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Clippings - 26/12/23

Demanda por levantamentos hidrográficos deve aumentar e empresas esperam horizonte promissor nos próximos anos

Empresas especializadas em levantamentos hidrográficos estão com boas perspectivas para os próximos anos. A avaliação é que 2023 foi um ano positivo em termos de consultas e contratações e que há uma demanda por este tipo de serviços no horizonte dos próximos anos. O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) sinalizou a intenção do governo em realizar a concessão de serviços de zeladoria nos portos públicos, incluindo dragagem, batimetria e sinalização. Existem também alguns movimentos para atrair investimentos privados para o desenvolvimento de hidrovias. Os levantamentos também serão importantes para futuras prospecções para eólicas offshore.

A Belov avalia que 2023 se apresentou melhor do que anos anteriores, apesar do início do ano ter sido marcado por uma redução em consultas, concorrências e contratações. A empresa considera o cenário comum após períodos eleitorais, pois o país passa por ajustes e adaptações decorrentes de mudanças na gestão. O entendimento é que este período inicial é crucial para restabelecer a confiança dos investidores. À medida que as novas administrações se estabilizaram e as adaptações foram implementadas, a Belov notou uma retomada significativa nas consultas e contratações, indicando uma recuperação sólida.

A empresa está otimista de que, até o final deste ano, consiga superar a quantidade de serviços executados em 2022, refletindo o progresso e a resiliência do setor de hidrografia. “Estamos satisfeitos com o progresso feito nos últimos 12 meses e ansiosos para continuar a contribuir positivamente para o setor de hidrografia e geofísica, impulsionando a inovação e a excelência em nossos serviços”, diz o gerente de hidrografia e geofísica da Belov, Sérgio Correia.

A Belov participa do plano de monitoramento hidrográfico do Rio Paraguai (Lote 04). Os serviços estão sendo executados num trecho que abrange o município de Puerto Esperanza, no Paraguai, até a foz do Rio Apa, no Mato Grosso do Sul. De acordo com a empresa, o levantamento tem por objetivo propiciar conhecimento continuado e consolidado sobre a hidrologia, hidrografia e hidrodinâmica fluvial do rio, oferecendo suporte técnico à tomadas de decisão relacionadas a qualquer intervenção que venha a ser necessária, visando a utilização segura e confiável do rio para navegação.

Nas proximidades do Porto de Itaqui (MA), a Belov vem executando 46 furos de sondagens marítimas mistas, sísmica rasa, batimetria e correntometria para subsidiar um futuro projeto de dragagem na região do Itaqui, localizada na Baía de São Marcos, São Luís (MA). Correia explica que esta baía é conhecida por apresentar a maior variação de marés em todo o Brasil e a terceira maior do mundo. “Em apenas seis horas, as marés podem oscilar impressionantes 7,2 metros, acompanhadas por velocidades de correntes de até 3,9m por segundo, tornando qualquer atividade marítima um desafio extremamente perigoso”, conta Correia.

Entre os serviços spot, a Belov conduziu, no decorrer deste ano, serviços especializados, abrangendo batimetria monofeixe e multifeixe, sísmica rasa, sonografia e correntometria em locais estratégicos como o Porto de Salvador (BA), Canal de Cotegipe (BA), Porto de Suape (PE), Jericoacoara (CE) e Paranaguá (PR), além das regiões dos rios Pará e Amazonas. Atualmente, a Belov faz o mapeamento de futuras demandas de equipamentos de hidrografia e geofísica, visando possíveis novas aquisições a partir de 2024.

O gerente da Belov diz que a empresa é comprometida com a constante melhoria de seus serviços, dedicando investimentos significativos em equipamentos de última geração e, sobretudo, em treinamentos especializados para seus colaboradores. Ele acrescenta que, diante das tendências do mercado, a empresa percebeu que o uso de embarcações autônomas para serviços hidrográficos no Brasil está prestes a vivenciar um aumento significativo na demanda. “Estamos atentos a essa evolução e monitoramos de perto as inovações relacionadas a esse cenário em constante transformação”, salienta Correia.

Para a Belov, as perspectivas para a contratação de serviços nos portos públicos são positivas. Na avaliação da empresa, a busca por parcerias público-privadas e o desenvolvimento de hidrovias indicam oportunidades de crescimento. Contudo, entende ser crucial garantir a transparência e a regulamentação no processo de concessão para assegurar a eficiência e a sustentabilidade das operações. “Se implementadas com sucesso, essas medidas podem impulsionar o desenvolvimento econômico e a modernização dos portos”, projeta Correia.

