Companhia deverá ficar pelo menos 30% menor no curto prazo, diz presidente

O Grupo Latam Airlines decidiu incluir a operação brasileira no processo de recuperação judicial, solicitado em um tribunal de Nova York, em 26 de maio. A decisão foi tomada devido à recuperação mais lenta que o esperado no setor aéreo e à demora na liberação do empréstimo da ordem de R$ 2 bilhões negociado com o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e bancos privados.
O grupo também fechou um empréstimo de US$ 1,3 bilhão com a Oaktree Capital Management e suas empresas afiliadas. O empréstimo será no modelo DIP (debtor-in-possession, em inglês), que dá ao credor prioridade para quitar dívidas na recuperação judicial. O valor se soma aos US$ 900 milhões de empréstimo DIP anunciados pelas famílias Cueto e Amaro e pela Qatar Airways. Os controladores da Latam podem ampliar o valor em mais US$ 250 milhões, se houver aval da justiça americana.
“A gente imaginava que a ajuda do BNDES viria até a primeira semana de julho. Isso não se materializou. Com o processo nos Estados Unidos a gente passa a ter acesso às mesmas fontes de financiamento da operação global”, afirmou Jerome Cadier, presidente da Latam Brasil, fazendo menção aos empréstimos DIP. O executivo acrescentou que a empresa não desistiu das negociações com o BNDES e espera concluir o acordo “em breve”.
O Brasil representa 50% das operações do grupo. Quando entrou com o pedido nos EUA, o grupo considerou que isso facilitaria as negociações com o BNDES. A recuperação judicial também inclui as operações de Chile, Colômbia, Peru, Equador e EUA. Ficaram de fora a operação da Argentina, encerrada em junho, e do Paraguai.
A Latam Brasil tem um passivo total em torno de R$ 13 bilhões, incluindo cerca de R$ 6 bilhões em passagens vendidas a clientes que ainda não voaram. Parte desse valor deve ser reembolsado em 2021. Dívidas com parceiros e fornecedores somam R$ 7 bilhões. Desse montante, cerca de R$ 3 bilhões são devidos a empresas de arrendamento. O restante são débitos com fornecedores, provedores de serviços, bancos e outros.
Entre os principais credores estão Banco do Brasil (com dívida de US$ 195,4 milhões), Bradesco (US$ 78,5 milhões), Itaú Unibanco (US$ 52,3 milhões), Petrobras (US$ 36 milhões) e Raízen Combustíveis (US$ 28,6 milhões). A dívida global do grupo é de US$ 17,96 bilhões – um dos maiores credores é o Santander, com US$ 549 milhões.
“Esse é o melhor processo para renegociar dívidas do passado e manter a operação viável daqui para frente”, afirmou Cadier. Segundo ele, o processo não vai prejudicar a operação da empresa no país. A Latam Brasil chegou a operar 750 voos por dia no país, mas com a pandemia cortou a oferta para uma média de 35 voos em abril e maio. Em junho, subiu para 63 e este mês deve chegar a 165.
Cadier estima que o mercado só se normalizará em três anos e que a empresa terá que reduzir seu tamanho em pelo menos 30% no curto prazo. Ele disse que a Latam Brasil não planeja pedir recuperação judicial na justiça brasileira.
Fábio Astrauskas, CEO da consultoria Siegen, especializada em reestruturação de empresas, diz que a hipótese não pode ser descartada. “Os trabalhadores são uma classe de credores com preferência na quitação de dívidas pela legislação brasileira, mas não estão sujeitos às leis americanas. Se a empresa tiver dificuldade para fechar acordos com os trabalhadores pode ter que entrar em recuperação judicial também no Brasil”.
Fonte: Valor Econômico