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Clippings - 08/07/22

Navios cada vez maiores demandarão mão de obra experiente e qualificada

 

Arquivo/Divulgação

Trabalhar em embarcações de grande porte, como porta-contêineres e navios Ro-Ro, tem sido grande desafio em torno da eficiência profissional da tripulação. Em tamanho, alguns deles aumentaram 16 vezes nos últimos 50 anos

A falta de uma tripulação com mão de obra experiente e qualificada vem acendendo um alerta para quem demanda por eficiência no transporte marítimo, uma vez que o mar parece não ser tão atraente para os mais jovens. “Esse é um ponto de grande atenção, especialmente para os dias atuais, em que o consumo está em alta e isso pressiona o setor de transporte marítimo. Algo em torno de 75% dos acidentes em navegação ocorre por falha humana, o que requer profissionais experientes e capacitados”, avaliou Daniel Sanches, diretor regional de Marine da AGCS Íbero/Latam, à Portos e Navios.

De acordo com ele, esse déficit de mão de obra passa por outro grande desafio: o porte dos navios, que estão cada vez maiores. “Atualmente, o navio de contêiner com maior capacidade carrega 24 mil TEUs, o que equivale a 24 mil contêineres de 20 pés. Cinco décadas atrás, o navio de maior capacidade carregava 1,53 mil TEUs, ou seja, em tamanho, os navios aumentaram 16 vezes nos últimos 50 anos”, informou Sanches.

O diretor de marine e cargo da consultoria de riscos e corretora de seguros Marsh Brasil, Sérgio Caron destacou que muitas empresas marítimas estão aumentando suas frotas e demandando pela construção de novos navios com capacidade maiores de carga. “De acordo com a Bimco, donos de embarcações solicitaram a construção de 381 navios de contêineres, totalizando 23,44 milhões de TEU de capacidade, um recorde para um período tão curto”, informou.

Para o diretor da AGCS Íbero/Latam, além do tamanho das embarcações, suas características dimensionais merecem destaque, especialmente em relação a navios do tipo Ro-Ro, que são utilizados para o transporte de veículos. “Essa categoria de navio é caracterizada por possuir grandes espaços abertos, onde são acondicionados e movimentados os veículos transportados. Isso, além de interferir na estabilidade dos navios, também facilita que as chamas de eventual incêndio se alastrem mais rapidamente, durante esse tipo de evento”, alertou.

Conforme Sanches, “o risco de incêndio em navios Ro-Ro sempre foi um ponto de atenção para nós e tem se tornado ainda maior, em virtude dos carros elétricos, considerando o uso de bateria de lítio e sua correção com eventos de incêndio”.

Considerando que 75% dos acidentes ocorrem por falha humana, ele analisou que a ausência de processos e treinamentos para os profissionais envolvidos é outro fator que contribui para o aumento desses riscos, durante o transporte marítimo.

“Apesar de não haver correção clara, também olhamos com cautela para a idade das embarcações. Observa-se que navios mais antigos possuem menos mecanismos de controle e prevenção de perdas. Por isso, também levamos isso em conta, em nossas análises.

Outros fatores
A crise sanitária global decorrente da pandemia de Covid-19 afetou tanto o trabalho de profissionais como os negócios do setor de seguros marítimos, conforme avaliou o diretor de Marine da Marsh Brasil.

“Nosso setor manteve suas atividades, à medida do possível, para continuar a sustentar o mundo todo. No entanto, alguns países passaram a proibir a entrada de marinheiros e eles acabaram ficando um longo período – vários deles, durante mais de um ano – sem poder sair dos navios”, lembrou Caron.

Em sua opinião, diante desse cenário, esses profissionais começaram a refletir se valia a pena seguir na profissão, levando muitos a optarem por uma mudança de carreira/área de atuação. “Se as condições para esses trabalhadores não melhorarem de forma considerável, cada vez teremos menos jovens interessados em ingressar nesse setor”, alertou o diretor da Marsh Brasil, ressaltando que, como consequência desse cenário, há menos trabalhadores em geral e com menos experiências, o que podem acarretar um aumento de acidentes marítimos.

Gerenciamento de riscos
Para sanar os riscos no transporte marítimo, Sanches relatou que a Íbero/Latam tem investido em gerenciamento de riscos, especialmente em ações voltadas à prevenção de Machinery Damage. “Nosso trabalho é realizado em conjunto com as demais partes envolvidas, com foco na preparação da tripulação para agir, de maneira mais segura, em casos de emergência”.

O diretor da Marsh Brasil fez outro alerta sobre o aumento de frotas e navios maiores, em relação aos riscos dentro dessas embarcações. “Podemos ter maiores registros de acidentes marítimos por causa de uma quantidade maior de viagens. Além disso, navios maiores podem ser um problema para as áreas de infraestrutura dos terminais portuários, onde muitos não possuem a infraestrutura necessária para receber esses navios, em torno do tamanho do calado, do píer de atracação, da capacidade de armazenamento do terminal, entre outros”, pontuou Caron.

Na visão dele, da mesma maneira, a segurança no mar pode ser afetada por esses navios, uma vez que as embarcações maiores tendem a causar incidentes de maiores proporções. “Podem acontecer grandes colisões, por exemplo, em locais de maiores fluxos de navios e onde há pouco espaço para manobra, tais como o Canal de Suez ou o Canal do Panamá”.

Cenário de negócios
Em uma visão mais ampla de negócio, Sanches, da AGCS Íbero/Latam, ressaltou que a guerra no leste europeu vem causando impactos no setor de transporte marítimo, “não somente por conta das cargas que estão retidas e impedidas de saírem da Ucrânia, por imposição da Rússia, mas também pela representatividade de ambas as economias, além do efeito colateral das sanções aplicadas pelos demais países, o que tem agravado os desafios econômicos no contexto global”.

O cenário das economias mundiais também trouxe outros aspectos, que têm influenciado diretamente nos custos do transporte pelo mar e, consequentemente, dos seguros marítimos. “Obstruções de rota têm resultado em um transporte mais longo e, naturalmente, isso implica em maior risco que, por sua vez, implica em maior custo para a cadeia. Outro fator relevante é a inflação global, que foi diretamente influenciada pela pandemia de Covid-19 e tem sido agravada pela guerra no leste europeu”, comentou Sanches.

Sobre o volume de indenizações, ligadas aos seguros marítimos nessa atividade, ele disse que há uma dicotomia, quando as perdas no transporte marítimo são analisadas: “Observamos um crescimento significativo na frequência de perdas, em especial para aquelas voltadas a Machinery Damage. Por outro lado, houve uma queda significativa no número de perdas por total loss, cuja redução chegou a 57%, em uma década”.

Fonte: Revista Portos e Navios