Descontando os ativos, a dívida líquida da empresa seria de US$ 4,8 bilhões (ou R$ 24 bilhões). Quando anunciou a recuperação judicial, a Gol disse que sua dívida era de R$ 20,3 bilhões considerando até o terceiro trimestre do ano passado.
Mais dados sobre o processo de recuperação judicial da Gol nos Estados Unidos (chapter 11) foram publicados nesta sexta-feira. Entre os detalhes, a empresa pediu que dos US$ 950 milhões em DIP que foram garantidos por debenturistas da holding Abra, um total de US$ 350 milhões sejam liberados já no início do processo. O DIP é uma modalidade de empréstimo dentro do chapter 11 que concede preferência no recebimento aos grupos que fornecem o recurso.
No documento, a empresa aponta uma dívida total de US$ 8,3 bilhões, mais de R$ 40 bilhões considerando o câmbio de hoje.
Ainda sobre o DIP, a empresa apontou à Justiça de Nova York que US$ 150 milhões do DIP vão ser usados no final do processo e o valor de US$ 450 milhões vai ser desembolsado diante de algumas condições.
“O saque provisório de US$ 350 milhões é dimensionado para atender às necessidades de liquidez previstas pelos devedores para o período intermediário, e o acesso a essa liquidez permitirá que os
devedores continuem as operações durante esse período”, apontou a equipe da Gol, em documento entregue à corte de Nova York.
Todos os valores pendentes sob o mecanismo DIP incidirão juros à taxa igual ao SOFR (Secured Overnight Financing Rate, que é uma taxa de financiamento utilizada por instituições) de 30 dias (sujeito a um piso SOFR de 3,50% ao ano), mais 10,50% ao ano.
No documento a empresa destacou que diante das difíceis conversas com arrendadores e da rápida diminuição da liquidez da empresa, em janeiro ficou clara que a situação iria exigir um processo de chapter 11 para uma reorganização, assim como a disponibilidade de um financiamento DIP para elevar a liquidez do grupo.
Mas a empresa disse que levantar o DIP não foi uma atividade simples. O grupo disse ter recebido diversas propostas de interessados, mas eles não estavam dispostos a compor o DIP sem
garantia. Para conseguir contornar, a empresa teve de pôr na mesa marcas, como a propriedade intelectual da Gol Linhas Aéreas e o programa de fidelidade Smiles.
A empresa argumentou ainda que tentou diversas reorganizações que trouxeram alívio temporário depois da pandemia. Mas vários fatores pós-pandemia, como a subida do preço do combustível, a
baixa do real, e os atrasos nas entregas de aeronaves prejudicaram os esforços de evitar uma recuperação judicial. “Os atrasos nas entregas de novas aeronaves, em particular, causaram um aumento significativo nos custos operacionais e nas despesas de manutenção da Gol, que, por sua vez, reduziram a capacidade operacional”, disse.
Sobre o balanço, a empresa apontou que até 31 de dezembro tinha ativos que totalizam US$ 3,5 bilhões e passivos na ordem de US$
8,3 bilhões. Os advogados da aérea explicaram no documento que dentro dos passivos, estão cerca de US$ 4,2 bilhões de dívida financiada pendente, dos quais cerca de US$ 2,1 bilhões (ou 50%)
foram garantidos por determinados ativos dos devedores.
Descontando os ativos, a dívida líquida da empresa seria de US$ 4,8bilhões (ou R$ 24 bilhões). Quando anunciou a recuperação judicial, a Gol disse que sua dívida era de R$ 20,3 bilhões considerando até o
terceiro trimestre do ano passado.
Mais cedo, a justiça de Nova York autorizou a entrada em chapter 11 da Gol. Em manifestação, que o Valor teve acesso, o juiz Martin Glenn concedeu assim a proteção à Gol de execução de credores,
um dos principais motivos da aérea de buscar a proteção nos Estados Unidos.
Segundo Leonardo Zampolli, especialista em recuperação judicial e advogado do Kincaid Mendes Vianna Advogados, mesmo após consultar mais de 20 possíveis investidores, a Gol não conseguiu obter um financiamento DIP sem oferecer garantias.
“Sem outras opções, o grupo foi forçado a obter o financiamento DIP oferecendo como garantia todos os seus bens, inclusive valores depositados em contas bancárias e recebíveis futuros. A título exemplificativo, até a propriedade intelectual das empresas Gol Linhas Aéreas Inteligentes S.A, Gol Linhas Aéreas S.A e do programa Smiles de fidelidade”, disse.
Joana Bontempo, Consultora e Head de Reestruturação de Empresas de CSMV Advogados, disse que a Gol acertou em buscar proteção nos Estados Unidos. “Mostra agilidade no processo. Em 24 horas conseguiu a proteção necessária contra os arrendadores”, disse. A empresa ainda deve ter uma audiência para debater o DIP com a Justiça de Nova York na segunda-feira.
Fonte: Valor Econômico