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Construção no setor de apoio marítimo sofreu mais com a pandemia do que navegação interior e apoio portuária.
A depender do mercado de atuação, a pandemia do novo coronavírus impactou de forma distinta os estaleiros brasileiros. Enquanto construções voltadas ao atendimento do agronegócio tiveram prosseguimento, projetos de barcos de apoio, por outro lado, sofreram reduções motivadas também pela queda no preço do petróleo. Mas além de lidar com as incertezas da crise sanitária, a indústria naval vem enfrentando a possibilidade de ter reduzido os recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM), principal subsídio para o setor, caso o projeto BR do Mar do governo federal seja aprovado.
De acordo com o diretor do Estaleiro Rio Maguari, Fabio Vasconcellos, com a “pujante” produção do agronegócio, a construção naval ligada a este setor não foi afetada pela pandemia. Ele afirmou que não houve descontinuidade dos projetos em andamento nem adiamentos em razão da crise sanitária. Além disso, ele lembrou a característica de longo prazo dos projetos de construção naval possibilitou sua continuidade sem que fossem sentidos os efeitos da pandemia.
Vasconcellos destacou, portanto, que as perspectivas para o setor de construção naval relacionadas à navegação interior que atuam com o agronegócio e apoio portuário são boas, com demandas sempre permanentes. Ele informou que o estaleiro está construindo no momento dezenas de embarcações para o agronegócio da região do Arco Norte, o que vem ampliando “discretamente” a oferta de empregos se comparado com o final do ano passado.
Entretanto, segundo Vasconcellos, o que preocupa o setor é a eminente aprovação do projeto BR do Mar que visa, entre outros aspectos, maior abertura para o afretamento de navios e a redução do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) do longo curso, uma das principais receitas do FMM. “O maior receio concentra-se na perspectiva de mudanças significativas nas regras de afretamento, importação e no FMM, com potencial catastrófico para o setor. Muito mais devastadora do que qualquer pandemia”, criticou. Ele afirmou que a expectativa em torno da proposta do governo está deixando alguns projetos em compasso de espera para uma reavaliação.
O segmento de apoio marítimo, por sua vez, sentiu de forma negativa os efeitos da atual crise. O gerente industrial do Estaleiro São Miguel, Bruno Pereira da Silva Campos da Costa, afirmou que com a queda do consumo e do preço do petróleo houve redução da produção de algumas empresas petroleiras. Isso acarretou na diminuição da quantidade e no valor das tarifas dos barcos de apoio. Ele explicou que a conseqüência disso é que o mercado de reparos e manutenção sofrerá uma redução até que se restabeleça o consumo, assim como o preço do petróleo.
“Não acredito em novas construções até que a oferta versus demanda de embarcações seja equacionada. No momento ainda existe excesso de oferta de barcos de apoio marítimo no mercado nacional”, afirmou Costa. De acordo com ele, Existem projetos esporádicos de embarcações que não estão ligadas ao setor de óleo e gás, porém, com prazos curtos, o que não garantem uma constante produção e estabilidade. Ele disse ainda que essas encomendas empregam uma quantidade razoável de pessoas, mas não garantem, no longo prazo, o custo fixo de manutenção de uma equipe treinada e qualificada. “A mobilização e desmobilização para construções tem um custo relevante. A solução tem sido focar na terceirização”, disse.
Em curto prazo, o presidente do Estaleiro Arpoador Engenharia, Marco Santarelli, acredita que o pós-pandemia levará a uma confirmação pela Petrobras de investimentos na produção offshore em níveis similares ao planejados na pré-pandemia, com vistas à retomada da demanda. Segundo ele, neste cenário, a construção de embarcações especializadas de apoio marítimo deverá ser reiniciada para que estejam disponíveis para a chegada das unidades de produção avançadas.
De acordo com Santarelli ainda, o crescimento da movimentação nos portos também acena para uma retomada da construção de barcos de apoio portuário, que já apresenta encomendas de rebocadores. Ele acredita que haverá possibilidade de mercado para a maior parte dos segmentos de embarcações, mas que todos devem se adaptar ao que ele chamou de “novo normal” da industrial, sobretudo no apoio marítimo. Segundo ele, o mercado deverá buscar soluções mais limpas e eficientes, além de desenvolver novas opções de propulsão e automação tanto na operação, quanto nas construções, diminuindo a exposição humana a atividades de risco. Assim, para ele, embarcações de alto custo operacional e assinatura de carbono deverão ser substituídas.
Santarelli informou que o estaleiro iniciou o ano com quatro contratos para a construção de barcos especializados para apoio a atividades de mergulho e ROV’s, dos quais dois obtiveram prioridade aprovada na 42º Reunião Ordinária do Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (CDFMM), final de 2019. Os outros dois estão na pauta da 44º reunião. De acordo com ele, essas encomendas devem elevar o estaleiro a um nível de contratação similar aos seus melhores momentos.
Apesar das boas perspectivas, ele ressaltou também que o efeito da pandemia obrigou os armadores a agirem com justificada cautela diante de novas contratações e a aguardar uma definição mais clara das demandas no contexto de pós-pandemia para, então, dar início às novas construções.
Santarelli destacou ainda que, apesar de verificar que o FMM e o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) vêm cumprindo a função de incentivar a indústria naval no Brasil, com juros e prazos atrativos, bem como apoiar projetos inovadores, seria importante que houvesse também uma política “mais cuidadosa” de estímulo ao conteúdo local.
Para Costa, do São Miguel, uma das maiores contribuições para a indústria naval no país seria a retirada do excesso de burocracia e impostos. Além disso, ele entende que as normatizações das regras de trabalho, estabelecidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) também trouxeram ineficiência e custos para a indústria naval. Segundo ele, são essas as razões pelas quais o país Brasil consegue competir com países asiáticos. “Os incentivos devem ser focados no modelo americano de fomento, onde o Estado apenas entra com o aval e a indústria opera com bancos e agentes privados de fiscalização”, opinou.
Vasconcellos lembrou a importância da indústria naval na contrução de empregos, sobretudo em um momento de crise como o atual. “A construção naval é um setor de mão de obra intensiva e gera pelo menos quatro vezes mais empregos indiretos na cadeia produtiva”, disse. Porém, ele acredita que, para isso, seria muito importante que o governo avalie os termos previstos no BR do Mar para que não haja uma desindustrialização de um setor que funciona muito bem nessas em áreas como navegação interior e apoio. Ele defende que o FMM seja mantido como principal fonte de financiamento do setor, “cujos recursos não são do tesouro, mas sim, provenientes da própria iniciativa privada e utilizado pela iniciativa privada de maneira eficiente, séria e produtiva”, frisou.
Fonte: Revista Portos e Navios