Grupo norueguês deve deixar o país após ser suspenso do cadastro de fornecedores da Petrobras. Engevix analisa compra da Aibel no Brasil
A Engevix, empresa da área de engenharia, está negociando a compra de um concorrente de peso no segmento de petróleo no Brasil, a norueguesa Aibel Óleo e Gás. A Engevix iniciou um processo de auditoria (due diligence) na Aibel, interessada nas instalações que a multinacional tem em Macaé (RJ), principal polo de apoio à exploração de petróleo na Bacia de Campos. Se a transação for fechada, a empresa norueguesa deve deixar o país. Ainda não se sabe qual será o destino dos cerca de 1,1 mil funcionários da companhia.
As discussões começaram depois de a Aibel ter ficado sem perspectivas de negócios no país ao ser suspensa, em setembro, do cadastro de fornecedores da Petrobras por perãodo de dois anos. A suspensão ocorreu ao mesmo tempo em que a empresa perdeu licitação para prestar serviços de engenharia para 39 plataformas de produção de petróleo e gás em operação. A multinacional apresentou, para parte das plataformas, preços R$ 54,6 milhões menores do que os concorrentes, incluindo a Engevix. Mas as ofertas da Aibel foram desclassificadas pela Petrobras, sem maiores explicações.
A Aibel tem em vigor contrato para serviços em plataformas da Petrobras que termina este mês. O Valor apurou que os noruegueses avaliaram entrar com ação na Justiça contra a estatal, mas optaram por vender os ativos e sair do país depois de quase dez anos de operações no mercado brasileiro. Controlada por investidores de private equity, a Aibel está presente em dez países e tem forte atuação no Mar do Norte.
Depois de ser suspensa e ter as propostas da licitação desclassificadas, a Aibel tornou-se alvo de aquisição pela Engevix. No mercado, estima-se que os ativos da Aibel no mercado brasileiro podem chegar a cerca de R$ 20 milhões, incluindo um terreno de 41 mil metros quadrados, galpões e áreas industriais em Macaé. A Aibel também discute com a Petrobras créditos relativos ao contrato em vigor para prestação de serviços em plataformas da estatal. Por outra parte, os débitos da empresa norueguesa no mercado brasileiro somariam cerca de R$ 40 milhões, número que considera custos com dispensa de mão de obra e pagamentos em atraso a fornecedores.
Uma fonte do setor disse que, dependendo do rumo das negociações, a Engevix poderia comprar a Aibel por um valor simbólico.
Procuradas, tanto Engevix quanto Aibel não comentaram a negociação. Existem cláusulas de confidencialidade que impedem as empresas de falarem sobre o assunto. A tentativa de compra da Aibel pela Engevix relaciona-se a um processo que começou nó primeiro semestre. Em maio, a Petrobras convidou um grupo de empresas a apresentarem propostas para executar serviços de construção, modificação e montagens para 39 plataformas, a maioria delas em operação na Bacia de Campos. Juntos os contratos somam cerca de R$ 2 bilhões para prestação dos serviços por um perãodo de quatro anos.
A Aibel apresentou melhores preços para três dos cinco lotes nos quais as plataformas foram divididas (ficou em primeiro lugar nos lotes 1, 2 e 4). Os vencedores podiam ficar com até dois lotes cada um. Mas menos de um mês depois de abertas as propostas foi determinada a suspensão da empresa norueguesa do cadastro de fornecedores da Petrobras. Logo em seguida as propostas feitas pela Aibel foram desclassificadas. Assim, os segundos colocados nos lotes em que a Aibel havia feito a melhor oferta ficaram em primeiro lugar.
No lote 2, por exemplo, o primeiro colocado passou a ser a empresa PCP Engenharia e no lote 4, a Engevix. PCP e Engevix ficaram então com as melhores ofertas para quatro dos cinco lotes da licitação (no outro lote o primeiro colocado foi a empresa Imeta-me). Os quatro lotes representam contratos de aproximadamente R$ 1,4 bilhão para as duas empresas. PCP e Engevix entraram separadas na licitação, pois eram vedados os consórcios. Mas as duas empresas já formaram consórcio para prestar juntas serviços em plataformas da Petrobras. Procuradas, PCP e Engevix não se manifestaram.
A Aibel recorreu das decisões da estatal. Apresentou dois recursos: um à comissão de licitação, para tentar evitar que os segundos colocados nos lotes nos quais apresentou melhor proposta assinassem os contratos com a estatal, e outro â área de materiais da companhia, para ser incluída novamente no cadastro de fornecedores. Não foi atendida em nenhum deles. No recurso feito à comissão de licitação, a Aibel argumentou que as propostas apresentadas para os lotes 2 e 4 representariam economia para a Petrobras de R$ 54,6 milhões em relação às ofertas dos segundos colocados.
A Petrobras não explicou as razões que a levaram a desqualificar uma proposta financeira mais vantajosa. Em nota, a estatal argumentou que controles internos da Petrobras identificaram não conformidades administrativas na execução pela Aibel de um contrato vigente de construção e montagem industrial, que motivaram uma sanção contratual aquela empresa.
Segundo a estatal, a empresa norueguesa foi comunicada da suspensão cadastral por essas razões. A Aibel já havia argumentado à Petrobras que a decisão que fundamentou a desclassificação de suas propostas seria nula por ausência de motivação suficiente. Esse desfecho e a falta de explicações da Petrobras podem ser um exemplo do que tende acontecer no mercado de prestação de serviços quando a estatal se tornar a única operadora dos campos do pré-sal, avaliam fontes do setor.