A Hidromares observa movimentos com possíveis demandas por levantamentos hidrográficos em portos públicos e em hidrovias, como na bacia Paraná-Paraguai e no Arco Norte, com empresas que contrataram levantamentos e serviços de grande escala em regiões críticas. “O cenário climático atual de seca é bem significativo, tornando a batimetria ainda mais importante para manter a navegação nesses  locais”, cita o diretor comercial da Hidromares Oceanografia, Gabriel Paschoal. A empresa faz batimetria e sinalização náutica com parceiros.

Ele ressalta que a batimetria é um item que integra os pacotes de serviços. Paschoal conta que a empresa já vem recebendo demanda sobre estudos para eólicas offshore.

Segundo o diretor, com o avanço das regulamentações, as consultas sobre levantamentos dos dados e estudos ambientais têm aumentado de forma significativa. Os levantamentos hidrográficos incluem estudos acerca de batimetria, levantamento de ondas, de correntes e de tipos de fundo.

Paschoal concorda que, passado o período inicial da transição de governo, algumas incertezas sobre diretrizes e trocas no comando das autoridades portuárias deram lugar a mais confiança aos investimentos. “Estamos na expectativa de que, com estabilidade política, a confiança em empreender nessa área portuária retorne nos próximos anos e que projetos parados deem continuidade, tanto na área portuária de dragagem quanto na eólicas offshore”, analisa Paschoal.

O diretor comercial diz que a Hidromares também tem visto cada vez mais a tendência do uso de embarcações autônomas para fazer levantamentos. Ele destaca que a empresa representa uma fabricante francesa de equipamentos que conta com veículos autônomos para levantamentos hidrográficos. Ele acrescenta que a Hidromares está no Cubo Itaú, hub de inovação onde está a Tidewise, empresa nacional que faz levantamentos robustos com embarcações próprias, inclusive com aplicações para área offshore. A Hidromares oferece equipamentos, como sensores, para a Tidewise utilizar nos projetos deles.

Paschoal destaca que a região Norte demanda bastante sensoriamento. Ele cita o conhecimento das condições de nível, chuvas, correnteza e ondas como informações importantes para garantir a navegação segura e viabilizar a navegação nesses locais.

“Temos trabalhado com sensores que podem utilizar as próprias bóias existentes e toda parte de rastreio de equipamentos e bóias, focando em reduzir roubos”, detalha Paschoal.

A Hidromares também vem focando na parte de previsão, por meio da utilização de dados medidos com informações de terceiros. A empresa utiliza dados de satélites e de radares meteorológicos para complementar essas informações e aplica algumas tecnologias de inteligência artificial (IA) para ajudar na previsão de chuvas, em especial para planejar operações de cargas a granel, por serem sensíveis a intempéries.

“Quando utilizamos dados para corrigir previsões, trazemos ganho de confiabilidade significativo — principalmente nas próximas horas, ganhando assertividade corrigindo previsões com dados medidos utilizando dados de IA. Usamos dados dos clientes que nos contratam para fazer medições. São dados da Hidromares e dos clientes também, complementados com dados abertos, entre outras informações”, explica Paschoal.

A Hidromares atua de Rio Grande até o Pará, com projetos de monitoramento e conta com mais de 100 estações em todo o Brasil, incluindo a navegação interior. A empresa tem trabalhado para desenvolver modelos de IA que auxiliam na previsão do tempo. A integração dentro conceito de IoT (Internet das Coisas, em portugês) permite instalar sensores e fazer a transição dos dados em tempo real das bóias que já existem nos canais de navegação.

“Temos utilizado bastante, em vez de instalar estações novas de equipamentos para monitoramento, temos tentado trabalhar com sensores que possibilitam a utilização da própria sinalização do porto, instrumentando ela sem necessidade de uma nova boia, otimizando a infraestrutura existente, dentro do conceito de portos inteligentes”, descreve Paschoal.

O grupo Ambipar tem uma visão de prestação de serviços de forma integrada. Dentro da área de geociências, a empresa trabalha com escopo mais amplo, no qual a batimetria é um dos serviços oferecidos. Na área de geociências, o grupo também observa uma tendência de integração das informações dos dados meteoceanográficos — meteorologia, correntes, ventos, ondas e marés — com dados físicos e portuários (batimetria/hidrografia). “Juntando todas informações e as tendo dentro de um acompanhamento, se consegue melhorar características que se tem para ter operação mais segura ou mais rentável”, diz o diretor executivo da Ambipar Serviços Ambientais, Gelcilio Barros.

Ele acrescenta que, para ter uma operação mais rápida, precisa, objetiva e com melhor custo, as instalações portuárias têm trabalhado com informações em tempo real, com utilização de bóias oceanográficas, marégrafos ou outros equipamentos instalados nas proximidades ou na entrada dos portos, dando dados mais precisos de variáveis ambientais que influenciam a atividade portuária, já que a profundidade varia de acordo com a maré.

