Petrobras gastou R$ 45,2 bilhões para pagar produtos e serviços; cotas do Estado ficaram em 1,3% e 0,88%, respectivamente
Módico 1% dos fornecedores da Petrobras tem RG gaúcho. A fatia poderia ser de 7%, o que refletiria a participação local no Produto Interno Bruto (PIB). Com este parâmetro como espécie de motivador, entidades empresariais buscam mobilizar e preparar indústrias e prestadores de serviços para fazer parte do time de elite que erguerá o império do pré-sal em águas brasileiras e por toda a cadeia do petróleo.
A estatal gastou R$ 45,2 bilhões somente em 2008 para pagamento de produtos e serviços. Em bens, a cota gaúcha foi de 1,3%. Em serviços, 0,88%. Os dados foram apresentados pelo coordenador do Comitê de Competitividade, Petróleo, Gás e Energia da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), Marcos Coester, durante o seminário O Brasil e o pré-sal, na sexta-feira passada na Assembleia Legislativa. Coester ressaltou que a demanda da Petrobras abre espaço para qualificação de quem já está no setor ou de quem tem interesse em desenvolver produtos e serviços.
Entre os canais para alavancar novos fornecedores estão projetos sob encomenda – quando a maior companhia do País contrata, ou por meio de incentivos e subsídios para inovar e buscar soluções. Hoje há regras que delimitam um mínimo de conteúdo nacional na montagem de estruturas da estatal, como plataformas. ?A Petrobras não está fazendo só por nacionalismo. Ela precisa de fornecedores próximos?, indicou Coester.
Para compensar a distância do centro de decisões da companhia, o comitê atua para aproximar empresários. São feitos encontros, visitas a plataformas e rodadas para apresentar as exigências da estatal na hora de contratar fornecedores. Entre as contribuições do comitê gaúcho, está criar referências de materiais, módulos para plataformas e automação. A proteção à indústria local, introduzida pela legislação do conteúdo nacional, segundo o coordenador, é modelo adotado em outros países.
Coester listou que há gargalos a serem vencidos, um deles é a tributação de investimentos, que eleva em 30% os custos no confronto com outros países. O coordenador lembrou que a estatal prevê aplicar mais de US$ 170 bilhões entre 2009 e 2013. O valor poderá ser ainda maior, conforme cálculo do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, que esteve no evento.
Para vencer barreiras e qualificar empresas, muitas delas já players em seus segmentos, uma das alternativas será formatar joint-ventures. Para Coester, não importa se o capital ou mesmo a tecnologia venham de fora, o que conta é estar fincado em terra gaúcha. O secretário-executivo do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Álvaro Teixeira, segue o raciocínio de Coester. Para o dirigente, a legislação exagera no detalhe e acaba restringindo o acesso a tecnologias alternativas já adotadas mundialmente que poderão ser aplicadas na engenharia de extração do óleo.
O vice-presidente da Fiergs, Humberto Busnello, considera as chances das empresas locais muito fortes. Entre os trunfos, está a liderança em adoção de modelos de qualidade e de certificação.
O dirigente acrescenta ainda como atributos a cultura empreendedora, qualificação da mão de obra (escolas estão formando mais de 4 mil profissionais para o polo naval do Rio Grande), universidades, centros tecnológicos e a recente lei estadual da inovação. Segundo Busnello, a desoneração de investimentos não deve ser encarada como simples benefício, mas como criação de oportunidades. ?Todos os ciclos econômicos tiveram forte apoio público.
Fatia gaúcha dos royalties poderia sepultar pobreza
Como economista, o presidente da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Adelar Fochezatto, não poderia deixar de fazer contas e dimensionar, em cifras, o que a renda do pré-sal poderá causar ao Rio Grande do Sul. Ao projetar a divisão dos royalties que deverão ser repassados aos estados hoje alijados, seguindo proposta do novo marco do petróleo em discussão no Congresso Nacional, Fochezatto estimou a fatia em R$ 2 bilhões anuais. ?Estudo recente mostrou que com R$ 1,6 bilhão anuais acabaríamos com a pobreza no Estado?, confrontou o economista. Fochezatto usou no cálculo a receita de R$ 12 trilhões com reservas e cotação do barril em US$ 70. A parte gaúcha reflete a participação de 7% no PIB. Os valores podem estar superdimensionados, pois boa parte do preço pago pelo óleo será custo para produzi-lo, valor que será exponencialmente maior em se tratando de camada pré-sal.
