A recente disparada do dólar sobre o real levou o governo a agir para evitar uma apreciação ainda maior da moeda norte-americana em relação à brasileira. Ontem, após a divisa ultrapassar R$ 2,15 durante o dia e encerrar o pregão em R$ 2,13, o ministro da Fazenda, Guido mantega, anunciou a retirada do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o ingresso de capital estrangeiro. A partir de hoje, o investidor de outro país que decidir aplicar recursos no Brasil deixará de ser tributado em 6%. A taxação estava em vigor desde outubro de 2010, perãodo em que, durante forte movimento especulativo, o governo criou travas para evitar o que a presidente Dilma Rousseff classificou à época de ameaça de “tsunami monetário” na economia brasileira.
A mudança de rumo ocorre em um momento em que governos do mundo inteiro se perguntam qual será o comportamento do dólar caso o banco central dos Estados Unidos (Fed) inicie a retirada de estímulos à economia daquele país. Ontem, em mais um dia de nervosismo nos mercados, a moeda norte-americana encerrou o pregão em nova alta. Para analistas de mercado, parte desse movimento especulativo se deve às declarações do diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Aldo Mendes, que disse ontem, em Londres, que o Brasil terá de conviver com uma taxa de câmbio mais fraca.
O diretor do BC disse durante evento que o Brasil terá de conviver com uma taxa de câmbio mais fraca se a recente desvalorização do real em relação ao dólar estiver em linha com outras moedas. “Não tenho nenhuma preocupação com o câmbio. Mas, se essa dinâmica da economia americana se ligar a outros movimentos, não há nada que se possa fazer. O real está andando como as outras moedas em relação ao dólar. É normal”, afirmou, depois da primeira etapa de road show com investidores.
As declarações surtiram efeito imediato nos pregões e também no governo. Chamado às pressas ao Palácio do Planalto, o ministro Guido mantega ouviu da presidente Dilma que a Fazenda teria carta branca para fazer o que fosse necessário para corrigir o rumo da moeda. Por ora, a opção da equipe econômica foi retirar apenas a trava sobre o ingresso de recursos de estrangeiros, o que deverá aumentar a procura por papéis ofertados pelo governo por meio de títulos de dívida. Ainda permanece em 6% a tributação sobre as operações conhecidas como derivativos, no mercado futuro.
Combate à inflação
Com a retirada da trava sobre o câmbio, o governo espera não só conter uma desvalorização ainda maior do real sobre o dólar como também dar uma ajudinha ao Banco Central no combate à inflação. Com mais recursos entrando no país, o real se valoriza, o que ajuda a baratear as importações. De quebra, o governo tentará, pelo menos, amenizar outro problema que recentemente se tornou grave: o crescente deficit no balanço de pagamentos do país.
Nos últimos meses, o investimento estrangeiro direto de longo prazo no Brasil iniciou uma trajetória de queda, o que culminou no rombo de mais de US$ 33 bilhões nas transações correntes.
Em meio a essa maré de incertezas, a possibilidade de que uma alta de juros nos Estados Unidos possa transferir investidores estrangeiros aplicados no Brasil para títulos do Tesouro norte-americano aumenta a tensão no mercado. “Esse movimento que o Fed (o BC norte-americano) está fazendo, no sentido de diminuir a compra de ativos, portanto, reduzir a política expansionista, já indica que poderá haver a redução da liquidez no mercado internacional”, disse mantega.
Para o ministro, porém, se feita de maneira gradual, essa redução de recursos nos mercados internacionais será positiva para a economia global. “Nós, aqui no Brasil, estamos confortáveis porque já houve a redução desse capital de curto prazo, por isso estamos seguros em retirar essa trava (para o câmbio)”, afirmou.