção dos aluguéis por diversos meses, além de descontos. “Os descontos de 2022 nós pagamos em 2022. Mas em 2023 agente começa a pagar o que a gente acumulou de diferimento [nos anos anteriores]”,disse.

O executivo disse que a empresa terá de rolar dívida em 2023 para conseguir fazer frente à parte de pagamentos programados. “Mas estamos com uma certa volatilidade de mercado [sobretudo por causa da economia dos Estados Unidos e risco de recessão naquele país]. A gente não sabe se essa emissão [de dívida] vai ser possível ou se vamos precisar conversar com os lessores”, disse. Da dívida bruta total da empresa, em torno de R$ 23 bilhões, cerca de R$ 16 bilhões são de aeronaves.

Sobre a entrega de aeronaves, Malfitani disse que ainda há incertezas, mas o mercado melhorou. “Realmente, tivemos um pico de incerteza na pandemia. Hoje em dia isso está melhor, menos dramático, mas não está perfeito.” O foco, acrescentou, tem sido manter comunicação estreita com os fornecedores para evitar o descasamento entre a entrega das aeronaves e a venda da passagem – evitando assim transtornos para clientes com cancelamentos e remarcações. A empresa tem aeronaves que vão de 9 assentos (Cessna Caravan) a 334 (A350).
O processo de recuperação judicial da Latam acabou ajudando a empresa a fechar boas negociações com arrendadores durante a pandemia. Para fazer frente ao salto na demanda, a empresa disse esperar receber aeronaves neste ano. “Observamos, no

entanto, que há atraso no planejamento de entrega de aeronaves, o que não afetará ao peração projetada no nosso plano de negócios, pois temos diferentes ferramentas de flexibilidade para mitigar esses atrasos”, disse, em nota.

Já a Gol afirmou, também em nota, que neste ano espera receber 15 aviões Boeing 737-Max 8. “Desta forma, a frota deverá encerrar o ano de 2023 com 53 aeronaves do modelo737-Max, aproximadamente 44% da frota operacional.” A aérea disse que os contratos de arrendamento das novas aeronaves foram negociados em 2020/2021, “um período de desconto dos ativos onde condições muito competitivas foram alcançadas, principalmente por baixa demanda”.
A Gol ponderou ainda que diante da recuperação da demanda mundial já é possível observar os novos contratos gradativamente convergindo para os níveis de 2019. A empresa reconheceu que tem sentido atrasos nas entregas. A meta era fechar o ano passado com 44 Boeing 737-Max 8 na frota – ela alcançou 38. “Ainda assim, não esperamos grandes alterações em nosso cronograma de recebimento de novas aeronaves”, disse.

Larissa Paganelli, do Kincaid Mendes Vianna Advogados, disse que parte da ajuda dos arrendadores no pico da crise se deu ao fato de que ninguém estava em busca de aviões naquela época. Hoje, a demanda existe, mas o dinheiro está mais caro e as instituições financeiras e investidores, que aportaram recursos tanto nos arrendadores quanto nas aéreas, estão em busca de retornos. “A dúvida é como os arrendadores vão prosseguir. Se vão ser mais maleáveis ou não [para renegociar uma outra vez. Não tem mais como segurar descontos”, afirmou Paganelli.

Fonte: Valor Econômico