– Colocada à venda no final do ano passado, a participação acionária de 14,86% do grupo Mover na concessionária de infraestrutura Motiva (ex-CCR) atraiu interesse mais firme de dois grupos internacionais: o fundo canadense La Caisse (ex-CDPQ) e o fundo soberano GIC Private, de Singapura.
As tratativas estão sendo conduzidas pelo Bradesco BBI, banco de investimentos do grupo Bradesco. O BBI é credor de uma dívida de R$ 3,3 bilhões (valor do início de 2025) da Mover e tinha como garantia ao seu crédito as ações da Motiva pertencentes à holding do antigo grupo Camargo Corrêa.
O Estadão/Broadcast apurou com pessoas próximas das negociações que uma das ofertas recebidas pelo BBI ficou entre 10% e 15% abaixo do valor de mercado das ações da Motiva em poder da Mover. O banco não cogita vender por valor inferior ao de negociação da concessionária de infraestrutura na B3, segundo informações de interlocutores.
Nesta terça-feira, 10, a ação da Motiva fechou cotada a R$ 16,02. Dessa forma, com base no valor de mercado, a participação da Mover valeria R$ 4,8 bilhões. Pelos termos do acordo firmado entre o banco e a holding em julho passado, durante o processo de recuperação judicial da Mover, do valor que for apurado na venda, a controladora do ex-grupo Camargo Corrêa vai receber R$ 500 milhões. O BBI e a Mover disseram não comentar o processo em curso.
A holding da família Camargo detém as ações por meio de duas empresas controladas: Sucea Participações e Sincro Participações. Do total — cerca de 300 milhões de papéis —, a Mover tem 10,33% dentro do acordo de acionistas da Motiva. O restante, 4,53%, está fora, estando livre para venda em separado no mercado, caso o comprador queira apenas as ações com controle.
O Estadão/Broadcast teve informação de que o BBI apresentou o ativo (a participação acionária) a mais de 30 investidores desde o início do processo. O principal argumento alegado é que o lote de ações dá direito de participar do bloco controlador da Motiva, maior companhia de concessões de infraestrutura do País — está presente em rodovias (Bandeirantes, Anhanguera e Dutra e outras) e linhas de linhas de metrô (como o CCR Metrô Bahia, de Salvador). Recentemente, a empresa vendeu seu portfólio de ativos na área de aeroportos.
Direito de preferência
A venda da participação da Mover terá de ser submetida aos demais acionistas do bloco de controle da concessionária: Votorantim, Itaúsa e Soares Penido. Esses acionistas terão direito de preferência pelo negócio, que deverá ser comunicado no prazo de 30 dias após serem notificados. Todos têm fatia de ações igual (10,3%, cada um) dentro do bloco de controle da Motiva.
Os três acionistas vão avaliar a proposta de compra da participação acionária com interesse em ficar com o ativo, a depender do perfil de quem fizer a aquisição e do valor da transação, revelaram pessoas próximas dos três grupos.
Segundo pessoa que acompanha o processo de venda, o atraso na alienação do bloco de ações se deve, em parte, à alta na cotação do papel da Motiva nos últimos meses. Desde outubro, o valor de mercado da concessionária subiu cerca de 25%, com ação passando de R$ 13,78 para R$ 17,21. E também ao cenário crítico internacional e ao de incertezas políticas e econômicas do País.
Pelos termos do acordo, o BBI receberá seu crédito com a Mover após descontos de impostos e outros custos financeiros da operação, além dos R$ 500 milhões que irão para o caixa da Mover.
Fundos pesos-pesados
La Caisse, antiga Caisse de dépôt et placement du Québec (CDPQ), é um dos maiores fundos de pensão e investidores institucionais do Canadá e do mundo. Gerencia cerca de US$ 282 bilhões em ativos globalmente. Criada em 1965, La Caisse faz investimentos com foco em longo prazo.
No Brasil, tem um portfólio da ordem de R$ 50 bilhões em investimentos com participações acionárias em diversas empresas — Transportadora Associada de Gás (TAG), a rede de fibra neutra FiBrasil, Prologis e Verene Energia (ativos de transmissão de energia). De acordo com informações recentes do fundo no País, o objetivo é investir de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões todo ano no Brasil, e o foco são os setores de energia, saneamento e infraestrutura.
Criado em 1981 para gerir reservas cambiais de Singapura, o GIC Private Limited (antes Government of Singapore Investment Corporation) é um dos maiores e mais influentes fundos soberanos do mundo. Tem ativos estimados em US$ 800 bilhões em ações, renda fixa, imóveis e private equity.
O GIC tem forte presença no Brasil, com investimentos em empresas como Nubank, Rede D’Or, Axia (ex-Eletrobras), QI Tech e, no ano passado, a Cimed (companhia farmacêutica).
Procurada, La Caisse informou que não comenta “especulações de mercado”. A assessoria do GIC não retornou ao pedido de posicionamento do fundo.