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Clippings - 14/03/22

Descarbonização e tecnologia estão na ordem do dia de fornecedores de equipamentos de movimentação de minério

No setor dos equipamentos de movimentação de minério, este ano não vai ser igual àquele que passou. Pode ser até melhor. Principalmente para quem está investindo em equipamentos com toques de “bola de cristal”. Explica-se: prever quando um item de uma engrenagem vai dar defeito, acompanhar sua vida útil ou mesmo ter acesso remoto, a qualquer tempo e hora, a todos os detalhes das operações pode ser um trunfo para tomadas de decisões. Isso significa uma carta na manga com cacife para gerar muita economia para algumas empresas e bons negócios para outras.

A Aumund, por exemplo, chega em 2022 com novidades tecnológicas para o mercado, o Premas 4.0. O equipamento permite a detecção precoce de desgaste e envelhecimento de componentes importantes da máquina, em equipamentos de transporte, “onde as mais recentes tecnologias de sensores são combinadas com aquisição e análise de dados para fornecer monitoramento on-line completo da condição da máquina, bem como uma previsão da vida útil estimada de componentes críticos da máquina”.

“Essa solução de manutenção preventiva foi desenvolvida para dar tranquilidade e previsibilidade aos nossos clientes. O Premas 4.0 mantém os clientes informados sobre o estado da máquina e seus componentes em tempo real e, assim, permite planejar com antecedência, agir a tempo e prevenir possíveis problemas”, informa Átila Soares, representante da Aumund no Brasil.

Soares informa que, em termos de resultado, a empresa, não foi impactada pela pandemia, principalmente no ano de 2021 que, segundo ele, pode ser considerado um “ano histórico” para a Aumund. O que houve, observa, foi que a pandemia modificou “consideravelmente” a atuação do time de vendas da empresa, com as visitas presenciais tendo sido afetadas diretamente. Assim, adaptações foram necessárias e o uso de ferramentas como reuniões virtuais, webinars e redes sociais passaram a fazer parte da rotina de trabalho.

Na sua opinião, 2022, por ser um ano de eleição, “traz certa imprevisibilidade nas tomadas de decisão”. Soares afirma, porém, que para a Aumund as perspectivas são boas, em especial, no mercado de mineração e operações portuárias. Isso porque as commodities, como é o perfil do mercado do país, são beneficiadas pela alta do câmbio e aumento do consumo.

Na Tenova/Takraf, a “bola de cristal” são sensores em rolos que fazem parte dos transportadores de correias. As peças se tornam, assim, monitoradas, o que permite fazer uma leitura das condições de trabalho da transportadora e dar uma previsão de vida para o equipamento. “Estamos trazendo a indústria 4.0 para esse segmento”, afirma Paulo Batagini, gerente de engenharia da Tenova/Takraf.

Ele informa que essa tecnologia vem sendo desenvolvida há cinco anos pela empresa, no Brasil. No momento, mais de 600 rolos “inteligentes” estão em operação. Levando em consideração que cada quilômetro de correia transportadora pode ter até três mil rolos, é um mercado promissor.

Essa tecnologia, porém, não é a única aposta da empresa, principalmente para o Brasil. De acordo com Batagini, um dos focos da Tenova/Takraf como atuação para 2022 é a consolidação de um produto para carregamento de navio — há planos, inclusive, para se montar uma linha para sua fabricação, no país. O executivo se refere a uma empilhadeira que apresenta uma “solução mais inteligente” para carregamento de granel nos porões dos navios. Isso porque tem capacidade para alimentar três porões em uma mesma posição, além de ser rebocável e poder ser operada de forma remota.

A Vale já tem uma dessas empilhadeiras em uso, no Terminal Portuário Ponta da Madeira, em São Luís (MA). O maquinário pesa 1,8 mil toneladas, tem 45 metros de altura e capacidade de operação de 20 mil toneladas de minério por hora.

No país, porém, um dos locais onde mais a Tenova/Takraf se mostra presente é em Brumadinho (MG). No momento, 25 transportadoras da empresa, fabricadas aqui mesmo, estão presentes na localidade. Uma nova planta chega na região em maio: “Nosso diferencial é ter um transportador móvel, que se desloca com reboque. Significa que não precisa fazer base de concreto. Por isso, é tão presente em Brumadinho, onde não há uma área certa de operação”, explica Batagini.

Segundo ele, como a empresa tem um perfil conservador, os prognósticos para 2022, em termos de negócios, é que, “se o pior chegar”, será um ano “bom, porém, não tão bom quanto 2021”.

