Gol deve conquistar mais participação de mercado, segundo analista do BB Investimentos
A Latam Brasil, que antes da pandemia de covid-19 disputava a liderança do setor com a Gol, deve terminar o seu processo de recuperação judicial menor do que a Azul, terceira colocada. A estimativa é do analista Renato Hallgren, do BB Investimentos.
“A Latam deve se estabelecer no mercado brasileiro com uma participação de mercado menor do que a Azul, enquanto a Gol deve conquistar mais participação, consolidando-se como a maior companhia aérea do Brasil”, afirmou Hallgren. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), no acumulado de janeiro a maio, a Gol liderou o mercado doméstico, com 37,52% de participação. Em seguida estão Latam Brasil (36,84%) e Azul (25,38%).
Hallgren considera pouco provável que Gol e Azul decidam pedir recuperação judicial, diante da crise deflagrada pelo novo coronavírus. Procuradas, as duas empresas não quiseram comentar essa possibilidade. Em entrevistas recentes, as companhias negaram ter interesse em recorrer à Justiça para renegociar dívidas. Entre especialistas, não há consenso sobre o tema.
Hallgren considera que a Gol já negociou com arrendadores o pagamento de leasing proporcional à demanda de passageiros, o que deve ajudar na gestão de caixa. “Por causa do atraso da Boeing na entrega dos 737-MAX, a Gol fez leasings de curto prazo que não incorrerão em custos de devolução nos próximos trimestres”, acrescentou o analista.
Além disso, a Gol fez acordo para receber R$ 1,2 bilhão em venda antecipada de passagens à Smiles e pode negociar R$ 100 milhões em vendas de passagens com o governo. A empresa informou que fechou junho com caixa de R$ 3,3 bilhões, suficientes para sobreviver por mais de 12 meses.
Em relação à Azul, Hallgren observou que a companhia renegocia dívidas com credores com o apoio dos escritórios Galeazzi & Associados, TWK Advogados e Pinheiro Neto. A Azul também negocia diretamente com funcionários de solo a redução do quadro de funcionários nos próximos meses. “Os sócios da Azul têm menor capacidade de fazer aporte de capital do que a Latam e a Gol. Com isso, ela teria menor probabilidade de sobreviver na recuperação judicial”, avaliou o analista do BB.
Já para André Castellini, sócio da Bain & Company, a ação da Latam Brasil pode estimular Azul e Gol a pedir recuperação judicial no mercado americano. “Quando uma empresa pede recuperação judicial sempre dá um empurrão para que os concorrentes façam o mesmo. Nos Estados Unidos quando uma empresa entra, as outras empresas seguem a mesma tendência. O fato da Latam ter entrado estimula Gol e Azul a também entrarem em recuperação judicial”, disse.
Castellini ponderou, no entanto, que os processos de recuperação judicial transferem o controle sobre o destino da empresa para seus credores e a Justiça, que podem não aceitar a proposta de reestruturação das dívidas. “A Gol, por exemplo, já renegociou a devolução de aviões com a Boeing e acordos com sindicatos trabalhistas. Para ela pode ser mais interessante manter a sua autonomia”, observou.
Fábio Astrauskas, economista e CEO da consultoria Siegen, especializada em reestruturação de empresas, também considerou possível que as concorrentes da Latam Brasil recorram à legislação americana para conseguir proteção contra falência.
Já Ana Carolina Monteiro, advogada da área de reestruturação e insolvência do Kincaid | Mendes Vianna Advogados e membro do Comitê Brasileiro de Arbitragem (CBAr), ponderou que a Azul e a Gol não têm operação forte nos EUA, como a Latam Brasil.
“Se tiverem que entrar em recuperação judicial, a Gol e a Azul devem pedir proteção à justiça brasileira”, afirmou a advogada. Ana Carolina observou que a Latam já tinha dívidas vencidas com arrendadores desde maio, o que obrigou a empresa a agir com urgência para evitar um pedido de falência na Justiça.
Já Gol está em situação melhor. A Gol reportou um saldo de caixa de R$ 3,3 bilhões, suficiente para garantir a sua operação nos próximos 12 meses. “A Gol não precisa pensar em recuperação judicial neste momento”, avaliou.
A Azul está em situação mais sensível, disse a advogada, e os próximos passos dependem mais do financiamento de R$ 2 bilhões que está sendo negociado com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e instituições privadas.
Fonte: Valor Econômico