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Clippings - 17/11/14

Entrave para CSN na expansão de Casa de Pedra

Um clima de pânico se instalou em um bairro da cidade de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, por conta de um projeto de expansão da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A siderúrgica quer ampliar uma barragem de rejeitos de minério de ferro. Para os moradores, há o risco de o bairro ser engolido no caso de rompimento da estrutura. O prefeito José de Freitas Cordeiro (PSDB) decidiu encampar as queixas da população e está batendo o pé contra a obra.

A decisão se transformou em um grande incômodo para a empresa. O plano de aumento de produção de sua mina na cidade, a Casa de Pedra, depende de uma barragem maior. Das cerca de 26 milhões de toneladas de minério produzido por ano, o objetivo é chegar a 40 milhões de toneladas. A direção da companhia fala que vai buscar dialogar melhor para convencer a todos de que a obra não trará nenhum risco. Mas, por enquanto, seus planos são tratados como uma ameaça na cidade.

“Pânico, pânico, pânico. Esse era o clima. Tinha moradores vendendo suas casas. As pessoas estavam com medo de a represa estourar. Houve recentemente, próximo a [cidade de] Itabirito, o rompimento de uma represa e isso aumentou ainda mais o pânico dos moradores daqui”, disse ao Valor o prefeito de Congonhas. O acidente na cidade mineira de Itabirito, na barragem de uma pequena mineradora, ocorreu em setembro.

“Sei da responsabilidade da CSN, sei que tem uma fiscalização muito grande sobre essas represas. A gente sabe que tecnicamente pode estar perfeito. Agora, o que me levou a tomar essa posição foi esse pânico que se criou entre os moradores”, disse o prefeito tucano. Há 20 dias, Cordeiro participou de audiência pública ocorrida no bairro Residencial, que é vizinho a uma das laterais da barragem. E lá afirmou, pela primeira vez, que era contra as obras. Segundo ele, havia cerca de 500 pessoas na reunião, ou um terço do bairro.

O que a CSN quer é erguer mais dez metros de “paredes” no alto da barragem para que ela comporte mais água com o rejeito de minério de ferro extraído de Casa de Pedra. A altura original era de 923 metros acima do nível do mar. Subiu para 933 metros, num primeiro processo de aumento, que ficou pronto em meados deste ano, e agora a ideia é que chegue a 944 metros. A empresa prevê ainda um último aumento da barragem, para 954 metros, mas isso ainda não está em discussão.

Quem está nas ruas da parte baixa do bairro Residencial e olha a rampa coberta de baixa vegetação que serve de um dos paredões da lagoa de rejeito parece conviver com a dúvida. “O pessoal fica com aquela cisma se isso não vai cair”, disse Irene Maria dos Santos, de 58 anos e há 20 no bairro. “Se aumentarem, a gente que não conhece muito as coisas, olha lá para cima e fica com mais medo.”

Um dos moradores que mobilizam o bairro contra a obra é Rodrigo Ferreira da Silva. Ele disse que os imóveis se desvalorizaram por causa da elevação da barragem, do medo das pessoas. E se queixa da postura da empresa. “A gente nunca foi consultado.”

A CSN é a maior empregadora da cidade. Dos 6 mil trabalhadores, diretos e indiretos, cerca de dois mil são de Congonhas. É também a maior contribuinte de royalties, o Cfem. De janeiro a outubro contribuiu com R$ 25,08 milhões à cidade. Há alguns anos, a empresa também se viu numa disputa na cidade envolvendo a expansão da mina em um morro que serve de pano de fundo da basílica ornada com os profetas de Aleijadinho. A CSN atendeu às demandas locais e disse que conseguiu conciliar seus planos de produção ao novo cenário.

Quem está agora na linha de frente na discussão sobre a barragem em Congonhas é Newton Augusto Viguetti Filho. O executivo é o gerente-geral de Meio Ambiente da CSN e reconhece que há necessidade de a empresa se comunicar melhor com a cidade. “Entendemos que falta esclarecimento da parte técnica”, disse. “O que nos surpreende talvez sejam certas posturas antes mesmo que a gente consiga estabelecer um diálogo.”

Viguetti afirma que a face da barragem adjacente ao bairro é formada por um morro natural, o que diminui muito o risco de um derramamento de água ou rejeito sobre o bairro. Hoje o que há ali é mais rejeito do que água, diz o gerente. Segundo ele, em 2005, a empresa obteve dos órgãos ambientais de Minas Gerais uma licença prévia – com a aceitação da prefeitura de Congonhas — para as obras de expansão de Casa de Pedra, uma licença que incluía a ampliação da barragem.

A equipe do prefeito diz que empresa precisa de uma declaração de conformidade do município para elevar as paredes da barragem. É isso que o prefeito não quer dar. A CSN, no entanto, já solicitou licença de instalação a Supram, órgão regional de Meio Ambiente. A expectativa é obter essa licença em um ano. Há uma discordância entre prefeitura, Estado e a empresa sobre até que ponto Congonhas pode atravancar o processo. Na CSN há uma preocupação em não comprar briga política que possa acabar alimentando uma campanha contra sua imagem.

Viguetti diz que a CSN quer evitar que o episódio vire uma disputa nos tribunais. “Vamos conversar com o prefeito e esgotar ao máximo o diálogo”, afirmou.