Já na E-crane, a expectativa para o ano é, no mínimo, ser igual a 2021, “mas com viés de melhora para o primeiro semestre”, de acordo com Rodrigo Rovai, representante da empresa para a América Latina, a partir da sua base, nos Estados Unidos. Segundo ele, os planos para a abertura de um escritório da empresa, em São Paulo, seguem a pleno vapor, com inauguração prevista ainda para o primeiro semestre do ano. “A gente se surpreendeu com a capacidade de adaptação do mercado, durante a pandemia. Fechamos vários negócios”, afirma.

Rovai conta que foi nesse período que a tecnologia de guindastes hidráulicos elétricos, oferecida pela empresa, mais despertou a curiosidade do mercado, um segmento que, na sua avaliação, tende a ser mais tradicional, com preferência para soluções já conhecidas e consolidadas. Ter acesso remoto aos dados do equipamento é, na sua opinião, um dos grandes trunfos dos equipamentos especializados em descarregamentos da E-crane.

“O setor está mais aberto para escutar sobre inovações. No caso dos nossos guindastes, seu uso gera um custo menor e uma performance maior, em cerca de 30%. Com ciclos mais rápidos de operação, o consumo de energia diminui. Além disso, nossa solução de alocar os dados do equipamento na nuvem foi um passo importante para nos dar vantagens competitivas”, comenta Rovai.

Na TMSA, os transportadores para mineração foram os best-sellers de 2021, um ano que segundo Paulo Augusto Lambert, diretor de Negócios da empresa, “não foi ruim”. Cerca de um terço das principais commodities brasileiras embarcadas passa por equipamentos da empresa: “Ano passado, vendemos bastante. Também tivemos muitas consultas com decisões tendo sido empurradas para 2022. Nossa aposta é que o ano está se mostrando com perspectivas melhores do que o ano passado”.

De acordo com Lambert, o setor não parou em 2021 e permitiu uma recuperação em relação ao ano anterior, quando a Covid atrapalhou os negócios. A boa perspectiva para este ano, na avaliação do diretor, começa no fato de ser um ano eleitoral, ou seja, “uma época difícil de haver mudanças radicais”. Além disso, o minério continua tendo demanda no mercado externo, que segue comprador. As safras agrícolas brasileiras também estão muito bem, obrigada.

O setor em que a TMSA faz grandes apostas para 2022 é o intermodal. Lambert informa que projetos em desenvolvimento estão para ser apresentados e, sendo assim, ele ainda faz sigilo sobre as novidades.

Dentre as mineradoras, a Anglo American considera o investimento em novos equipamentos e tecnologia como “estratégicos” para a empresa. Assim, de acordo com seu gerente de Engenharia, Projetos e Confiabilidade, Wallace Magalhães, a companhia planeja investir US$ 600 mil na logística integrada de produção e transporte de minério. “Nas nossas operações no Chile, estamos fazendo testes com caminhões movidos a hidrogênio, que serão utilizados nas operações brasileiras quando seu uso se mostrar viável. Até 2026, a empresa planeja investir US$ 5 milhões em inovação no Brasil em parceria com startups. Esses recursos são direcionados a diversas áreas da empresa, entre elas a de logística” – informa Magalhães.

Muito das atenções da empresa, este ano, estão voltadas para o Minas-Rio, empreendimento da Anglo American para a produção de minério de ferro, que conta com logística integrada da mina ao porto. Como explica Magalhães, mina e beneficiamento estão instalados em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas (MG) e se ligam ao Porto de Açu (RJ) por um mineroduto de 529 quilômetros, que passa por 33 municípios, sendo 26 em Minas Gerais e sete no Rio de Janeiro. Ao chegar ao porto, gerenciado pela Ferroport — joint venture formada pela Anglo American e Prumo Logística — o minério segue por transporte marítimo até ser entregue aos clientes.

Magalhães informa que, em 2020, a Anglo American no Brasil se tornou auto-produtora de energia renovável, em sociedade com a Casa dos Ventos. A parceria representa uma redução de 30% nas emissões de carbono relacionadas ao consumo de energia elétrica pela companhia no Brasil: “Isso também contribui para a meta do grupo Anglo American de reduzir a emissão de CO2 nas operações globais em 30%, até 2030. Dessa forma, a Anglo American no Brasil deixa de emitir aproximadamente um milhão toneladas de CO2, por ano, conforme dados do Ministério das Minas e Energia (MME) referentes às emissões do Sistema Interligado Nacional (SIN)”, afirma.

Quando o assunto é redução de emissões de carbono, a Vale informa: tem investido fortemente em termos de eficiência e inovação na área de navegação por meio do programa Ecoshipping, com a adoção de novas tecnologias e renovação de sua frota. Desde 2018, a empresa opera com Valemaxes de segunda geração e, desde 2019, com os Guaibamaxes, com capacidades de 400 mil toneladas e 325 mil toneladas, respectivamente. Essas embarcações conseguem reduzir em até 41% as emissões de CO2 equivalente se comparadas com as de um navio capesize, de 180 mil toneladas, construído em 2011.

