Brasil Econômico – 05/11/2013
Rodada da ANP é vista por geradoras de energia como oportunidade para garantir.
O leilão de gás natural marcado para os dias 28 e 29 deste mês terá um perfil diferente dos demais promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Grupos do setor elétrico irão disputar coma Petrobras e com outras petroleiras as reservas oferecidas em áreas de nova fronteira, com pouco histórico de produção e, portanto, demais risco. A 12ª Rodada de Licitações conta com a participação de quatro companhias atuantes no setor elétrico.
A maior delas é a francesa GDF Suez, que tem como controladora a belga Tractebel, e responde pela hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira. Além dela, a Copel, geradora e distribuidora de energia do Paraná, foi habilitada pela agência reguladora para participar. A Eneva, controlada por Eike Batista e pela alemí E.ON, também está no páreo. E, dos Estados Unidos, vem a estreante no BrasilR2Energy, especializada na fabricação e instalação de usinas, porém com foco em fontes renováveis (solar, eólica e térmicas que utilizam resíduos como combustíveis).
Em comum, esse grupo de empresas, assim como a indústria, tem o interesse de buscar alternativas de acesso ao gás natural, mercado atualmente dominado pela Petrobras, que vem priorizando a utilização do insumo em suas próprias térmicas. Os grandes consumidores industriais, que têm a energia como um dos seus principais custos e que poderiam produzir a menores preços caso garantissem o fornecimento contínuo da matéria-prima, também estão de olho na 12ª Rodada.
Essas grandes companhias, contudo, não estão dispostas a correr o risco de participar da exploração e produção, que não são o foco dos seus negócios principais, em áreas de novas fronteiras, principalmente. Do ponto de vista tecnológico, as áreas oferecidas incorporam ainda o desafio de incluir reservas de gás não convencional, como o gás de xisto, praticamente desconhecido no Brasil.
Em vez de entrar diretamente na exploração e produção, a estratégia da indústria é aguardar o resultado do trabalho das petroleiras para, em um segundo momento, se associar a elas, coma garantia de fornecimento do gás, principalmente, como energético a ser utilizado diretamente nas caldeiras e não para a geração térmica, diz o coordenador de Energia Térmica da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Ricardo Pinto. A indústria está disposta, inclusive, a participar do investimento na construção de gasodutos, para viabilizar a distribuição do insumo em grandes centros consumidores.
“A grande indústria tem a maior expectativa que o leilão dê certo. Não é prática desse grupo de empresas entrar ainda nessa etapa incipiente, de exploração das reservas. Mas, poderá entrar no futuro para garantir a viabilidade econômica dos projetos, junto a grandes ou médias petroleiras”, diz ele. Já a GDF Suez trouxe há um ano especialista em exploração e produção de óleo e gás exclusivamente para estudar oportunidades no Brasil. A intenção é repetir a estratégia de outras áreas de atuação no mundo.
A empresa produz 54,9 milhões de barris de óleo equivalente (somado ao gás) em 16 países, com objetivo de garantir o seu próprio suprimento. E a expectativa é alcançar produção de 1,25 bilhão de barris no longo prazo. No Brasil, a sua controladora, a Tractebel, trava uma batalha de acesso ao gás com a Petrobras, que terá hoje mais um capítulo concluído. Em audiência, a Justiça decidirá sobre o pedido de restabelecimento, pela Petrobras, do contrato de fornecimento de gás para a térmica William Arjona (206,3 MW), no Mato Grosso.
O contrato foi interrompido por decisão da estatal, em liminar judicial, como argumento de que a renovação não era obrigatória. A própria Petrobras, contudo, deverá ser uma concorrente de peso na 12ª Rodada. A companhia encomendou estudo a uma consultoria local para avaliar a possibilidade de geração térmica próxima aos poços produtores de gás, caso tenha sucesso na exploração das áreas.
O trabalho concluiu que, nas áreas oferecidas pela ANP há acesso ao Sistema Interligado Nacional (SIN), que permitiria o escoamento da energia térmica produzida a partir do gás encontrado. A ideia é repetir o modelo de sucesso inaugurado pela MPX na Bacia do Parnaíba, no Maranhão. “Pela primeira vez, teremos dois leilões federais concatenados (da ANP e da Aneel, de energia elétrica)”, ressalta o diretor da consultoria Expetro, Jean-Paul Prates, destacando que a Petrobras já demonstrou interesse em concorrer por blocos com potencial para a produção de gás não convencional.
A exploração das áreas de gás irá demandar de três a cinco anos de trabalho. Apenas após esse perãodo, com a descoberta de reservas, as petroleiras poderão se associar a empresas do setor elétrico ou indústrias para discutir possíveis parcerias na destinação do insumo. Uma das possibilidades é a utilização do gás próximo do poço, em grandes centros consumidores, como na Bahia e no Paraná.
A outra oportunidade seria o uso para a geração térmica próxima aos poços produtores. Marco Tavares, da consultoria Gás Energy, diz ter se surpreendido como número restrito de empresas habilitadas para leilão. Ele avalia que o potencial das áreas oferecidas ainda é desconhecido pelo mercado, sobretudo, as da região Norte do país.
A oferta de blocos em terra explica, segundo ele, a atração de um grande número de empresas independentes, inclusive estrangeiras, de médio porte. E ressalta que a presença da Shell pode ser explicada pela sua vocação, cada vez maior, de produção maior de gás do que de petróleo.