
A Organização Marítima Internacional (IMO) estima em 70% a redução de óxido de enxofre no ar obtida com a implantação das regras da IMO 2020, estabelecidas na Convenção Marpol, a partir de 1º de janeiro de 2020. No Brasil, a Petrobras começou a disponibilizar o bunker de 0,5% de enxofre em setembro de 2019 e, desde então, as empresas têm utilizado esse combustível. Pouco mais de um ano após a implementação das normas da IMO, empresas de transporte marítimo avaliam que as principais dificuldades foram superadas e que não há dificuldades de abastecimento do bunker com as especificações previstas no anexo VI da Convenção Marpol.
O Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave) lembra que as empresas começaram a se adaptar ao novo combustível a partir de 2010, quando entrou em vigor o limite de 1% de enxofre. Essa limitação evoluiu para 0,1% em 2015 – quando as embarcações navegavam nas chamadas “áreas de controle de emissões” (Mar Báltico, Mar do Norte, Canal da Mancha e áreas ao longo das duas costas de EUA, Havaí e Caribe). Para a associação, em janeiro do ano passado, quando entrou em vigor a IMO 2020 estabelecendo o máximo de 0,5% de enxofre, as empresas já tinham algum conhecimento técnico sobre o que as esperava, em termos de adaptações a bordo.
Os armadores de longo curso relataram que, no começo, houve necessidade de segregar a bordo dos navios os combustíveis com alto teor de enxofre e os novos com baixo teor, pois os sistemas a bordo não haviam sido originalmente projetados para o novo combustível. Essa adaptação exigiu grande atenção e acompanhamento na operação das máquinas por parte das tripulações, o que não evitou, no início, algumas dificuldades e instabilidade nas operações.
“Hoje pode-se dizer que as dificuldades de segregação foram praticamente eliminadas e a maior preocupação passou a referir-se à qualidade do combustível com baixo teor de enxofre, a qual é variada ao redor do mundo, obrigando atenção especial das tripulações para não deixar que lotes de diferentes qualidades e origens se misturem”, explica o diretor-executivo do Centronave, Claudio Loureiro de Souza.
Loureiro acrescenta que a alternativa do emprego de scrubbers e seus três tipos (fechado, aberto e híbrido) trouxe o desafio da escolha e da estratégia a ser usada por empresa, para controlar custos. Ele conta que, esse primeiro ano de operação, naturalmente, foi um período de aprendizado pelas empresas. Alguns problemas operacionais foram reportados, como problemas no sistema de controle dos scrubbers de circuito fechado, os quais surgem com mais frequência com o aumento das horas de funcionamento. “A maioria desses problemas está resolvida e os sistemas vêm se tornando cada vez mais eficientes”, diz Loureiro.
As grandes empresas de cabotagem afirmam que existe disponibilidade satisfatória do combustível com padrão IMO 2020. O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), Luis Fernando Resano, lembra que, em setembro de 2019, quando a Petrobras descontinuou os demais tipos de combustíveis marítimos, a preocupação das empresas era se haveria bunker com até 0,5% disponível para todas as operações durante essa transição. A alternativa seria instalar scrubbers, o que geraria custos e haveria pouco tempo para adaptação dos navios.
As empresas brasileiras de navegação (EBNs) que operam na cabotagem vêm fazendo trabalhos para acompanhar o uso do combustível. Resano observa que a IMO mexeu no teor do combustível, mas não tratou das demais qualidades do combustível, como temperatura, fluidez e geração de borra. “A partir do momento em que recebemos o combustível, começamos a ter a padronização e a fazer nossos ajustes”, conta. Ele cita ajustes na temperatura de queima do óleo, que causaram pequenas avarias, porém não representativas, no período de testes iniciais.
A avaliação das empresas de cabotagem é que a Petrobras vem fornecendo combustível bem estabilizado, com índices de 0,48% a 0,5%. De acordo com a Abac, isso permitiu que os departamentos de engenharia orientassem e treinassem tripulantes a mexer nos equipamentos de bordo para otimizar e não ter problemas de avarias de equipamentos. Esses trabalhos envolveram o treinamento de marítimos e orientação dos chefes de máquinas e dos departamentos de engenharia e/ou shipping, além do pessoal de terra que conversa com classificadoras e fabricantes de motores.
A Abac avalia que a alta do preço do bunker VLSFO (Very Low Sulphur Fuel Oil) no final de 2019 e no início de 2020 não foi persistente e, ao longo de 2020, não houve repasse para a cabotagem. “Ao mesmo tempo que o preço do bunker caiu, o dólar subiu e diríamos que trocamos seis por meia dúzia”, analisa Resano. Ele ressalta que o impacto do coronavírus foi somente pela redução do volume de transporte. Na cabotagem, a Abac considera que o maior impacto foram as medidas sanitárias que estão onerando o item tripulação, devido aos gastos com hospedagem pré-embarque, testes de Covid-19, e trocas de tripulantes de forma inesperada.
