A parceria com a China Three Gorges (CTG) deu mais músculos e capacidade de investimento para a Energias de Portugal (EDP), afirma o presidente da maior multinacional portuguesa, António Mexia, que veio ao Brasil na semana passada para acertar a entrada dos sócios chineses no capital da hidrelétrica de São Manoel.
A EDP do Brasil venceu o leilão para construção da usina há dois meses, em um consórcio com Furnas, subsidiária da Eletrobras. Com o acordo firmado na semana passada, a estatal chinesa passou a deter diretamente um terço do empreendimento, a mesma participação da EDP e de Furnas. A hidrelétrica deve exigir um investimento de R$ 2,7 bilhões.
A elétrica portuguesa transformou-se em uma porta de entrada para a estatal chinesa no exterior. A CTG venceu o leilão de privatização da EDP há três anos, quando passou a deter 21,35% do seu capital. Na época, além de pagar € 2,7 bilhões ao governo português pelas ações na companhia, os chineses concederam um empréstimo de € 600 milhões à elétrica por meio do Bank of China. As privatizações das empresas portuguesas renderam € 8,1 bilhões ao país, sendo que a metade desses recursos veio de estatais chinesas.
A partir da associação com o grupo chinês, a EDP pôde traçar um plano de expansão global, diz Mexia, que concedeu uma entrevista ao Valor em São Paulo. À frente da ex-estatal portuguesa desde 2006, Mexia foi mantido no cargo pela CTG. No comando dos negócios no Brasil, onde estão 17% da geração de caixa da multinacional portuguesa, também continuam pessoas de sua confiança.
Recentemente, Ana Maria Fernandes deixou a presidência executiva para assumir a presidência do conselho da EDP do Brasil, cargo que era ocupado pelo próprio Mexia. Como presidente executivo no Brasil, foi nomeado Miguel Setas. Mexia diz conhecer os dois executivos há 15 anos e que, ao indicar Ana Maria para sua função no conselho, quis reforçar a gestão no Brasil, já que ele não tem mais tempo para acompanhar as operações.
Mexia garante que a chegada dos chineses não transformou a EDP, que continua tão portuguesa quanto era antes. Estruturalmente, nada mudou, afirma o executivo. As nossa exigências [de retorno sobre o capital investido] são as mesmas.
Os acionistas minoritários da EDP no Brasil, porém, não estão convencidos disso. Há uma percepção de que, com os chineses, a empresa passou a aceitar taxas de retorno mais baixas nos projetos. A EDP foi duramente criticada pelos analistas por ter oferecido um preço considerado muito baixo para a hidrelétrica de São Manoel.
Nossas decisões são tomadas para criar valor aos acionistas. Tenho certeza disso, diz Mexia, que espera provar aos investidores. Segundo ele, a taxa real de retorno com o projeto de São Manoel será de 7% a 8%. Vamos mostrar que sabemos fazer, diz ele, que atribui a reação do mercado à visão de curto prazo dos investidores.
Neste ano, as ações da Energias do Brasil acumulam uma queda de 15,4% e perdem para o índice Ibovespa, que recuou 7,37%. Ontem, as ações da empresa caíram 1,2%, o que reduziu seu valor de mercado para R$ 4,57 bilhões.
Além do Brasil, a multinacional portuguesa agora busca ativos no setor de energia em outros países latino-americanos e na África. No passado, a EDP chegou a ter negócios na Guatemala, mas, atualmente, sua presença na América Latina restringe-se ao mercado brasileiro. Mas o foco da parceria [com a CTG] é o Brasil, diz Mexia.
A CTG já havia comprado, em dezembro, 50% de duas outras hidrelétricas que estão sendo construídas pela EDP no Brasil: Santo Antonio do Jari e Cachoeira Caldeirão. Os chineses vão investir diretamente R$ 865 milhões nos dois empreendimentos.
Embora controle duas distribuidoras de energia elétrica no Brasil, a Escelsa (ES) e a Bandeirante (SP), a EDP pretende se expandir no setor de geração. São duas ótimas companhias e estamos satisfeitos com a nossa posição, afirmou Mexia, ao negar ter planos de se desfazer das duas distribuidoras. Falou-se muito em consolidação [do setor de distribuição], mas fala-se mais do que se faz, afirmou Mexia. Segundo o executivo, não existe hoje nenhuma proposta de aquisição em cima da mesa.
Nossa prioridade será crescer em geração, tanto hídrica como eólica, diz o executivo português, ressaltando que a companhia venceu duas das últimas três hidrelétricas leiloadas pelo governo brasileiro.
Antes de vencer o leilão de São Manoel, usina de 700 MW localizada entre Pará e Mato Grosso, em dezembro de 2013, a EDP ganhou a licitação da hidrelétrica de Cachoeira Caldeirão, no Amapá, de 219 MW, em dezembro de 2012. Os dois projetos devem ficar prontos em cinco anos a partir da data de licitação. A hidrelétrica de Santo Antonio do Jari, de 373 MW, na divisa dos Estados do Pará e Amapá, deve ser concluída ainda neste ano. Juntos, os três projetos vão consumir investimentos de R$ 5 bilhões.