Duas subsidiárias do grupo Eletrobras, a Chesf e a Eletrosul, são acionistas de grande parte das usinas eólicas comercializadas no leilão A-3, para projetos que ficam prontos em três anos (2016), promovido ontem pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Juntas, as duas empresas participarão de 27 parques eólicos, que vão exigir investimentos de mais de R$ 2,2 bilhões.
As empresas do grupo Eletrobras (Eletrosul e Furnas) já haviam salvado o leilão de linhas transmissão realizado na última quinta-feira, ao vencer grande parte dos lotes licitados pelo governo. A Eletrobras foi a mais prejudicada pela renovação antecipada das concessões do setor elétrico, medida que secou sua geração de caixa e, supostamente, debilitaria sua capacidade de investimento. Mas a atuação da estatal nos últimos leilões demonstra o contrário.
Na avaliação da presidente da Associação Brasileira da Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Melo, a atuação do grupo Eletrobras não desmerece o resultado do último leilão. A Eletrosul é uma operadora experiente e competente, com grande know-how no setor, disse Elbia. Esse não era um leilão exclusivo de eólica, mas essa foi a única fonte que vendeu energia, afirmou a executiva, para quem o desempenho consolida a importância do setor para o país.
Segundo Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a indústria eólica deve registrar neste ano uma expansão recorde, superando a marca de 2011, quando foram comercializados 2,9 mil MW de potência instalada. Nos dois últimos leilões, foram comercializados 1,5 mil MW e 867,6 MW, respectivamente. Como haverá mais um leilão em dezembro, de usinas que ficam prontas em cinco anos (A-5), é bem provável que o setor eólico alcance um novo recorde.
Sobre o fracasso das usinas solares, que participaram pela primeira vez de um leilão de energia para o mercado regulado, Tolmasquim afirmou que ficaria surpreso se o resultado tivesse sido diferente. O vento venceu a disputa com o sol porque, neste momento, é mais competitivo, disse o executivo. Segundo ele, é esperado que a energia solar repita a trajetória virtuosa da energia eólica e também fique mais barata no país no futuro.
Em nota à imprensa, o Greenpeace culpou o governo pela fracassada estreia das usinas solares nos leilões e pede que sejam fixados preços mais altos para incentivar essa fonte de energia.
Esse é o momento dos ventos, mas o momento do sol chegará, disse Tolmasquim. Os parques eólicos venderam energia pelo preço médio de R$ 124,43 por MWh, com um deságio de apenas 1,25% sobre o preço-teto.
No leilão realizado ontem, a Eletrosul, braço da Eletrobras na região Sul, vendeu energia de 15 parques eólicos, que possuem uma capacidade instalada de 212,5 MW, ou 24,5% do total comercializado. As usinas serão construídas no extremo sul do Rio Grande do Sul e vão demandar R$ 1 bilhão. Segundo Elbia, a exigência de que os parques tivessem conexão com a rede elétrica favoreceu o Rio Grande do Sul e prejudicou a Bahia e o Rio Grande do Norte, onde as linhas de transmissão estão atrasadas.
Isso fez com que os gaúchos recuperassem o primeiro lugar, posto que haviam perdido nos leilões anteriores para o Nordeste. Mas, para o próximo leilão A-5, em dezembro, os Estados nordestinos devem voltar a ter uma participação mais expressiva, já que haverá um prazo de cinco anos para que as conexões sejam construídas.
Os 12 empreendimentos nos quais a Chesf possui participação somam uma capacidade de 338 MW, o que representou 38% de toda a energia negociada no leilão. Os parques estão distribuídos em três Estados do Nordeste. Quatro deles, no total de 120 MW, demandarão R$ 1,2 bilhão e serão instalados em Pernambuco em sociedade com a PEC Energia. Outros seis, num total de 180 MW, ficam no Piauí e serão construídos em sociedade com a americana Contour Global, o Salus FIP (Casa dos Ventos) e a SPE Ventos de Santa Joana.
O mesmo consórcio já havia vendido energia de sete parques no Piauí no leilão anterior. Outros dois parques da Chesf, de 38 MW, estão localizados na Bahia, numa parceria com a Sequóia Capital.