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Clippings - 12/06/26

Modernização da sinalização náutica é essencial para acompanhar o aumento da movimentação portuária

O Brasil tem registrado seguidos aumentos anuais de movimentação portuária. Em 2025, a  movimentação geral de cargas em todos os portos brasileiros chegou a 1,403 bilhão de toneladas, com crescimento de 6,1% em relação às 1,32 bilhão de toneladas movimentadas em 2024. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), foi a maior marca alcançada na série histórica registrada no Estatístico Aquaviário da entidade, que compila os números de embarques e desembarques em terminais brasileiros, iniciada em 2010.

Foi registrado crescimento em todas as regiões, com os portos e terminais da região Norte apresentando a maior alta percentual, de 10,33% em comparação a 2024, acima da média nacional, e 163,3 milhões de toneladas. No Sudeste, as 699,8 milhões de toneladas movimentada em 2025 garantiram elevação de 7,52%, também  superior ao percentual geral do Brasil.

Na Região Sul, foi registrada no ano passada alta de 5,4%, com quase 200 milhões de toneladas, o maior volume em cinco anos e alta de 5,4%. Os números são a soma dos registrados em portos públicos, que movimentaram 129 milhões de toneladas, e dos terminais de uso privado, que chegaram a 69,9 milhões de toneladas.

Já no Nordeste, a movimentação total no ano foi de 329,7 milhões de toneladas de cargas em 2025. No segmento de contêineres, a região registrou alta de 9,4%, com  21,2 milhões de toneladas, o maior volume que passou por terminais nordestinos desde 2021.

A crescente elevação do volume de cargas movimentadas por terminais brasileiros, com o consequente aumento do número de atracações e de chegadas de navios cada vez maiores, dobraram de tamanho em 50 anos. O que exige, cada vez mais, ações e investimentos para manter em dia  a sinalização náutica nos canais de acesso aos portos. A medida é essencial para garantir a segurança da navegação, ao delimitar a área navegável e orientar o trajeto das embarcações até os atracadouros.

Mas, se o crescimento  da movimentação é registrado em todas as regiões do país, o mesmo não se pode dizer das condições de sinalização náutica, agora chamada tecnicamente de Auxílio Marítimo à Navegação (AtoN, sigla derivada da língua inglesa Aids to Navigation), como preconiza a Associação Internacional de Sinalização Marítima, a Iala, da qual o Brasil faz parte. De acordo com a Marinha do Brasil, o Manual dos Auxílios à Navegação da Iala define um Auxílio Marítimo à Navegação como um dispositivo, sistema ou serviço externo às embarcações, projetado e operado para aprimorar a navegação segura e eficiente de embarcações individuais e/ou do tráfego marítimo e explica que não deve ser confundido com um auxílio à navegação,  instrumento, dispositivo, carta náutica, etc., transportado a bordo de uma embarcação.

Segundo a Força, há diferenças nas condições de sinalização e necessidades, algumas classificadas como urgentes, de uma região para outra do país. Na região Norte, por exemplo, segundo a Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha do Brasil, há demandas por boias oceânicas e faróis, enquanto no Pantanal há demandas por balizas e pequenos faroletes.  À Força cabe a regulação e a fiscalização dos auxílios à navegação, dos chamados visuais, como  boias, faróis e faroletes, aos eletrônicos, como os radiofaróis, radares, sistemas de monitoramento por satélite ou Serviço de Tráfego de Embarcações, os VTS, sigla para  Vessel Traffic Services, em inglês.

A DHN explica que as necessidades mais urgentes estão relacionadas à manutenção contínua da confiabilidade e disponibilidade dos auxílios à navegação e são associadas às regiões em que o Índice de Eficácia, usado como parâmetro para a avaliação dos serviços de manutenção dos balizamentos, está abaixo de 95%. Para garantir a qualidade dos serviços, a Diretoria desenvolve planejamento que visa a modernização, a eficiência e a sustentabilidade dos auxílios à navegação.

