
A cadeia global de transporte marítimo pode ver até 10% de sua frota parada nos próximos meses caso se confirmem os sinais de escassez de combustível marítimo (bunker), segundo alerta do chefe global de frete da Mercuria Energy Group, em entrevista recente à S&P Global Commodity Insights. O executivo afirma que a combinação entre redução de oferta de óleo combustível e priorização de derivados limpos pelas refinarias, em meio às tensões no Oriente Médio, está diminuindo a disponibilidade de bunker em hubs estratégicos e elevando o risco de paralisações regionais.
Risco de desabastecimento em hubs de bunker
De acordo com a S&P Global Commodity Insights, a Mercuria projeta que, se os atuais bloqueios na oferta persistirem por mais um mês, a escassez de óleo combustível marítimo poderá levar à parada de até 10% do tráfego global de navios. Em entrevista, o chefe de frete da empresa, Larry Johnson, estimou que podem ocorrer “apagões” de bunker em rotas específicas já a partir de julho, com possibilidade de falta de produto em grandes hubs mundiais entre agosto e setembro.
O alerta se concentra especialmente nos combustíveis residuais usados pela frota de longo curso, segmento que vem sofrendo com a combinação entre menor oferta vinda do Oriente Médio e ajustes de refinarias para maximizar a produção de diesel e outros derivados limpos. Como o transporte marítimo não dispõe de reservas estratégicas de bunker semelhantes às de combustíveis para uso automotivo ou de aviação, a dependência de estoques comerciais torna o sistema mais vulnerável a rupturas de curto prazo.
Impactos potenciais em rotas e custos
Dados compilados pela S&P Global indicam que, em 2025, o setor marítimo consumiu cerca de 3,3 milhões de barris por dia de combustíveis residuais e 870 mil barris por dia de óleo diesel marítimo, o equivalente a quase 5% do consumo global de derivados de petróleo. Em um mercado com pouca folga de capacidade, a perspectiva de cortes na oferta de bunker já provocou fortes oscilações de preço: o índice Platts Bunkerworld para combustível com teor de enxofre de 0,5% chegou a dobrar em poucas semanas de conflito no Oriente Médio, atingindo a casa de 1.022 dólares por tonelada (1.022 US$/t), antes de recuar para cerca de 830 dólares por tonelada (830 US$/t), ainda cerca de 60% acima dos níveis anteriores.
A Mercuria avalia que, diante desse cenário, armadores e operadores estão mudando o foco da otimização de preço para a segurança de abastecimento, antecipando operações de bunkering, aumentando volumes por escala e reforçando contratos de longo prazo. Para navios de contêineres, granéis líquidos e sólidos, a combinação de custos mais altos e possível indisponibilidade de combustível tende a pressionar tarifas de frete e a reduzir a confiabilidade dos cronogramas globais, com reflexos diretos nas cadeias logísticas.
Repercussões para o Brasil e o sistema portuário
Embora os alertas da Mercuria tenham foco global, a possibilidade de escassez de bunker em hubs internacionais tem implicações diretas para portos brasileiros integrados a grandes rotas de longo curso, como Santos, Paranaguá e terminais do Arco Norte. Em cenário de oferta apertada, navios que atendem corredores de exportação de grãos, minério e cargas conteinerizadas podem ser obrigados a replanejar escalas, priorizando pontos de abastecimento com maior disponibilidade de combustível, o que afeta tempos de viagem, janelas de atracação e eficiência operacional.
Análises de empresas de logística e consultorias em comércio exterior indicam que a combinação de rotas mais longas, tensões geopolíticas e encarecimento do bunker já vinha pressionando custos logísticos desde 2024, exigindo ajustes em contratos de frete inclusive para cargas originadas no Brasil. Em um país fortemente dependente do transporte marítimo para escoar commodities agrícolas e minerais, bem como para a cabotagem e o abastecimento de regiões remotas, aumentos adicionais de custos de combustível tendem a ser repassados ao valor do frete e, em última instância, ao preço final dos produtos.
Fonte: Portos e Navios.