A mudança contábil adotada pela Petrobras – para neutralizar a desvalorização do real frente ao dólar em sua
dívida líquida – e a venda de ativos no exterior evitaram que a companhia tivesse um desempenho fraco no
segundo trimestre.
A estatal lucrou R$ 6,2 bilhões, o que representa queda de 19% em comparação com o primeiro trimestre, mas, ainda assim, muito superior às expectativas do mercado. O resultado também inverte, no perãodo, o prejuízo que a companhia havia registrado no segundo trimestre do ano passado, de R$ 1,3 bilhão, o primeiro desde 1999.
No acumulado do primeiro semestre, o lucro líquido acumulado ficou em R$ 13,8 bilhões, 77% superior aos R$ 7,8 bilhões em igual perãodo do ano passado. A própria Petrobras reconheceu, na divulgação dos resultados, que a mudança contábil adotada a partir de meados de maio evitou a redução de R$ 7,982 bilhões no resultado financeiro, sem especificar, contudo, qual seria o real impacto da mudança no lucro líquido do trimestre.
Já a venda de ativos na África contribuiu para ampliar os ganhos da companhia no perãodo em R$ 1,906 bilhão. Analistas de mercado estimavam lucro entre R$ 3,9 bilhões e R$ 5,6 bilhões no segundo trimestre. De acordo com a Bloomberg, o desempenho da
Petrobras ficou 23% acima da média das projeções de analistas.
Segundo Gustavo Gattass, analista da petróleo do BTG Pactual, nos próximos dias, o mercado deve estudar
os números da companhia para entender exatamente o impacto da mudança contábil.
– A pergunta real é o que teria sido o resultado sem a contabilidade de hedge . E esse vai ser o trabalho do
mercado: entender (o resultado) nos próximos dias, o que pode não ser fácil. Mas, sem a mudança e nem a
venda de ativos, poderia ter prejuízo – disse.
Na primeira leitura dos resultados, alguns analistas avaliam que, sem estes eventos, a companhia poderia ter
encerrado o segundo trimestre no vermelho, considerando o resultado antes do pagamento de impostos.
Para o consultor Cesar Ramos, especialista em contabilidade de hedge e autor do livro Derivativos, riscos e estratégias de hedge , sem a alteração, a empresa teria prejuízo antes de impostos de R$ 36 milhões. Com
a mudança, teve lucro antes de impostos de R$ 7,946 bilhões.
A contabilidade de hedge é uma prática que pode ser adotada por empresas que possuem receitas e dívidas
em dólar, de acordo com o professor Fernando Galdi, da Fucape. Na prática, a empresa vinculou 70% da
dívida líquida em dólar (R$ 8 bilhões) a receitas em exportações, o que permite só contabilizar essa dívida
nos resultados na medida em que as exportações forem realizadas, explicou Graça Foster no relatório
divulgado ao mercado.
Isso fez com que cerca de R$ 8 bilhões em perdas cambiais fossem contabilizados negativamente no patrimônio líquido e não no resultado líquido do segundo trimestre.
– Muitas empresas não adotavam essa contabilidade de hedge porque é custoso e relativamente complexo –
disse Galdi.
Os números divulgados mostram que o endividamento total cresceu 27% no primeiro semestre e somou R$
249,041 bilhões. De acordo com a Petrobras, o dado reflete o aumento do endividamento de longo prazo e a
depreciação cambial de 8,4%.
A estatal informou, ainda, que a sua produção de petróleo ficou praticamente estável no segundo trimestre,
com um total de 2,555 milhões de barris/dia, praticamente o mesmo valor (2,552 milhões de barris/dia) do primeiro trimestre do ano. No entanto, no acumulado do primeiro semestre, o volume de 2,553 milhões de
barris/dia, representou uma queda na produção de 3% sobre o mesmo perãodo de 2012, quando a média
havia sido de 2,628 milhões de barris/dia.
No segundo trimestre do ano a área de Abastecimento, responsável pela compra e venda de combustíveis,
teve um prejuízo de R$ 3,7 bilhões, uma redução de 42% em relação a igual perãodo do ano passado, quando
foi de R$ 6,5 bilhões.
No acumulado do primeiro semestre do ano, a área de Abastecimento teve prejuízo total de R$ 10,3 bilhões, 40% inferior aos R$ 17 bilhões do primeiro semestre do ano passado. Esta atividade émuito impactada pelo dólar e pela defasagem dos preços da gasolina e do diesel cobrados lá fora e aqui, uma vez que a empresa continua importando muito petróleo e derivados para fazer frente à demanda interna.
E esse impacto tende a crescer, uma vez que, segundo o as informações da empresa, há um atraso na
contabilização do impacto:
Em função do perãodo de permanência dos produtos nos estoques, de 60 dias em média, o comportamento
das cotações internacionais do petróleo e derivados, bem como do câmbio, sobre as importações e as participações governamentais, não influencia integralmente o custo das vendas do perãodo, vindo a ocorrer por completo apenas no perãodo subsequente, afirmou a empresa.
A Petrobras informou que, no primeiro semestre, importou uma média diária de 783 mil barris de petróleo e
derivados, volume 5% maior que os 744 mil barris por dia que havia sido registrado no primeiro semestre de
2012. Já a exportação de petróleo e derivados caiu de 634 mil barris diários, no primeiro semestre de 2012,
para 383 mil barris diários nos seis primeiros meses deste ano – uma diferença de 40% -, motivada pela
queda na produção e pela necessidade de atender o aumento da demanda interna.
A empresa informou que, nos primeiros seis meses do ano, o volume de vendas no mercado interno foi 9%
superior ao registrado no primeiro semestre de 2012. Segundo a Petrobras, o destaque foi a alta de 45% na
venda de óleo combustível e de 26% de gás natural, nos dois casos, para suprir a demanda das termelétricas,
que estão em pleno funcionamento por causa do menor nível dos reservatórios das hidrelétricas. A venda de
gasolina no perãodo apresentou alta de 9% e a de diesel subiu 7%.
Em Nova York, os recibos de ações da Petrobras fecharam em alta de 2,58%, a US$ 17,08.