Valor Econômico – 20/11/2013
Por Cláudia Schüffner | Do Rio
O esforço da HRT para reduzir custos e enxugar a estrutura por meio da redução dos salários da diretoria, do número de conselheiros (de onze para sete) e da devolução de alguns andares do luxuoso prédio onde funciona na avenida Atlântica, no Rio, são parte da estratégia de tornar a empresa mais atrativa no mercado. A HRT está à venda e ainda não encontrou comprador.
Segundo fontes ouvidas pelo Valor nesta e na semana passada, um dos potenciais compradores de mais uma parte dos blocos no Solimões (Amazônia) é a russa Rosneft, que adquiriu a TNK-BP. A russa já tem 45% da HRT, deve cerca de US$ 47 milhões à brasileira e tem direito de comprar outros 10% até junho de 2014, mas pode antecipar a operação. Também não são descartadas as vendas de partes ou da totalidade dos blocos na Namíbia, assim como uma fatia dos 60% adquiridos da BP no campo de Polvo.
A HRT teve prejuízo de R$ 724 milhões no terceiro trimestre e acumula perda de R$ 1,369 bilhão em 2013. No fim do setembro a companhia tinha R$ 608 milhões no caixa, mas quando descontados os compromissos assumidos para o perãodo, incluindo pagamentos à Transocean e Schlumberger e o valor já reservado para pagar pela aquisição de Polvo, sobram R$ 157 milhões para chegar até dezembro. Mas a companhia informa que planeja chegar ao fim do ano com R$ 200 milhões em caixa.
Os prejuízos fiscais a compensar somam R$ 654 milhões e esse pode ser um grande chamariz para um comprador que possa utilizar esses créditos. Um passo para facilitar a aquisição da companhia por novo investidor será dado se for aprovada, na próxima assembleia geral extraordinária (AGE), a remoção de uma cláusula do estatuto que protege contra aquisições hostis ou tomadas de controle (poison pill).
O atual estatuto estabelece que o acionista que adquirir 20% ou mais do capital – o que na petroleira daria o controle – precisa fazer uma oferta de compra das ações remanescentes pagando o valor econômico mais 15% de prêmio. Na prática, a cláusula limita os direitos dos acionistas com maior número de ações, o que vem dificultando a negociação com potenciais compradores. A avaliação atual é que a existência dessa poison pill era uma maneira de proteger a diretoria anterior, que controlava a companhia com pouca quantidade de ações, de uma aquisição hostil.
Quando se retirar essa cláusula será possível ter um acionista que chegue a 25%, 35% ou 40% do capital, novo ou atual ou que se junte com novos, para fazer uma oferta. A cláusula que existe protegia os administradores e sem ela a empresa fica vulnerável a ataques. No longo prazo, a governança piora, avalia um observador que conversou com o compromisso de não ter seu nome revelado.
Segundo o Valor apurou, a remoção da cláusula foi aprovada pela maioria do conselho, com exceção do fundador da companhia, Marcio Mello, e do presidente da HRT América, Wagner Peres. A decisão agora cabe aos acionistas que votarem na AGE marcada para o dia 15 de janeiro. Caso não haja quorum, outra será marcada para o dia 24 do mesmo mês. Para formar um novo quadro de conselheiros, o conselho de administração recomenda a reeleição de Elias Ndevanjema Shikongo, François Moreau, Joseph P. Ash, Marcio Rocha Mello, Oscar Alfredo Prieto, Peter L. O’Brien e Wagner Elias Peres.
Atualmente no conselho, Charles Putz disse ao Valor que gostaria de ficar, mas não aceitou participar do grupo escolhido pela administração. Eu não quis participar da mesma chapa em que os outros membros estão. Continuo até a assembleia e se os acionistas pedirem voto múltiplo eu posso até continuar, explicou o conselheiro. Na breve entrevista em que evitou falar de outros assuntos relacionados à companhia, Putz explicou que tem divergências de duas naturezas em relação à HRT atualmente. Uma é em relação aos negócios, em que na essência concordo, mas discordo nos detalhes. Acho que a empresa não está contendo custos no ritmo que precisaria. Na essência, eu faria corte de custos mais intenso e mais rápido. E na exploração teria demorado mais para perfurar a Namíbia e buscado parceiros antes, afirma o conselheiro.
Nas questões relacionadas à governança e à remuneração as discordância são mais frontais. Entendo que remuneração da diretoria está fora do mercado. E mesmo agora, com a redução, ainda acho que é um salário alto e que está sendo reduzido tarde, disse Putz. Uma reportagem publicada no Valor em junho mostrou a HRT na sexta posição entre as empresas brasileiras de capital aberto com o maior gasto per capital na diretoria em 2012, atrás da Vale, Itaú, BR Malls, OGX e BTG. Na avaliação de Putz, ainda mais grave que os altos salários são os bônus, que pagam mais de um ano de remuneração e não são atrelados à performance da companhia.