Desde quando começou a adequar as refinarias para a produção do VLSFO e óleo combustível BTE, em abril de 2019, até dezembro de 2020, a Petrobras produziu mais de 19 milhões de toneladas desses produtos com baixo teor de enxofre. O produto atende às normas globais da IMO, que passaram a vigorar em janeiro de 2020. A Petrobras já entregou aproximadamente 5,6 milhões de toneladas de combustível marítimo com baixo teor de enxofre destinados ao abastecimento de navios nos portos brasileiros.
Em 2020, a Petrobras comercializou cerca de 1,6 milhão de toneladas de bunker IMO 2020 acabado a partir de sua tancagem na Ásia. A companhia exportou cerca de 8,7 milhões de toneladas de óleo combustível com qualidade para formular o bunker IMO 2020. Em 2020, além da Ásia, os óleos combustíveis, sejam para formulação de bunker IMO 2020 ou não, foram exportados para os mercados de Estados Unidos/Caribe, Mediterrâneo e Oeste Africano.
A companhia destacou que o desenvolvimento para a produção de bunker com até 0,5% de enxofre em suas refinarias foi iniciado de forma planejada e antecipada. “A Petrobras possui um parque de refino moderno e adaptado ao mercado, portanto não foi necessário fazer grandes investimentos para atender à regulamentação do IMO 2020”, informou a companhia à Portos e Navios. Segundo a estatal, o petróleo extraído no Brasil reúne características favoráveis para o processamento desse produto.
Pouco mais de um ano da norma internacional que estabelece limite de 0,5% para os níveis de enxofre nos combustíveis marítimos, a Marinha do Brasil afirma que os próximos passos a serem dados no acompanhamento do cumprimento dessa norma no país incluem a intensificação da verificação do teor de enxofre dos combustíveis consumidos a bordo dos navios mercantes. Além disso, a autoridade marítima brasileira vai contribuir com a atualização da relação dos portos onde os navios podem ser abastecidos com o VLSFO que constam no site da IMO.
A Diretoria de Portos e Costas (DPC) da Marinha informou que nos 13 primeiros meses em que a norma entrou em vigor não ocorreram notificações relativas ao cumprimento das regras na costa brasileira. A diretoria atribui às ações empreendidas para divulgação dos novos requisitos quanto ao limite do teor de enxofre. Ainda em 2019, a DPC emitiu circular, orientando a comunidade marítima quanto ao cumprimento da resolução MEPC. 320(74). A autoridade marítima capacitou os seus inspetores lotados nas capitanias, delegacias e agências a fim de que eles verificassem o cumprimento da exigência da norma.
A IMO 2020, decorrente da resolução MEPC adotada pela IMO em 17 de maio de 2019, resultou na obrigatoriedade de utilizar a bordo combustível com teor máximo de enxofre em 0,5%, visando como benefícios o menor prejuízo à saúde cardiorrespiratória das populações e menores danos aos oceanos. A DPC destaca que, no Brasil, o VLSFO passou a ser fornecido pela Petrobras desde outubro de 2019 e, no início de 2020 ele já era encontrado nos principais portos da costa.
Na avaliação da DPC, as principais dificuldades de adaptação do setor à norma inicialmente foram de ordem técnica, para a produção do VLSFO, e logística, para realizar a sua distribuição nos principais portos brasileiros. “A Petrobras, porém, conseguiu enfrentar ambas as dificuldades com eficácia e superou as expectativas ao disponibilizar o óleo combustível”, ressalta a autoridade marítima. A DPC acrescenta que a qualidade do combustível foi considerada muito boa pelos usuários, pois havia o temor de que existissem problemas de estabilidade e compatibilidade no VLSFO.
A DPC ressalta que os dados disponíveis ainda são incipientes para que seja afirmada, com segurança, qual foi a redução em termos de dióxido de enxofre, decorrente do consumo do VLSFO. No entanto, a diretoria cita que estudos realizados em cidades portuárias europeias verificaram, por meio de trabalho de campo, que houve uma melhora nos índices de comorbidades cardiorrespiratórias nas populações das cidades portuárias, podendo ser associada à redução do teor de enxofre dos combustíveis consumidos. As emissões são calculadas a partir do teor de enxofre do óleo combustível consumido.
Fonte: Revista Portos e Navios