Em maio de 2021, a frota de navios a serviço da empresa passou a contar com o primeiro mineraleiro de grande porte do mundo equipado com sistema de velas rotativas (rotor sails). Ganhador do Wind Propulsion Innovation Awards, o projeto consiste em equipar um Guaibamax com rotores cilíndricos de quatro metros de diâmetro e 24 metros de altura — equivalentes a um prédio de sete andares.

Ainda em fase de testes, as velas rotativas podem oferecer um ganho de eficiência de até 8% e uma consequente redução de até 3,4 mil toneladas de CO2 equivalente por navio por ano. A empresa estima que pelo menos 40% da frota esteja apta a usar a tecnologia, o que impactaria uma redução de quase 1,5% das emissões anuais do transporte marítimo de minério de ferro da Vale.

Já em junho de 2021, a Vale recebeu o primeiro navio Guiabamax com air lubrication instalado. A tecnologia cria um carpete de bolhas de ar na parte de baixo do navio, permitindo reduzir o atrito da água com o casco. Expectativas conservadoras apontam para uma redução de combustível em torno de 5% a 8%, com potencial de redução de 4,4% das emissões anuais do transporte marítimo de minério de ferro da Vale.

Além disso, a Vale vem se preparando para a adoção de combustíveis alternativos. Dezenas de VLOCs de segunda geração, já em operação, foram projetados para futura instalação de sistema de gás natural liquefeito (GNL), incluindo um compartimento sob o convés para receber um tanque com capacidade para toda a viagem. O programa Ecoshipping está desenvolvendo um tanque multicombustível, capaz de armazenar e consumir, no futuro, não só gás natural liquefeito (GNL), como também metanol e amônia. Um estudo preliminar para os navios da categoria do Guaibamax estima que a redução de emissões pode variar entre 40% a 80% quando movidos a metanol e amônia, ou em até 23% no caso do GNL.

Já que a Anglo American informou que está desenvolvendo projetos em parceria com startups, como os fornecedores dos equipamentos de movimentação encaram a chegada desse tipo de empresa no segmento? Átila Soares, da Aumund, diz considerar qualquer tipo de concorrência “saudável e desafiadora” por promover “o desenvolvimento de soluções criativas e únicas em cada processo concorrencial”. Porém, faz uma ressalva: “O segmento de equipamentos de manuseio é muito tradicional, com players conhecidos, de forma que, atualmente, ainda que alguns players tenham surgido, temos acompanhado um maior movimento contrário, de concentração do mercado”.

No caso da Tenova/Takraf, Paulo Batagini observa que a empresa é vertical, ou seja, tudo de que necessita desenvolve internamente. No seu entendimento, no segmento, uma startup teria a contribuir em desenvolvimento de tecnologia: “Não vemos como startup possa atuar em fabricação pesada. É fato que o segmento está mudando. Há 20 anos, ninguém usava computador e, agora, querem fazer tudo pelo celular. É uma mudança de paradigma do mercado. Não tem como fugir do novo”.

Atualmente, a empresa tem um setor de desenvolvimento de tecnologia e software que conta com dez funcionários, que trabalham em um prédio separado da sede, na cidade paulista de Rafard (distante cerca de 70 quilômetros de Campinas), onde estão instalados desde 1976. Portanto, até o momento, parcerias com startups não estão nos planos da Tenova/Takraf.

A TMSA também resolve tudo em casa. Com filiais em Minas Gerais, São Paulo e Buenos Aires (Argentina), a empresa mantém na sua folha de pagamento uma equipe de engenharia com cerca de 70 profissionais e uma outra voltada para pesquisa, que trabalha em separado do pessoal da produção.

Na opinião de Paulo Augusto Lambert, as barreiras para entradas de startups nesse mercado são fortes: “Não é tão fácil uma empresa nova entrar no segmento tanto em termos de tecnologia quanto de condições financeiras e estrutura. Para atender o ciclo financeiro de uma obra é preciso ter um caixa muito forte”, afirma.

Rodrigo Rovai, da E-crane, entende que startups são um “fenômeno global” e que tendem a estarem presentes em todos os segmentos. No dele, ou seja, guindastes hidráulicos elétricos, ainda não chegaram: “No momento, não temos ações com empresas desse tipo. As startups não têm know-how ou condições financeiras para atuar no setor de guindastes. Esse segmento de nicho tem uma cadeia de negócios longa. Talvez uma startup consiga atuar em gestão de risco de píer. No contexto global, entendo a presença das startups, mas desconheço que exista alguma relevante para a nossa empresa”, comenta.

Fonte: Revista Portos e Navios