Miguel Galuccio assumiu, dois anos atrás, a invejada posição de líder de uma grande petrolífera que controla uma das maiores e mais complexas reservas de petróleo e gás do mundo. Mas há um detalhe: o maior acionista da empresa é o governo populista da Argentina.
O afável Galuccio tornou-se diretor-presidente da YPF SA, a maior companhia de petróleo da Argentina, depois que o governo a expropriou da espanhola Repsol, em maio de 2012. Agora, o governo quer que Galuccio promova uma reviravolta na empresa e a use para revitalizar a indústria petrolífera do país, cuja produção vem caindo há dez anos.
Se ele vai conseguir ou não, dizem especialistas do setor, depende em grande parte da disposição da presidente Cristina Kirchner de reverter as políticas que causaram os problemas. Essas políticas incluem os controles de preço que alimentaram o crescimento do país ao proporcionar combustíveis que estão entre os mais baratos do mundo, mas que também, dizem analistas, tornam os investimentos no setor não lucrativos.
Há muito em jogo para a Argentina. A demanda em alta por combustíveis e a queda na produção fizeram do país um importador líquido a partir de 2011. O gasto anual com importação de combustíveis (cerca de US$ 13 bilhões) está subindo cerca de 25% ao ano, apesar de a Argentina ter a segunda maior reserva do mundo de gás de xisto e a quarta maior de petróleo de xisto, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos.
Para Galuccio, o cargo na YPF não é apenas um desafio profissional. Ele traz a possibilidade de ajudar a Argentina a recuperar sua independência energética, diz ele. Esta é uma empresa que eu amo e que é parte das idiossincrasias da Argentina.
Galuccio, um ex-executivo da companhia de serviços de petróleo Schlumberger, já logrou algumas vitórias. Ele ajudou a convencer o governo a aumentar os preços das novas descobertas de gás natural para US$ 7,5 por milhão de unidades térmicas britânicas, o triplo do que a YPF obtinha antes. Ele vem também elevando repetidamente os preços nos 1.500 postos de gasolina da YPF. Esses aumentos são cruciais porque as vendas representam 80% do orçamento de exploração e produção da empresa.
Os aumentos também possibilitaram à companhia quase dobrar seus investimentos nos primeiros nove meses de 2013, para cerca de US$ 3 bilhões, e elevar o lucro líquido em 11% ante o mesmo perãodo de 2012, para cerca de US$ 500 milhões.
Ainda mais importante foi o papel decisivo de Galuccio em obter o apoio do governo para um plano recente de pagar US$ 5 bilhões à Repsol pela nacionalização da YPF, segundo pessoas a par do assunto. O acordo poderia facilitar a emissão de títulos de dívida da YPF no exterior e ajudar a atrair investimento novo.
Mas não foi fácil chegar ao acordo. Após a nacionalização, em maio de 2012, a Repsol processou a Argentina, exigindo US$ 10,5 bilhões como compensação, e ameaçou processar também as firmas que se associassem à YPF. As autoridades argentinas responsáveis pela nacionalização, por sua vez, alegaram inicialmente que era a Repsol quem devia dinheiro ao país.
O acordo, que ainda depende da aprovação final da Repsol, foi um grande êxito para Galuccio, que conseguiu levar à mesma mesa de negociações representantes dos setores público e privado da Argentina, Espanha e México, cuja estatal Petroleos Mexicanos tem 9% da Repsol.
O cargo de Galuccio o coloca no meio da corrida global para reproduzir em outros países a revolução do petróleo e gás não convencionais – aqueles de formações de xisto e outras que requerem técnicas especiais de extração -, que nos últimos anos tornou os EUA o maior produtor do mundo. Galuccio, que tem 45 anos, quer criar um boom semelhante na Argentina explorando a formação de xisto de Vaca Muerta. As concessões de petróleo e gás da YPF cobrem cerca de 40% da formação, que se estende pelas províncias de Neuquén e Mendoza no sul da Argentina. Em julho, a Chevron Corp., segunda maior petrolífera do mundo, concordou em financiar a maior parte da sociedade de US$ 1,5 bilhão que fez com a YPF para desenvolver Vaca Muerta.
A YPF tem um futuro brilhante na Argentina e a oportunidade de liderar a América Latina no desenvolvimento de reservas não convencionais, diz Galuccio.
Mas para aumentar a produção numa escala significativa, a Argentina precisa de novas tecnologias e bilhões de dólares. Conseguir os recursos poderá ser difícil, dizem analistas, citando os tetos de preço, as barreiras comerciais e a proibição de enviar lucros ao exterior entre os fatores que desencorajam o investimento estrangeiro.
A seu favor, Galuccio tem as boas relações que desenvolveu com Kirchner, que prevaleceu sobre a oposição dentro de seu próprio partido para fechar o acordo com a Repsol.
A presidente entende a importância do papel da YPF […] e vem apoiando incondicionalmente nossa administração, diz Galuccio, que vinha tendo uma ascensão rápida como executivo da Schlumberger antes de se transferir para a YPF.
Na Schlumberger, ele participava frequentemente de negociações extremamente complexas, tanto com clientes quanto com governos, diz Andrew Gould, presidente do conselho da petrolífera britânica BG Group e ex-presidente da Schlumberger.
Altos executivos da Pemex também falam com respeito de Galuccio, que representou a Schlumberger por anos no país.
Galuccio entrou na Schlumberger em 1999, depois de ter trabalhado na própria YPF, onde galgou rapidamente a hierarquia da empresa. Aos 29 anos, ele gerenciava poços na Indonésia.
Voltar para a YPF foi um desafio. Só em 2011, os sindicatos organizaram greves que duraram cerca de 90 dias e cortaram a produção da empresa em 30%.
No seu primeiro dia no comando da YPF, Galuccio deu o número do seu celular aos líderes sindicais e disse a eles que poderiam lhe telefonar a qualquer hora.
Temos uma excelente relação, diz Guillermo Pereyra, chefe do sindicato dos petroleiros.
Ali Moshiri, presidente da Chevron na América Latina e África, concorda. Dou muito crédito ao Miguel. Ele é a razão pela qual a YPF está funcionando tão bem. Ele aumentou a eficiência e a lucratividade da YPF, diz.
Analistas dizem que seriam necessários US$ 7 bilhões anuais por muitos anos para desenvolver Vaca Muerta, ou seja, mais investimento estrangeiro direto que a média que a economia inteira da Argentina recebeu nos últimos anos. Não estou com os olhos tapados, disse Kirchner num discurso recente. Sabemos que isso exige um capital intensivo que ou não está na Argentina ou não está sendo investido aqui.