Antes de tomar uma decisão sobre o seu futuro em Guiné, a Vale vai esperar a publicação do novo edital de licitação de Simandou pelo governo local e submeter o assunto ao conselho de administração da companhia. Só então será possível saber se a mineradora brasileira vai continuar com chances de explorar Simandou – em uma concorrência que promete ser acirrada – ou se desistirá da empreitada na Carajás africana.
Qualquer decisão relacionada à Guiné, teremos de conhecer o edital [de licitação], os termos e condições, para que possamos submeter [o assunto] ao conselho de administração e tomar a decisão, disse o presidente da Vale, Murilo Ferreira, na quarta, em teleconferência sobre os resultados da empresa no primeiro trimestre. A mineradora registrou lucro líquido de US$ 2,5 bilhões de janeiro a março, abaixo dos US$ 3,1 bilhões de igual perãodo do ano passado. O resultado foi influenciado negativamente pela forte queda do preço do minério de ferro, de cerca de 19% em relação ao primeiro trimestre de 2013.
Ferreira comemorou os resultados, apesar do ambiente de preços mais desafiador. Destacou a produção de minério de ferro de 71,1 milhões de toneladas, a maior para um primeiro trimestre desde 2008. E os recordes na produção de carvão e níquel. Destacou ainda como positivo o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), que chegou a US$ 4 bilhões no perãodo.
Na teleconferência, Ferreira disse ter visto com alegria as manifestações do presidente da Guiné, Alpha Conde. Conde esteve em Genebra, na Suíça, na quarta. E afirmou que a Vale receberá as boas-vindas de seu governo se fizer uma oferta por Simandou. Ver uma manifestação dessa significa uma posição de respeito pela entidade [Vale] com a qual lidou por esses três anos. Ele [Conde] é uma pessoa de currículo invejável, um lutador pelo país dele.
Ferreira reconheceu, porém, que o caso de Simandou se transformou em um processo desagradável e turbulento. As investigações envolvendo o ex-sócio da Vale, a BSGR, começaram depois de Conde assumir o comando da Guiné, no fim de 2010. Na entrevista, Ferreira referiu-se à BSGR como ex-parceiro e explicou a definição: Tínhamos um investimento comum que perdeu a concessão mineral e a empresa [resultante da sociedade com a BSGR] não tem mais objeto, então é ex-parceiro.
Ferreira disse que Conde deixou claro que a Vale não está envolvida de forma alguma em qualquer processo de corrupção. Ele [Conde] trabalhou em cooperação com autoridades da Suíça, Estados Unidos e França e, por isso, teve um processo de investigação sólido e abrangente. Como consequência, afirmou, os governos da Guiné, dos Estados Unidos e dos outros países que colaboraram no caso foram unânimes em dizer que a Vale não teve relação com as denúncias sob investigação.
Ferreira também comentou a decisão da anglo-australiana Rio Tinto de ingressar com uma ação na Justiça dos Estados Unidos. A ação tem a Vale entre os réus e foi definida pela autora como o caso sobre o roubo de direitos de mineração por meio de um esquema que violou uma lei americana de combate a organizações criminosas, o Racketeer Influence and Corrupt Organizations Act. No caso da Rio Tinto, cabe ao acusador demonstrar as provas sob pena de estar agindo de má fé. Eles [a Rio Tinto] têm de apresentar as provas e desmentir as investigações feitas por todos esses países.
A ação da Rio Tinto reclama a perda, em 2008, de metade da concessão de Simandou pertencente à companhia. Os direitos de Simandou foram concedidos em 1997 à Rio Tinto. Mas alegando que a anglo-australiana vinha desenvolvendo o projeto com lentidão o anterior governo da Guiné cassou parte dos direitos da empresa e os repassou à BSGR, do empresário israelense Beny Steinmetz.
Ferreira preferiu não abrir a estratégia jurídica a ser tomada pela Vale, mas mostrou confiança no caso: A Vale fará todos seus melhores esforços para recuperar o dinheiro investido na aquisição e nas minas de Simandou. Mas a estratégia e os passos [a serem tomados] ainda serão apresentados ao conselho de administração. Ele acrescentou: Acreditamos que temos direito a um crédito sobre a aquisição e sobre os investimentos lá realizados [na Guiné]. Não se pensa em ’impairment’ [baixa contábil]. Chegamos a discutir neste trimestre com nossos auditores, estamos alinhados. Acreditamos que temos um caso sólido e que teremos os recursos de volta. A Vale acertou, em 2010, a compra de 51% dos direitos detidos pela BSGR por US$ 2,5 bilhões, mas pagou US$ 507 milhões do total previsto.