Etanol, óleos vegetais, gorduras e até resíduos são analisados substituir combustível fóssil
Por Bruno Rosa — O Globo, no Rio 16/04/2026 05h04 · Atualizado há 2 horas

Produtores de combustíveis e empresas dos mais variados setores iniciaram uma corrida para desenvolver e adotar combustíveis alternativos para navegação, a fim de reduzir as emissões e aumentar a eficiência. Entre as apostas está o uso de hidrogênio verde, etanol, óleos vegetais, gorduras e até resíduos, como óleo de cozinha usado, para substituir o tradicional óleo combustível, o chamado bunker.
O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de gases do efeito estufa. A busca por novas soluções visa a atender às metas definidas pela Organização Marítima Internacional (IMO), que prevê redução de pelo menos 20% das emissões totais até 2030 e aponta para emissões líquidas zero por volta de 2050. Segundo Julia Touriño, advogada da área ambiental do Kincaid Mendes Vianna Advogados, o acordo tende a impulsionar os projetos, pois cria previsibilidade para o mercado.
“A IMO transforma a descarbonização da navegação em uma obrigação regulatória progressiva, e não mais em mera agenda voluntária ou reputacional”, diz a advogada. “Novas frentes de financiamento, públicas e privadas, se abrem para projetos ligados a combustíveis de baixo carbono, infraestrutura portuária sustentável e transição energética de frota”.
A Petrobras aposta no B24, que usa 24% de componentes renováveis, como óleos vegetais, gorduras e resíduos. A estatal está ampliando seu leque de projetos, com iniciativas para desenvolver combustível marítimo a partir de metanol e amônia de baixo carbono, produzidos a partir do uso de hidrogênio e por meio da captura de carbono, por exemplo. A companhia também avalia o etanol.
“Estes projetos se valem da ampla disponibilidade de recursos renováveis no Brasil para produzir combustíveis com pegadas de carbono muito reduzidas, viabilizando a descarbonização profunda do segmento”, informa a companhia. Na Transpetro, subsidiária da estatal, foram mais de 4 mil toneladas de B24, o que evitou a emissão de aproximadamente 1,6 mil toneladas de gás carbônico, principal causador do efeito estufa.
Segundo a Transpetro, os navios já estão tecnicamente aptos a receber misturas de biocombustível de até 50%. “O Brasil tem plenas condições de liderar projetos de descarbonização na navegação, especialmente pelo seu potencial na produção de biocombustíveis e no desenvolvimento de novas tecnologias”, informou a subsidiária da estatal.
A Vale concluiu acordo de afretamento para dois novos navios movidos a etanol, que serão entregues a partir de 2029 e terão potencial de reduzir em cerca de 90% as emissões de carbono, na comparação com o óleo combustível pesado. Segundo a mineradora, será a primeira vez na indústria marítima que o etanol será adotado como combustível principal em uma embarcação transoceânica.
“Estes navios serão triple fuel [etanol, metanol e óleo pesado] e também terão opção de retrofit para GNL [gás em estado líquido] e amônia. Essa flexibilidade é uma vantagem competitiva, além de promover a descarbonização no setor marítimo, diz avalia Rodrigo Bermelho, diretor de navegação da Vale.
A Axia Energia (ex-Eletrobras) também mira o segmento. A companhia avalia a participação em consórcios de projetos de plantas e hubs de hidrogênio verde e produção de metanol e amônia verde, com aplicação para o transporte marítimo. Segundo Virgínia Fernandes, diretora de relacionamento com clientes da empresa, a atuação no setor aquaviário começou em 2025, com assinatura de um acordo de cooperação técnica com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), voltado à avaliação de soluções em energia renovável, eletrificação e redução de emissões em portos e terminais.
“Avaliamos atuar como produtora e fornecedora de hidrogênio verde”, diz a diretora. Na avaliação de Fernandes, a adoção em larga escala do H2V e de seus derivados ainda enfrenta desafios técnicos, econômicos e regulatórios, como a necessidade de infraestrutura portuária dedicada para produção, armazenamento e abastecimento, custos elevados e escala.
Já a Wilson Sons, operadora de logística portuária e marítima, aposta no biodiesel. Segundo Gustavo Machado, diretor da empresa, vem sendo utilizado óleo de cozinha na produção do combustível desde março de 2025. Para ele, a redução de emissões nas operações chega a mais de 80%. “A estratégia para avançar na descarbonização é testar alternativas de biocombustíveis e avaliar o funcionamento e a performance dos motores principais das embarcações, além de quantificar as reduções de emissões atingidas”, afirma Machado.
A Ocyan, que atua na prestação de serviços para a indústria de óleo e gás, desenvolveu, em parceria com outras empresas, uma técnica que usa hidrogênio para otimizar a combustão em motores a diesel de grande porte. A meta é reduzir as emissões e o consumo de combustível em até 10%. O projeto mira inicialmente plataformas de perfuração, mas a companhia avalia também adequá-lo a embarcações de apoio e navegação e setores como mineração, geração termelétrica e transporte rodoviário pesado.
“As metas globais de descarbonização ajudam a direcionar os esforços das empresas a investir em soluções que busquem a redução das emissões no transporte marítimo e em outras indústrias” afirma Rodrigo Chamusca, gerente executivo de negócios digitais e tecnologias da Ocyan.
Fonte: Valor Econômico