Para Fochezatto, a riqueza, quando chegar, não deverá ser aplicada apenas para reduzir a desproporção social, mas em desenvolvimento de inovação e educação, variáveis que também impactam a renda e condições de vida de quem está na base da pirâmide. ?O pré-sal é uma bênção para todo o Brasil?, qualifica Fochezatto, que participou do seminário. Ao projetar o impacto da produção para a matriz insumo-produto (que reúne o conjunto de setores ligados ao pré-sal), o economista estimou que cada R$ 1,00 da prospecção gerará mais R$ 1,86. No refino, o impacto é de R$ 2,28. Entre os 42 setores envolvidos na cadeia do petróleo, o de transportes tem maior ganho, com 10% da receita. Fochezatto reforçou temor abordado por outros painelistas de o Brasil sofrer com males econômicos já vividos por países produtores que não coordenaram a superoferta da riqueza natural com qualificação da indústria. Houve aumento de exportações de petróleo, mas sem aplicação na maior competitividade local. A sobrevalorização cambial também é risco, com o Estado mais exposto devido à maior fatia de vendas externas, preveniu.
Autoridades alertam para impacto sobre o futuro do País
O impacto da exploração da camada pré-sal para o desenvolvimento do País é a linguagem comum das autoridades gaúchas. Dirigentes de diversos níveis do poder local defenderam a distribuição mais igualitária dos royalties do petróleo, em debate dentro do novo marco prestes a ser votado no Congresso Nacional.
O presidente da Assembleia Legislativa (AL), Ivar Pavan, adverte que ?está em jogo um projeto de Nação?. Para Pavan, é crucial manter o caráter estatal da gestão das reservas, tendência já assegurada na proposta em tramitação, e a pulverização da renda advinda das novas reservas.
?Esta riqueza deve ser colocada a serviço de todo o País, não só de cidades ou estados que hoje já recebem os ganhos, pontuou o presidente da AL, que considera o advento do pré-sal uma segunda independência do Brasil. Para o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, os novos recursos, se garantida a distribuição equilibrada da renda, poderão ajudar a reduzir desigualdades regionais. Fogaça defende que as verbas do fundo social, a ser criado para centralizar parte dos royalties, sejam usadas em políticas públicas para inovação e educação.
O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Arthur Lorentz, lembrou que o Estado, que não teve sorte de estar na área das reservas, deve buscar espaço e mais ganhos na cadeia do petróleo por meio de fornecimento de componentes e serviços. Lorentz citou ainda projetos e investimentos em fontes renováveis de energia, como o biocombustível a partir da cana-de-açúcar, que complementam os potenciais do País e terão reforço no Estado.
Não estamos dentro da região do pré-sal, mas estamos construindo aqui o polo álcool-químico, relacionou o secretário, referindo-se à produção do chamado plástico verde pela Braskem, no Polo Petroquímico de Triunfo.
Gabrielli acredita em votações dos projetos ainda neste ano
Apesar das discussões e dificuldades que os projetos de leis que estipulam o marco regulatório do pré-sal estão passando na Câmara dos Deputados, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, espera que eles sejam votados ainda neste ano, para serem apreciados no primeiro semestre de 2010 no Senado. Ele lembra que os projetos do governo que estão sendo discutidos no Congresso tentam redefinir a forma de organização da nova atividade econômica.
A regulamentação, quando aprovada, valerá para as áreas do pré-sal ainda não licitadas. Entre os pontos abordados estão a troca do regime de concessão pelo de partilha (que garante um volume maior da riqueza para o País), a capitalização da Petrobras, a criação da estatal Petro-Sal (que administrará os contratos) e a formação de um fundo social. Esse último mecanismo absorverá parte do lucro da produção de petróleo que, posteriormente, será investido em projetos de infraestrutura, programas de combate à pobreza, de saúde, entre outras áreas.
Outra determinação prevista, é que os novos contratos envolvendo a área do pré-sal tenham a Petrobras como operadora (com não menos de 30% de participação em um eventual consórcio de exploração). Já a criação da Petro-Sal servirá como ?freio? para os custos das atividades de exploração, para aumentar o lucro a ser compartilhado entre empreendedor e governo. A Petro-Sal não terá participação como investidora nos projetos de exploração, mas estará presente nos comitês operacionais que definirão as atividades dos consórcios, com direito a voto de qualidade e poder de veto nas decisões. Segundo o deputado federal Henrique Fontana (PT), líder do governo na Câmara dos Deputados, a Petro-Sal deverá ser uma empresa enxuta e o seu quadro técnico será contratado por concurso público.
