Envolto em ceticismo por parte dos analistas, o preço do petróleo disparou após a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outras nações relevantes, como Rússia e México, decidirem cortar a produção para conter o excesso de oferta. Mas mesmo esses investidores, que apostam largamente na alta da commodity, veem um teto para a cotação, em agosto do ano que vem US$ 57,84.
Os especialistas de consultorias e bancos de investimentos alertam para a insustentabilidade de preços mais altos, que animariam outras regiões a voltarem a produzir. A principal delas, os Estados Unidos pelo método não convencional do xisto teria espaço muito grande para extrair óleo a US$ 60, por exemplo.
A consultoria do setor Rystad Energy calcula a média ponderada de custo de produção americana por essa via, levando em conta volumes, em US$ 66. As areias betuminosas do Canadá também teriam um incentivo a mais, já que essa média ponderada chega a US$ 63 nesse caso.
Enquanto isso, os investidores contribuíram com uma alta de 8% em dezembro até agora. Ontem, o segundo contrato do Brent avançou 0,04% na ICE Futures de Londres, para US$ 56,39, e o WTI subiu 0,4% na Nymex, de Nova York, para US$ 53,94.
Segundo a consultoria Capital Economics, a proporção de futuros com aposta na alta disparou desde o início do mês passado. A posição comprada líquida dos investidores está no maior patamar em mais de um ano e já mudou estruturalmente as projeções para a commodity.
A curva na ICE Futures mostra o Brent chegando a um pico de US$ 57,84 em agosto do ano que vem. Depois disso, a commodity ficaria próxima à estabilidade. No último dia de novembro, quando a Opep fechou o acordo, os investidores
viam continuidade de alta até 2019, mas para um nível menor, de US$ 57,15.
A situação é diferente de apenas um mês atrás, na mínima recente, quando os contratos para entrega agosto estavam em US$ 48,70. Mas naquele cenário, a aposta era de valorização mais intensa, com o preço atingindo US$ 54,11 em dezembro de 2019.
No lado dos analistas, os EUA não aparecem como único motivo de preocupação. A Opep historicamente foi incapaz de cumprir com suas próprias cotas e isso é repetido à exaustão desde que, há meses, rumores de mercado davam conta de um possível teto estabelecido pelos membros do cartel. Norbert Ruecker, do banco Julius Baer, cita também a falta de países como China e EUA nesse consenso.
“A papelada já está pronta e agora os produtores terão que cumprir a palavra”, escreve Ruecker em relatório.
“Continuamos céticos”, acrescenta, “e os níveis de hoje de extração da Opep já contribuem para o excesso de oferta no mercado de petróleo”.
Para o analista, o movimento recente da commodity reflete um otimismo exacerbado. Ele opina que em breve investidores devem começar a olhar com mais atenção para o xisto. “Parece que o barulho feito pela Opep no mercado calou outra voz, a do xisto. Os últimos dados já demonstram um salto na atividade de perfuração e agora autoridades americanas já projetam crescimento em janeiro, bem mais cedo do que se esperava inicialmente”, diz o texto.
De acordo a Rystad, o piso recente de produção de petróleo leve nos Estados Unidos foi contornado já no terceiro trimestre. Desde então, os volumes estão subindo levemente mês a mês.
A situação pode ser ainda mais benéfica aos EUA a depender de qual agenda o novo presidente Donald Trump adotar.
Durante a campanha, ele chegou a citar alívio tributário e até doação de terras da União como medidas. Se isso contribuir para rebaixar o custo médio de extração, a alta do petróleo já poderia contribuir para mais excesso de oferta.
O problema é que a própria Opep bate recorde atrás de recorde de produção, saturando o mercado. A Agência Internacional de Energia (AIE) disse ontem que em novembro foram 34,2 milhões de barris diários, como nunca antes o cartel produziu. A capacidade é ainda maior, de 36,2 milhões de barris por dia. A promessa é que esse nível será reduzido para 32,7 milhões de barris diários.
Mesmo com a desconfiança, os analistas já revisaram seus preços para cima. A maioria aposta em alta contida no ano que vem. O mais pessimista é o banco alemão Commerzbank, que projeta média de US$ 50 para o Brent em 2017. Para a instituição, o acordo da Opep vai valer pelos primeiros meses do ano, mas sua continuidade dependerá da reação dos preços.
A Capital Economics, por sua vez, estima em US$ 56 o Brent no ano que vem. O Credit Suisse prevê US$ 56, o J.P. Morgan, US$ 55,75, e o UBS, US$ 60.
Fonte: Valor Econômico