A Ambipar Environmental Services tem uma unidade de negócios que trata de licenciamentos ambientais, consultoria ambiental, projetos e programas de monitoramento. O braço de geociências cuida de hidrografia, oceanografia, meteorologia, modelagens matemáticas e numéricas. O grupo identificou a necessidade de ter informações tanto para fase de caracterização e licenciamento quanto para operação, licença ou autorização de dragagem de manutenção. “Sempre tivemos demanda internamente como um dos produtos dentro do escopo de licenciamentos”, frisa Barros.

Ele ressalta que ter as informações em tempo real sem olhar previsão de modelo pode trazer benefícios para o planejamento da janela de atracação. Barros diz que, cada vez mais, o setor trabalha com tábua de marés, porém existem efeitos causados por condições meteorológicas que podem fazer com que essa variação seja maior ou menor e aconteça antes ou depois do previsto na tábua. 

O diretor acredita que a integração dos diferentes tipos de dados obtidos nessa região trazem benefícios e vantagens operacionais e até financeiras para os portos. Outro ponto é que esse conhecimento mais aprofundado é importante para a segurança da área de navegação e para reduzir o risco de acidentes e, consequentemente, impactos ao meio ambiente “Temos buscado trabalhar internamente para fazer esse tipo de previsão e prestar esse tipo de serviço”, avalia Barros.

A Ambipar tem uma perspectiva positiva para área de hidrovias e vem buscando se fortalecer por acreditar que o segmento vai demandar conhecimento das regiões e, de acordo com novas áreas navegáveis, ter o monitoramento dessa condição. Ele observa a constante mudança de bancos de areia e obstáculos que precisam ser operados, além dos efeitos de secas e de grandes estiagens na navegabilidade dos rios, principalmente da região Norte. “Hidrovias são um mercado importante e estão no nosso radar. É um setor interessante dentro desse segmento de negócios da Ambipar”, conta Barros.

O Plano Geral de Outorgas (PGO) do setor hidroviário, lançado no final de outubro, estabeleceu seis prioridades de projetos para desenvolvimento do modal nos próximos quatro anos. O PGO prevê atenção especial para as hidrovias: Brasil-Uruguai (Lagoa-Mirim), Paraguai, Madeira, Tocantins, Tapajós e Barra Norte. Na ocasião, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) abriu o chamamento público da hidrovia do Paraguai, com objetivo de trazer a iniciativa privada para doação de estudos e viabilidade para o desenvolvimento da hidrovia que, futuramente, terá um rito desde a definição e análise da modelagem no Tribunal de Contas da União (TCU), até a realização de um leilão de concessão.

No lançamento, a secretária nacional de portos e transportes aquaviários (SNPTA/MPor), Mariana Pescatori, afirmou que os agentes já discutem ações para 2024, porque o fenômeno climático El Niño deve continuar. “Estamos colocando nosso grupo de trabalho para planejar o próximo ano e para termos um normativo que permita atuarmos com mais celeridade e que tenhamos batimetrias permanentes e consigamos mobilizar as dragas com maior facilidade se necessário”, afirmou a secretária.

Mariana disse que as concessões vão viabilizar serviços e atrair investimentos para dragagens no momento correto e oferta de melhores serviços para o setor no longo prazo. Ela considera o PGO uma oportunidade de trazer mais cargas para a navegação interior, que representa somente 6% da movimentação de cargas na matriz de transportes do país. “Temos esse desafio e o PGO traz um instrumento para trazer mais cargas para modal hidroviário, maior escala, com sustentabilidade atrelada e menor pegada de carbono. Isso traz grande desafio de implementar esse planejamento”, concluiu a secretária.

Durante a crise da estiagem na região Norte, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) disse que serão necessários, ao menos, dois anos para garantir as melhores condições possíveis de navegabilidade nos rios da Amazônia. O diretor de infraestrutura aquaviária do DNIT, Erick Moura, avalia que, ao longo dos anos, houve uma desmobilização de dragas na região, que hoje se tornou um desafio para solucionar problemas no tráfego de embarcações. Moura afirma que o órgão vem dialogando formas de contratação de longo prazo e soluções que ajudem a melhorar o planejamento.

“Temos ações em andamento. Prevemos mais dois ou três anos de ação para deixarmos um legado para a sociedade e para a navegação em toda a região Norte”, disse Moura, em novembro, durante o webinar ‘Diálogos Amazônicos — Rios e transportes na Amazônia’, promovido pela Fundação Getúlio Vargas, através da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP). 

