A cabotagem tem apresentado aumento nos volumes pelos portos nacionais desde a queda durante o ano passado, mas segundo o presidente da Santos Brasil Participações SA, Antônio Carlos Sepúlveda, a utilização do modal ainda está abaixo do esperado. Sinceramente achamos que a cabotagem cresceria mais, aponta o executivo.
De acordo com Sepúlveda, o montante escoado pela navegação nacional atualmente representa 10% da movimentação total da Santos Brasil, que este ano deve chegar a 1,350 milhão de Teus. A cabotagem tem crescido em termos relativos, mas os números absolutos dela ainda são pequenos em relação ao potencial que pode ter, afirma.
Na opinião do executivo, que começou a trabalhar com cabotagem em 1997 transportando cargas do Sul do Brasil para o Nordeste, o modal ainda não deslanchou propriamente no País por conta de uma questão cultural da forma de distribuição nacional, tradicionalmente marcada pelo predomínio do transporte rodoviário. Acho que o caminhão aqui no Brasil ainda é bastante competitivo. Você tem agora estradas pedagiadas em boas condições, óleo diesel subsidiado e do outro lado, no transporte por navio, o combustível ainda é mais caro do que o da embarcação de longo curso, aponta. O custo é aproximadamente 20% maior na cabotagem do que em navegação com destino estrangeiro.
O executivo ilustrou sua opinião com um exemplo: um caminhão que vem de Criciúma (SC), estaciona na porta de um depósito em São Paulo que está lotado e não tem onde descarregar. O dono do armazém dá R$ 50 para o motorista almoçar, e se quando ele voltar ainda não tem espaço no terminal para descarregar a carga, ele simplesmente paga um hotel para o caminhoneiro ou o caminhão continua aguardando na porta. O veículo vira um armazém móvel parado na entrada do terminal, com preço de estadia mais baixo. Essa comodidade não acontece na cabotagem, conta.
Entretanto, Sepúlveda destaca que a cabotagem deve ser mais difundida por conta de seu efeito no meio ambiente. A participação do rodoviário na matriz de transporte nacional atualmente é de cerca de 60% e a quantidade de carbono emitida por ele é maior do que o marítimo. Acho que a força ainda não explorada da cabotagem é justamente este cunho ambiental, ressalta.
Segundo cálculos feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o modal marítimo apresenta uma alternativa de transporte mais limpa que o modal rodoviário. Os estudos apuraram que um caminhão pode emitir até quatro vezes mais de monóxido de carbono do que um navio para transportar uma tonelada por km. Além disso, o transporte por rodovias responde por 88% das emissões de CO2, enquanto o aquaviário equivale a 4%. Esse apelo pode alavancar o setor, na medida em que alguns embarcadores começam a contabilizar o custo socioambiental em seus balanços, especialmente quando se trata de subsidiárias brasileiras de empresas estrangeiras que prestam contas socioambientais em seus países.
Outro fator que encarece a cabotagem é a questão da mão de obra. Com a descoberta do pré-sal no Brasil, a indústria de petróleo e gás está consumindo toda a tripulação. Porém, mesmo com estes percalços na disseminação da navegação nacional, Sepúlveda destaca que a modalidade ainda deve crescer. Estão vindo mais navios exclusivos para cabotagem, e mais armadores entrando. Já existe muita gente estudando o modal, conclui.