Para 2026, informa, está prevista a implementação do Sistema Global de Navegação por Satélite Diferencial (DGNSS) nas estações de Araçagi, no Maranhão, e no Amapá. O passo seguinte será a instalação de mais sete estações ao longo do litoral brasileiro, para permitir cobertura abrangente e alinhada às melhores práticas internacionais de segurança e confiabilidade dos serviços oferecidos aos navegantes.

Mas, se há perspectivas de avanços no uso de novas tecnologias para melhorar balizamentos e a segurança na chegada e saída de embarcações aos terminais brasileiros, ainda há problemas rotineiros relacionados a equipamentos antigos e faltas pontuais de manutenção dos instalados, como informa o prático Bruno Fonseca, diretor-presidente da Praticagem do Brasil. Segundo ele, de forma geral, o balizamento em acessos a terminais brasileiros é eficiente, mas há de falta de reposição de peças a roubos de material de segurança que impactam eventualmente as operações e podem impedir a atracação ou desatracação de navios.

Em relação à demora de reposição de peças, como lâmpadas e amarras de boias, embora não frequentes, são registradas mais em portos públicos, cujas autoridades portuárias podem ter dificuldades de substituição por causa da burocracia e das normas legais para a compra de material. Além disso, alguns terminais em áreas públicas têm sistemas menos eficientes em termos de tecnologia. “Os privados têm sistemas de balizamentos mais robustos e neles a resolução de problemas é quase imediata porque têm autonomia para compras e contratação de serviços, enquanto os públicos precisam cumprir normas burocráticas”, explica Bruno Fonseca.

O presidente da Praticagem do Brasil informa que, apesar de existirem tecnologias para balizamento mais eficientes, incluindo monitoramento por GPS, predomina o balizamento convencional, com terminais em que são usados sistemas antigos e que podem ter que suspender operações por causa do deslocamento de boias ou a queima ou roubo de lâmpadas e de amarras. “O balizamento indica o caminho que o navio deve seguir. Quando as boias saem dos lugares, a marcação do trajeto pode se perder e inviabilizar a operação das embarcações”, informa.

Fonseca conta que há casos de navios serem impedidos de seguir até berços de atracação porque boias, amarras que as prendem ou lâmpadas foram roubadas. Ele cita, por exemplo, que se os equipamentos ficarem sem a iluminação, práticos podem ficar impedidos de conduzir as embarcações para atracação em segurança e ter que suspender a operação, criando gargalos na janela de chegada e saída dos barcos e das cargas. “As boias iluminadas são como olhos de gato em estradas. Sem a iluminação, seria como dirigir numa via escura sem acostamento, placas ou indicação para que lado são as curvas”, compara.

Ele aponta como umas das soluções possíveis o uso do balizamento virtual em que em vez de boias físicas há as virtuais, que podem ser visualizadas no painel do radar do navio ou na carta náutica. Além de mais seguro, o modelo tem manutenção mais simples já que funciona com sistema de identificação automática, que emite sinais indicativos. “A boia física não existe, mas o sistema permite identificar com precisão o caminho que a embarcação deve seguir”, explica Fonseca.

A modernização dos sistemas de balizamento é uma das preocupações mencionadas também pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha. O órgão informa que, por isso, será iniciado um projeto-piloto para a implantação de auxílios à navegação com tecnologia AIS AtoN (Automatic Identification System – Aids to Navigation), que possibilitam a transmissão de dados em tempo real. A expectativa é de que eles aumentem a eficiência operacional, com a ampliação da capacidade de monitoramento e controle dos dispositivos em serviço.

Além disso, o órgão cita como avanço importante para garantir a segurança das operações a transição da matriz energética dos faróis e demais auxílios luminosos para fontes renováveis, especialmente a energia solar. A mudança, explica a DHN, além de reforçar a sustentabilidade ambiental vai reduzir custos operacionais e aumentar a autonomia dos equipamentos. E faz parte de um conjunto de ações da Marinha com objetivo de reforçar a segurança da navegação a partir da inovação tecnológica.