Moura considera que o problema da estiagem se apresentou com uma espécie de ‘terremoto aquaviário’, mas trouxe reflexões importantes para o setor se preparar melhor para o futuro. Ele disse que os problemas de engenharia identificados na região Norte são oportunidade para um ‘raio-x’ da realidade do setor, abrindo caminho para o desenvolvimento de políticas setoriais. “Dessa crise, estamos vivendo oportunidade de usar as lições aprendidas para podermos fazer algo mais permanente de forma que esses erros não se repitam no futuro”, afirmou Moura.

Moura relatou que, na região Sul, a situação foi o oposto do Norte porque o grande volume das chuvas nos últimos meses sobrecarregou as eclusas. Ele falou da necessidade de se fazer um novo estudo sobre sedimentos que entraram nas bacias de Lagoa Mirim, do Rio Jacuí e Rio Taquari. Para a hidrovia Tietê-Paraná, o diretor de infraestrutura aquaviária do DNIT disse que o órgão não tem, até o momento, informações a respeito de impactos previstos por conta do El Niño. Ele ponderou que o departamento sabe e monitora que o Paraguai já começou a sofrer alguns efeitos.

Moura acrescentou que já existem previsões de que, a partir de 2024, o Rio São Francisco sofrerá a influência do El Niño, aumentando a quantidade de regiões influenciadas. Ele citou ainda que o DNIT tem notícias de assoreamentos no Rio Tapajós. “Isso está começando a estourar em vários locais”, analisou. O diretor de infraestrutura do DNIT ressaltou que o governo vem colhendo informações e gestando uma política pública para a navegação interior. “Estamos em vias de lançar o BR dos Rios. Não queremos perder a oportunidade de criar este marco, estruturando tecnicamente elementos para ele se tornar um programa de governo”, projetou Moura.

O diretor executivo da Ambipar Serviços Ambientais diz que grandes fundos de investimento têm olhado com atenção para os efeitos das mudanças climáticas nas operações. Ele diz que saber se um empreendimento está sujeito à grande inundação, seca violenta e como impacta o ritmo das operações é uma linha de investigação que o grupo tem trabalhado na parte de consultoria ambiental, assim como estudar o quanto eventos naturais podem impactar na operação e se apresentar como risco ao negócio. “Temos sido procurados e isso está sendo cada vez mais pauta de preocupação das empresas”, analisa Barros.

Ele observa uma valorização, tanto para a análise de hidrografia e levantamentos quanto na parte de consultoria e serviços ambientais. Nos últimos 12 meses, a Ambipar investiu no aumento de quadro para atendimento a esse segmento, com investimentos em sistemas e equipamentos. O grupo também pretende investir em embarcações. Barros explica que a Ambipar Marine hoje tem um segmento que é um braço operacional na parte de embarcações para atendimentos a operações portuárias e marítimas. “Nosso objetivo é integrar a parte de geociências com a parte marítima e preparar embarcações para trabalhar com levantamentos hidrográficos, batimétricos e meteoceanográficos, tanto na parte costeira quanto na offshore”, detalha Barros.

Hoje, a Ambipar utiliza embarcações próprias da unidade marítima da Ambipar, mas não são dedicadas. Elas são preparadas para determinada campanha oceanográfica, por exemplo, mas não há trabalho suficiente para permanecer com equipamentos parados na embarcação durante os demais meses. “Nossa ideia é montar embarcações para ficarem dedicadas e trabalhando continuamente em campanhas oceanográficas, levantamentos batimétricos e hidrográficos ou em investigações geotécnicas e levantamentos para novos empreendimentos”, descreve Barros.

Barros projeta que o movimento de licenciamento de eólicas offshore no Ibama representa uma potencial demanda que trará a necessidade de caracterização do relevo de fundo, de tipos de solo e geotecnia para fazer ancoragens das estruturas ou a fixação propriamente dita das torres. Ele explica que, mesmo para os modelos flutuantes, é preciso conhecer o tipo de fundo para saber melhor a estrutura de ancoragem a ser utilizada. “É um segmento que o mercado está bastante de olho, mas ainda leva tempo para projetos começarem a ser instalados e estudos comecem a ser feitos. Mas tivemos procura no mercado por esse tipo de caracterização”, revela Barros.

Para 2024, a Ambipar possui projeto de colocar embarcações dedicadas para esse tipo de levantamento. Barros diz que as embarcações serão adicionadas de acordo com a demanda e o desenvolvimento. Segundo o diretor da Ambipar Serviços Ambientais, as eólicas offshore representam um movimento interessante  por conta da demanda de energia limpa. Ele acrescenta que a empresa participa do projeto do hub de hidrogênio do Porto do Açu, que está em fase de licenciamento. “Vendo o projeto desde o início, conseguimos identificar sinergias e formas de atuar e trazer essa base de dados para dar contribuições ao projeto”, acredita Barros. 

Fonte: Revista Portos e Navios