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Clippings - 31/03/14

Infraestrutura se mantém no centro das atenções

O diretor de global banking do HSBC, Alexandre Guião, concorda que o setor de infraestrutura, incluindo petróleo e gás, vai continuar em evidência no mercado de crédito por muitos anos por causa das perspectivas de investimento. São definitivamente focos de crescimento e interesse para o HSBC, afirmou.

Os bancos, especialmente os internacionais, já competem intensamente no financiamento de projetos de petróleo e gás, candidatos naturais a levantar recursos no exterior, porque têm receita atrelada ao dólar, o que evita o descasamento de moeda, uma das condições ideais para a operação, de acordo com o responsável pela área de mercado de capitais do BNP Paribas, Rodrigo Fittipaldi.

Foi a Petrobras que realizou a maior captação externa até agora neste ano, US$ 8,5 bilhões. Outro exemplo é a Odebrecht Óleo e Gás, cuja subsidiária Odebrecht Offshore Drilling Finance levantou US$ 580 milhões neste ano. A operação da Odebrecht, da qual participaram o HSBC e o BNP Paribas, além de outros bancos, ilustra o interesse do mercado: a demanda foi cerca de dez vezes superior à oferta de títulos. Os recursos destinam-se a refinanciar empréstimo tomado para financiar a construção de plataforma de exploração.

No ano passado, a mesma subsidiária da Odebrecht havia captado US$ 1,69 bilhão, na maior operação de project bond já feita fora dos Estados Unidos. Os títulos vencem em outubro de 2022 e pagam 6,75% ao ano. A demanda foi duas vezes superior à oferta e partiu principalmente dos mercados americanos, mas também participaram investidores europeus, asiáticos e sul-americanos.

A operação teve como garantia três das sete sondas em operação pela Odebrecht Óleo e Gás, contratadas junto à Petrobras. O project bond, explicou Guião, funciona como um project finance uma vez que o fluxo de caixa é a base do pagamento dos bônus ao investidor, sem depender do fluxo de caixa do emissor. A operação assim estruturada obteve grau de investimento.

Segundo Fittipaldi, outro motivo que reforçou o interesse dos investidores pelos bônus da Odebrecht é o fato de os ativos financiados – navios de exploração de petróleo – serem considerados líquidos porque podem ser usados por qualquer produtor do mundo.

Advogados de um escritório especializado nessas operações informam que, com receita e custos de produção em dólar, equipamentos para o setor de petróleo não têm tido problemas para encontrar alternativa de financiamento no mercado internacional. Nesse caso se incluem navios sonda ou plataformas, construídos no exterior e geralmente alugados ou afretados pela Petrobras com pagamento em dólar. Além da Odebrecht Óleo e Gás, empresas importantes nessa área como a Schahin e a Queiroz Galvão, têm recorrido ao mecanismo.

Os bancos normalmente financiam a construção do equipamento com dívida bancária, tendo como garantia o próprio equipamento e o fluxo do aluguel da Petrobras. O risco de crédito fica próximo do da Petrobras.

Sem fluxo em dólar é difícil replicar o modelo. Para Fittipaldi e Guião, nem todos os projetos de infraestrutura são candidatos a financiamento externo. Se o projeto tem receitas apenas em reais, como é o caso de rodovias e ferrovias, haverá descasamento de moedas.

Sempre é possível fazer hedge, mas é preciso fazer as contas para ver se o resultado final será competitivo em relação ao mercado doméstico. Como o governo apertou as taxas de retorno das concessões em algumas áreas como as rodovias, lembrou Fittipaldi, nem sempre vai valer a pena captar no exterior e ainda fazer o hedge. Será mais atraente captar no mercado doméstico. No passado, lembraram Fittipaldi e Guião, já foi possível emitir títulos em reais no exterior, o que não é caso agora por causa do câmbio.

O gerente executivo de mercado de capitais e investimentos do Banco do Brasil, Aguinaldo Barbieri, afirma que mesmo empresas que não possuem o hedge natural para as captações externas (receita em moeda estrangeira) podem se beneficiar dessas operações por causa do prazo longo, de dez anos em média podendo ser até uma emissão perpétua; a amortização do capital ao final; pacote de garantias e covenants adaptados à realidade de cada emissor; e diversificação do funding.

No ano passado, além das operações da Odebrecht, o BB participou na área de infraestrutura como lead manager de duas captações da OAS, uma de US$ 500 milhões em dívida perpétua e outra de US$ 375 milhões de reabertura de um título emitido em 2012. Participou ainda da primeira emissão em dólares da Andrade Gutierrez, de US$ 500 milhões e vencimento em 2018.

Guião lembrou que alguns projetos de infraestrutura com receitas basicamente em reais podem ter uma parcela mesmo que pequena em dólares, justificando a captação externa para compor o mix de financiamento. É o caso de portos e aeroportos. Se o aeroporto comprar um finger de um fabricante estrangeiro, pode financiá-lo com crédito de agências internacionais, como a francesa Coface e a alemí Hermes, ou organismos multilaterais como o Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Com o câmbio menos distorcido, disse Roberto Lima, sócio do Souza, Cescon, Barrieu & Flesch Advogados, volta a ficar competitivo o crédito das instituições multilaterais como a International Finance Corporation (IFC), afiliada do Banco Mundial, e do BID, que têm o foco mais para operações com impacto social positivo ou mercados menos desenvolvidos.

A receita ideal de financiamento dos projetos da área de infraestrutura é combinar várias fontes de recursos, afirmou Deborah Vieitas, presidente do Banco Caixa Geral – Brasil. Por isso, a instituição está preparada para montar desde empréstimo-ponte até alternativas de mercado de capitais e externas como as de agências internacionais.