A modernização dos sistemas de balizamento em terminais brasileiros já tem sido impulsionado por projetos de ampliação de capacidade portuária, novos terminais, concessões de canais de acesso e desenvolvimento hidroviário, que dependem diretamente de uma sinalização moderna, confiável e integrada aos dados hidrográficos e operacionais, avalia Priscila Moreira Farias, COO e sócia da Umi San, empresa especializada em equipamentos para o segmento. Segundo ela, a companhia tem observado a retomada de investimentos em infraestrutura aquaviária no Brasil, o que gera demanda por sinalização náutica mais moderna e eficiente.

Priscila informa que há demanda crescente relacionada à modernização de canais de acesso, revisão de balizamentos, implantação de sinalização em áreas com aumento de calado operacional e adequações para operações noturnas e em condições meteorológicas mais restritivas. “Há também um movimento importante de atualização tecnológica, substituindo sistemas convencionais por soluções mais inteligentes, mais sustentáveis e eficientes energeticamente”, explica.

O diretor de obras e serviços subaquáticos da Belov, Juracy Gesteira Vilas Bôas, é outro que identifica o aumento da procura por serviços de batimetria, monitoramento, sinalização e balizamento. Ele avalia que esse movimento está ligado à ampliação dos projetos de concessão hidroviária e ao novo modelo de concessão de canais de acesso portuários. Ele cita como caso que classifica de emblemático a do canal de acesso ao Porto de Paranaguá, que receberá investimentos de R$ 1,23 bilhão ao longo de 25 anos, com a gestão continuada da infraestrutura, incluindo dragagem, manutenção e gestão da infraestrutura aquaviária que conecta o porto ao mar aberto.

No caso de Paranaguá, João Jardim, gerente de Engenharia Marítima da Portos do Paraná, empresa estadual que administra os terminais paranaenses, explica que, como consequência da concessão do canal de acesso, a companhia que assumirá a operação a partir do segundo semestre de 2026 terá ente as  obrigações contratuais, além do aprofundamento e prolongamento do canal e do aumento do calado operacional, a melhoria da sinalização náutica. A autoridade portuária informa que, para os próximos anos, estão previstos investimentos estruturantes, como o alongamento e o alargamento do canal de acesso, e que, em função dessas melhorias, está prevista a revisão e modernização do sistema de balizamento, adequando-o às novas dimensões.

De acordo Jardim, o sistema de sinalização náutica em Paranaguá já é considerado seguro e conta com aproximadamente 80 boias, incluindo modelos flutuantes e articulados, esses  usados especialmente em regiões próximas a formações rochosas. Os equipamentos são dotados de lanternas alimentadas por painéis solares e baterias, além do sistema AIS (Automatic Identification System), para monitoramento remoto.

A expectativa de investimentos em melhorias dos auxílios marítimos abrange também os avanços em concessões hidroviárias, em eixos como os do Paraguai, do Madeira, do Tocantins, de Tapajós e de Barra Norte/Amazonas, citados por Juracy Gesteira Vilas Bôas. Ele lembra que o Ministério de Portos e Aeroportos (Mpor)  destacou que o novo modelo de concessões hidroviárias será mais do que dragar os rios, mas estruturar serviços permanentes, com operação 24 horas, controle de tráfego, sistemas de sinalização e balizamento, monitoramento ambiental, ações de segurança e manutenção da infraestrutura. “O ambiente aponta para aumento de investimento e maior prioridade para sinalização nas hidrovias, em programas e concessões mais amplos de navegabilidade, dragagem, monitoramento e manutenção”, diz.

Marcel Tetu, diretor da Arbo Plásticos, outra empresa do segmento de fornecimento de equipamentos de auxílio à navegação, ao comentar projetos de concessões hidroviárias diz que identifica aumento de investimentos e demanda por sinalização náutica. “Existem vários projetos em diferentes fases: estudos, projetos, aprovação pela Marinha e em início de implantação”, explica.

