A Amazonas Energia, braço da Eletrobras no Estado do Amazonas, prevê atraso de mais um ano para atingir o consumo de gás natural contratado com a Petrobras em 2006. O acordo previa que companhia demandasse, por dia, 5 milhões de metros cúbicos do insumo para abastecer as usinas termelétricas da região, a partir de dezembro de 2010. Entretanto, até hoje, as usinas consomem cerca de 3,2 milhões de metros cúbicos diariamente.
Tarcísio Rosa, diretor de Geração e Transmissão e de Operação da Amazonas Energia, disse ao Valor que a Eletrobras pagou R$ 35 milhões na compra do volume de gás que não foi consumido, desde o início do fornecimento, em dezembro de 2010, até junho. Independentemente de consumir, a empresa deve pagar por 80% do gás contratado, como prevê cláusula no contrato com a distribuidora Companhia de Gás do Amazonas (Cigás).
Além disso, a Eletrobras empenhou, no mesmo perãodo, outros R$ 665 milhões relativos à cláusula de ship or pay, que paga a Petrobras pelo custo da construção do gasoduto Urucu-Coari-Manaus. Tal contrato de fornecimento, com duração de 20 anos, é resultado de um termo de compromisso firmado em 2004 entre a atual presidente, Dilma Rousseff, quando ministra de Minas e Energia, o então governador do Amazonas Eduardo Braga, e representantes da Petrobras, Eletrobras e Cigás.
O acordo previa a conversão de usinas que queimavam óleo combustível poluente e óleo diesel para gás natural até setembro de 2010. As conversões, que foram concluídas apenas este mês, não foram suficientes para atingir a demanda necessária para honrar o contrato. Hoje, sete usinas térmicas operam a gás, somando cerca de 570 megawatts (MW) de capacidade instalada, dos 1.850 MW que atendem Manaus e a região metropolitana da capital.
Tarcísio Rosa minimizou os valores empenhados para o consumo de gás que não foi consumido e disse que o volume em questão pode ser demandado em até cinco anos após o pagamento. Podemos utilizar esse gás natural no futuro sem qualquer custo, frisou o diretor.
O atraso no consumo prejudica também a Petrobras, que além de ter construído o gasoduto Urucu-Coari-Manaus – de alta complexidade, até o fim de 2010 para escoar a produção cortando longo caminho da selva amazônica -, até hoje não recebe o valor cheio do contrato. A petroleira não respondeu questionamentos enviados pelo Valor.
Hoje, sete usinas operam a gás natural em Manaus e região metropolitana, sendo duas da Eletrobras (que somam 266 MW de capacidade instalada) e cinco pertencentes a produtores independentes de energia (PIE), com total de 240 MW. Para a conversão das duas usinas, a Eletrobras investiu US$ 9,9 milhões.
A demanda acordada com a Petrobras somente será atingida depois que outra térmica a gás, que está em construção no Estado, entrar em operação. Mauá III está sendo montada pela Andrade Gutierrez. A entrada da primeira turbina de Mauá III, de 187 MW, está prevista para o fim do primeiro semestre de 2014. No momento em que entrar a primeira máquina [de Mauá III] a gente já chega nos 4 milhões [de m3 de gás natural], disse Rosa.
Outra turbina, com a mesma capacidade, deverá entrar em operação 30 dias depois e a demanda prevista em contrato será finalmente atingida. O consumo de gás das duas turbinas juntas, que estarão em ciclo aberto, será de 2,3 milhões de m3 cúbicos de gás por dia, que somado a atual demanda irá totalizar 5,5 milhões de m3 de gás.
Uma terceira turbina, de 200 MW, está programada para entrar em operação em 2015, quando Mauá III iniciará a operação em ciclo fechado. Atualmente, a Amazonas Energia paga, por mês, em torno de R$ 155 milhões pelo fornecimento de gás, incluindo à remuneração do investimento, a compra da molécula e a margem de distribuição.
Apesar dos atrasos, resultados do já podem ser observados. Até o fim de 2010, a matriz energética da região metropolitana de Manaus era 73% de óleo, 9% de gás natural e 17% de hidrelétrica. Hoje, a matriz mudou: é de 46% a gás, 40% a óleo e 14% hidráulica.