O governo também definirá uma nova forma de distribuição de royalties do petróleo entre estados e municípios. Sobre a destinação dos royalties, Gabrielli diz que para a Petrobras a questão é indiferente, pois as empresas terão que pagá-los de qualquer maneira. Eu, como pessoa física, acho que a redistribuição é justa, admite o dirigente. Ele aponta que, hoje, há uma concentração do destino dos royalties.
Fontana destaca que a regulamentação estipulará em 15% os royalties sobre o total da riqueza produzida. E, os estados que não são confrontantes das áreas de petróleo e não recebiam praticamente nada, vão passar a receber 22% do bolo total e outros 22% serão encaminhados aos municípios não produtores. Contudo, o deputado está ciente dos problemas que a votação enfrenta. Se depender do governo, a votação do marco regulatório acontece nesta semana, se depender da oposição não acontece nunca.
Petrobras aumentará em mais de 100% sua produção até 2020
Jefferson Klein
Atualmente, a Petrobras produz cerca de 2 milhões de barris de petróleo ao dia no Brasil e mais 500 mil no exterior. O presidente da companhia, José Sergio Gabrielli, destaca que o investimento da empresa é crescente e a meta é alcançar, em 2020, uma produção de 5,7 milhões de barris diários. Dentro do País, a produção deve chegar a 3,9 milhões de barris, e este aumento é calculado sobre as áreas de exploração que hoje estão licitadas, sem levar em conta novas concessões.
Grande parte desse incremento de capacidade se dará através do aproveitamento do pré-sal. A Petrobras e seus parceiros esperam produzir, somente nas áreas já concedidas do pré-sal, 1,4 milhão de barris diários em 2017 e chegar a mais de 1,8 milhão de barris em 2020. Na nova província, a estatal produz, no momento, na área de Tupi (bacia de Santos) e em Jubarte (bacia de Campos) em regime de teste. Até o final do próximo ano, Tupi deverá produzir diariamente até 100 mil barris de óleo e 4 milhões de metros cúbicos de gás natural. De 2009 a 2013, os investimentos da Petrobras no pré-sal somarão, pelo menos, US$ 28,9 bilhões.
No total, até 2013, o plano de negócios da companhia prevê investimentos de US$ 174,4 bilhões, sendo que desse montante, US$ 158,2 bilhões serão aplicados dentro do Brasil. Contudo, esses números estão sendo revisados e, provavelmente, serão elevados a partir do próximo ano. Além do aumento da produção de petróleo cru, o planejamento da estatal prevê incrementar a capacidade de refino. Saindo de 1,8 milhão de barris por dia de capacidade, para mais de 3 milhões de barris por dia em 2020. Muito desse acréscimo de petróleo cru nós vamos processar dentro do Brasil para atender ao mercado interno de diesel, gasolina, querosene de aviação, nafta e diversos outros derivados, afirma Gabrielli. Essa estratégia tem como objetivo agregar valor à produção da Petrobras. Para atender à nova demanda serão construídas mais cinco refinarias no Brasil.
Estamos diante de uma enorme oportunidade, enfatiza o presidente da Petrobras. Ele acrescenta que as descobertas feitas até agora na região do pré-sal apresentam um vasto potencial de crescimento da produção de petróleo, acima do que se podia imaginar há dez anos. Isso não pode ficar restrito apenas aos segmentos diretamente envolvidos com a indústria, interessa ao conjunto da sociedade brasileira, defende o presidente da Petrobras.
Estatal deve aplicar US$ 2,6 bilhões no Rio Grande do Sul
A Petrobras, até 2013, deverá investir no Estado em torno de US$ 2,6 bilhões em projetos no polo naval de Rio Grande, em novas unidades da refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em novas instalações do Terminal de Rio Grande (Terig), em atividades de prospecção na bacia de Pelotas, entre outras iniciativas.
O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, enfatiza que a meta da empresa é transformar o município do Rio Grande em uma região produtora de cascos FPSO (processamento e estocagem temporária de petróleo).
Serão construídos, no dique seco de Rio Grande, oito cascos de plataformas de produção de petróleo. Além disso, serão implementados na região módulos das plataformas P-55 e P-63. Gabrielli enfatiza que o Rio Grande do Sul possui tradição em áreas como a da indústria mecânica, engenharia, entre outras e pode aumentar sua participação na cadeia de fornecedores do setor do petróleo.