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Clippings - 07/08/26

Mudança na armazenagem de combustíveis prejudica operadores independentes, alerta ABTL

Para associação, proposta em discussão na ANP que permite às refinarias alugarem tanques ociosos para armazenamento de derivados de petróleo de terceiros ameaça infraestrutura logística e livre concorrência do Brasil


Uma proposta que permite às refinarias alugarem seus tanques industriais ociosos para armazenar derivados de petróleo de terceiros colocou em lados opostos os segmentos do refino e dos operadores logísticos independentes. Entidades setoriais alertam que, ao flexibilizar o uso dessas estruturas, a medida gera uma concorrência desleal frente aos terminais independentes. A mudança nas regras de armazenamento de combustíveis no Brasil foi apresentada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em audiência pública realizada no final de julho.

A Associação Brasileira de Terminais Líquidos (ABTL) alerta que essa medida tem potencial para travar a expansão do setor. A avaliação é que permitir que refinarias utilizem suas infraestruturas para fins concorrenciais, sem as mesmas obrigações e custos, compromete a isonomia regulatória e desestimula novos investimentos privados em infraestrutura logística.

O argumento é que as refinarias operam com tanques cujos custos de construção já foram amortizados ao longo de décadas e operam sob critérios de construção e operação historicamente distintos daqueles hoje exigidos para os terminais de líquidos. Já os terminais logísticos independentes precisam investir bilhões de reais para construir novas bases do zero, atendendo a rigorosos padrões regulatórios, ambientais e de segurança, seguindo regras rígidas de mercado que proíbem essas empresas de comercializar o combustível que transportam.

Há o temor de que, se a proposta da ANP for aprovada como está, as refinarias poderão oferecer preços artificialmente mais baixos de armazenamento por não terem o mesmo custo de investimento dos operadores dedicados. Segundo a ABTL, estimativas do setor indicam que essa distorção pode causar impactos negativos bilionários, desestimulando a construção de novos terminais logísticos na próxima década.

O presidente da ABTL, Carlos Kopittke, chama atenção que, se essas mudanças forem implementadas, os investidores privados devem afastar o capital do país, travando a modernização e a expansão da malha logística de combustíveis. “Um sistema de abastecimento dependente de estruturas antigas e concentradas nas mãos de poucos produtores perde eficiência e pode encarecer o custo do transporte e afetar o bolso do consumidor final”, alertou Kopittke.

A associação também tem receio quanto à fragilidade da fiscalização proposta pela agência. O assessor jurídico da ABTL, Daniel Batista, acrescentou que a minuta da nova regra sugere que uma simples separação de contas e relatórios contábeis bastaria para evitar que as refinarias cruzassem subsídios ou favorecessem parceiros. “No nosso entendimento, as refinarias deveriam ser obrigadas a separar fisicamente e criar empresas de logística totalmente independentes de sua atividade industrial, para garantir a neutralidade”, analisou o advogado, que é especialista em Direito Econômico e Regulatório.

Batista ressaltou que o Brasil não pode prescindir de investimentos robustos em logística de combustíveis. “Se a regulação sinalizar que infraestruturas industriais amortizadas podem, a qualquer momento e com baixos entraves, atuar como terminais de aluguel, o incentivo para a construção de novas bases logísticas independentes será sensivelmente afetado”, apontou o especialista.

O setor aguarda a consolidação final do texto por parte da diretoria da ANP. O pleito do mercado, de acordo com a ABTL, é que o regulador preserve a segurança jurídica e evite criar barreiras de entrada que penalizem quem investiu no desenvolvimento da infraestrutura nacional.

Mercado em alta
O mercado brasileiro de combustíveis vive um período de forte expansão em 2026, impulsionado pelo crescimento econômico, recordes consecutivos na produção nacional de petróleo e avanços significativos no setor de biocombustíveis. Um dos destaques dessa transformação é o etanol de milho, que se tornou um pilar estratégico da matriz energética do país.

Nos últimos meses, o consumo e a produção de combustíveis no Brasil atingiram patamares históricos. Segundo dados da ANP, o mercado brasileiro movimentou 138,4 bilhões de litros em 2025. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projetou uma expansão contínua na demanda por combustíveis líquidos de 1,7% em 2025 e de 1,9% para 2026.

O etanol de milho vive uma das maiores trajetórias de crescimento do agronegócio global, na medida em que resolve a sazonalidade — gargalo histórico do setor sucroenergético tradicional. Enquanto a cana-de-açúcar depende do período de colheita, as usinas de milho podem operar de forma contínua durante os 365 dias do ano. Consultorias especializadas como a Datagro e a Unem estimam que o volume salte para até 13,2 bilhões de litros, o que representará cerca de um terço de todo o etanol produzido no Brasil.

Para a ABTL, o avanço do mercado de combustíveis e a consolidação do etanol de milho como vetor de crescimento tornam ainda mais estratégica a ampliação da infraestrutura logística do país. A leitura é que, em um cenário de demanda crescente, garantir segurança regulatória, previsibilidade e condições isonômicas de competição será determinante para atrair novos investimentos, ampliar a capacidade de armazenagem e assegurar que a expansão da produção seja acompanhada por uma logística capaz de sustentar o abastecimento nacional com eficiência e competitividade.

Fonte: Portos e Navios.