Brasil deveria ter um “PIB do mar” para monitorar os recursos naturais da última fronteira do país a ser conhecida.
Trata-se de uma decisão política, afirmam pesquisadores que trabalham com o tema. O indicador poderia mostrar ganhos e perdas que o país tem com a área identificada como “Amazônia Azul”, os 4,5 milhões de km2 da plataforma continental.
“Comércio, comunicações, alimentos, turismo, lazer, energia, água, recursos naturais, tudo isso há no mar e é tudo quantificável economicamente”, defendeu a professora de economia costeira Patrízia Raggi Abdallah, da Universidade Federal do Rio Grande.
Ela lembrou que o Brasil tem 17 Estados litorâneos, 13 das 27 capitais brasileiras estão na costa, ali vive 1/4 da população brasileira. “Temos o PIB agrícola e poderíamos ter o PIB do mar”, argumenta. “É possível construir esse indicador.”
O lado B da história são os cenários de adaptação aos impactos da mudança do clima. Se o nível do mar subir 30 cm, a cidade do Rio de Janeiro pode perder R$ 124 bilhões, em patrimônio, até 2050, disse Carolina Dubeux, da Coppe/UFRJ. “É questão relevante para o Brasil.” Segundo ela, “há que se pensar no que faremos, se vamos engordar praias, reassentar populações em risco, erguer muros.”
As pesquisadoras falaram no seminário “A Economia do Mar: Desafios ao Desenvolvimento Sustentável do Brasil”, que aconteceu ontem, em São Paulo, promovido pela Fundação iFHC. “Já realizamos 400 seminários, a intenção é colocar a agenda brasileira no contexto internacional”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em assuntos como a exploração e a geopolítica dos oceanos “temos que ter a visão do Estado. Não visão de governo ou de partido”, continuou FHC.
“Estamos vivendo um momento dramático no mundo”, seguiu, referindo-se aos atentados em Paris. “Precisamos aumentar o grau de consciência em respeito às questões de segurança. Conhecer quais são as necessidades de segurança de um Estado democrático.”
A carga que é transportada pelos mares é avaliada em US$ 9,8 bilhões, sendo que 10% disso tem origem nos portos brasileiros.
“Infelizmente são produtos de pouco valor agregado, grãos ou minério de ferro, e os navios têm quase todos bandeiras estrangeiras”, disse o almirante de esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira. “Gastamos milhões de frete, é um dinheiro que vai para o exterior. Temos hoje uma marinha mercante com pouca capacidade de competição.”
Brasil, Argentina e Chile são os países exportadores mais afastados dos centros de poder e econômicos. “O minério de ferro que sai da Austrália para a China tem frete muito mais barato do que o que sai do Maranhão”, disse.
“Estamos no século XXI e nosso conhecimento dos oceanos se compara ao de Marte ou da Lua”, disse o contra-almirante José Augusto da Cunha de Menezes, secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm).
O Brasil assinou com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (Isba), ligada à ONU, a oportunidade de prospectar uma reserva mineral no fundo do Atlântico, onde pode haver cobalto, níquel e manganês, disse o diplomata Rodrigo Mendes Carlos de Almeida, do Itamaraty.
“Temos que discutir como intensificar as atividades econômicas e compatibilizá-las com a preservação da biodiversidade”, alertou a bióloga Leandra Gonçalves, consultora da SOS Mata Atlântica.