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Clippings - 29/08/13

Gás natural une Brasil e Bolívia

O comércio do combustível entre os países garante a estabilidade diplomática, apesar das divergências recentes

Embora tenha ganho ares de crise diplomática, a fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina para o Brasil não deve provocar maiores estragos nas relações entre os dois países, dada a dependência da Bolívia das exportações de gás natural para o mercado brasileiro. Ao contrário, dizem especialistas, garante ao presidente Evo Morales uma bandeira em um momento que tenta recobrar o apoio das principais correntes que lhe possibilitaram a ascensão ao poder, como centrais sindicais e movimentos indígenas.

Morales concedeu ontem entrevista pedindo ao governo brasileiro que devolva o senador, mas sem usar o termo extradição. “É importante para os países que lutam contra a corrupção que Pinto seja devolvido à Justiça para que responda às acusações”, afirmou o presidente boliviano. Pinto é acusado de corrupção e envolvimento na morte de manifestantes indígenas em 2008. Informações extra-oficiais indicam que o senador, que alega perseguição política, planeja ir para o Uruguai antes mesmo de ter o pedido de refúgio analisado no Brasil.

Apesar das divergências com sua base eleitoral, Morales tem hoje alto índice de popularidade, na casados 60%, e tem grandes chances de obter seu terceiro mandato nas eleições de 2014. “Assim como em outros países mais à esquerda da América do Sul, a oposição boliviana simplesmente não consegue se organizar. É uma oposição que normalmente vem da classe empresarial, que encontra muita resistência junto ao eleitorado”, analisa Thiago de Aragão, da consultoria política Arko Advice.

O presidente boliviano tem acusado a Central Operária Boliviana, que vem realizando greves pelo país, de “sabotar” o governo e atuar como partidos políticos. Para analistas locais, um eventual fortelecimento da central sindical pode ser a única ameaça ao terceiro mandato de Morales. Para ele, o incidente não terá impacto sobre as relações bilaterais coma Bolívia, que tem no Brasil seu principal parceiro comercial. Em2012, as exportações bolivianas para o mercado brasileiro somaram US$3,67bilhões e as importações foram de US$ 1,52 bilhão, um déficit de US$ 2,15 bilhões para o Brasil. Do total importado, 99% correspondem a compras de gás natural.

Há rumores de que a Bolívia planeja antecipar negociações para a renovação do contrato de gás, que vence em 2019, aproveitando um momento de fragilidade no abastecimento do combustível no Brasil, com alto consumo por usinas térmicas e dificuldades para expandir a oferta. Aragão lembra que a crise diplomática ocorre em um momento em que as relações entre Brasil e Bolívia não correm bem. Além da arrastada novela do asilo a Roger Pinto, há divergências sobre políticas de combate ao tráfico de drogas e ao policiamento de fronteiras. “O auge do relacionamento foi em um momento de estabilidade da economia brasileira, em que o país investia muito nos países vizinhos.

Hoje, o governo está muito focado para dentro, para questões cambiais, combate à inflação. Para fora, só trata de questões de segurança, que interessam menos aos governos vizinhos”, diz. “As relações entre os dois países não são normais, pelo contrário. O Brasil está farto dos constantes desplantes bolivianos contra o país, um fenômeno de insolência e provocação que se deve tanto à imprudência estratégica de Morales como à total impotência do ministro David Choquehuanca para organizar e dar uma direção coerente às relações exteriores do país”, concorda o analista Fernando Molina, da Infolatam.

Em 2007, em uma tentativa de reaproximação após a crise deflagrada pela tomada das refinarias da Petrobras pelo exército boliviano um ano antes, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em La Paz para, ao lado da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, anunciar um pacote investimentos no país. Na ocasião, foram assinados nove acordos, com aportes superiores a US$ 1 bilhão e estudos de viabilidade de novos empreendimentos de empresas brasileiras.

O pacote incluía a retomada dos investimentos da Petrobras, a interligação entre os portos de Aricas e Iquique, no Chile, ao porto de Santos, e estudos para um polo petroquímico da Braskem. Dos principais projetos, apenas a rodovia saiu do papel. O projeto aguarda inauguração oficial, mas já é possível trafegar no trecho boliviano. A Petrobras tem mantido investimentos no país em ritmo menor do que o anunciado e o projeto da Braskem não avançou. (Brasil Econômico)