Segundo Tetu, há expectativa de investimentos em modernização também dos sistemas atuais de sinalização porque são poucos os portos e terminais aparelhados com tecnologias mais avançadas. A maioria tem o básico e muitos ainda têm dificuldades em manter o balizamento com os índices de eficácia adequados. Para ele, a mudança de status da Iala para organização intergovernamental deve elevar o nível da fiscalização e contribuir tecnicamente para que seja adotada sinalização náutica cada vez mais eficiente. “As novidades tecnológicas vêm surgindo e a aplicação de inteligência artificial deve trazer novos produtos e serviços para esse avanço”, prevê.

O diretor da Arbo Plásticos também acredita que os investimentos serão impulsionados pelo projeto de concessão em curso, que, segundo ele, já são realidade e devem trazer benefícios tanto para a segurança da operação quanto para a redução de custos. Ele explica que as autoridades sempre tiveram e têm preocupação com a segurança na navegação em qualquer área portuária, mas lembra que muitas vezes faltaram recursos para investimentos em novas tecnologias para elevar o nível de segurança pessoal, patrimonial e ambiental.

Priscila Farias Moreira, COO da Umi San, ressalta que o aumento de atenção e de investimentos ainda é desigual e que o Brasil tem seu potencial logístico hidroviário pouco explorado, destaca a sinalização náutica como condição básica para transformar esse fator em operação segura, previsível e economicamente viável e manifesta a expectativa de melhorias. “À medida que avançam discussões sobre concessões, parcerias privadas e novos corredores logísticos, a sinalização deixa de ser item acessório e passa a ser infraestrutura crítica”, afirma.

Segundo ela, a sinalização é, cada vez mais, compreendida como parte da inteligência operacional do porto e que, associada a batimetrias confiáveis, monitoramento ambiental, dados meteoceanográficos e tecnologia embarcada, aumenta a segurança da navegação, reduz risco operacional e aumenta a eficiência no uso dos canais de acesso.

A executiva avalia que nos próximos anos o desafio será modernizar a sinalização náutica com visão sistêmica e que não basta trocar boias ou instalar equipamentos isolados. Para ela, será necessário integrar sinalização física, dados digitais, monitoramento remoto, cartografia S-100, energia solar, sistemas AIS AtoN, telemetria, sensores e manutenção baseada em desempenho. “A sinalização do futuro será cada vez mais conectada, inteligente e orientada por dados”, prevê.

O diretor de obras e serviços subaquáticos da Belov, Juracy Gesteira Vilas Bôas, concorda que a sinalização náutica tende a ganhar modernidade no Brasil porque está deixando de ser vista apenas como um item operacional e tratada como parte central da eficiência logística e da segurança da navegação. Segundo ele, para atender à necessidade de ampliar o uso de portos e hidrovias, não basta aprofundar canais ou dragar trechos críticos. “É preciso garantir que a navegação ocorra com segurança, previsibilidade e monitoramento contínuo”, diz.

Ele ressalta ainda que o mercado está ficando mais sofisticado e que, se antes a questão se concentrava em obras ou fornecimento de equipamentos, agora envolve cada vez mais modelos permanentes de operação e manutenção, indicadores de desempenho, integração com batimetria e monitoramento e uso de tecnologia para reduzir indisponibilidades e riscos. E, sobretudo em trechos hidroviários mais sensíveis, remotos ou sujeitos a mudanças frequentes de condição navegável, o desafio não é apenas instalar a sinalização, mas mantê-la eficaz, com capacidade de resposta rápida e atualização de dados e coordenação entre os agentes envolvidos. “O Brasil entrou em uma fase em que a sinalização náutica deixa de ser um tema periférico e passa a ser tratada como infraestrutura crítica da navegação”, assegura. 

Fonte: Portos e Navios.