A iminente venda do controle da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) deve colocar novamente Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Vale em lados opostos. Com interesse no uso do porto da CSA para escoar sua produção, a empresa de Benjamin Steinbruch terá que convencer a mineradora, que tem poder de veto no negócio, a liberar a um concorrente o acesso a um moderno sistema logístico, que permite a atracação de navios de grande capacidade e próximo às principais instalações siderúrgicas e de mineração da região Sudeste. O porto é um ativo considerado estratégico para a CSN, que não conseguiu deslanchar seu principal projeto logístico na região, o Porto Privativo Lago da Pedra, projetado no final da década passada e hoje fora dos planos da siderúrgica.
Com o Lago da Pedra, a companhia previa ampliar a capacidade de escoamento de produtos siderúrgicos e de sua crescente produção de minério de ferro, operação que vem ganhando peso dentro de seus negócios — a ponto de superar a receita da venda de aço no ano passado. Segundo fontes, CSN e a alemí ThyssenKrupp estão perto de finalizar um acordo para a transferência da unidade de negócios Steel Americas, que controla a CSA e uma laminadora nos Estados Unidos, pondo fim a uma novela que dura pelo menos um ano.
O modelo proposto pela empresa de Benjamin Steinbruch prevê que a CSN assuma dois terços da usina brasileira, restando à Vale e à própria Thyssen a fatia de um terço—a mineradora reduziria, assim, sua participação atual, que é de 27%. As empresas não comentam o assunto, mas fala-se no mercado que a transação envolverá algo em torno de US$ 3,5 bilhões.
O acordo, porém, terá que passar pelo crivo da Vale, que vem repetindo que ainda não foi consultada e que não abre mão da exclusividade no fornecimento de minério à CSA. Observadores próximos dizem que o principal foco de conflito é a utilização do porto, que conta com dois berços: uma para importação de carvão e coque e outro para exportação de placas. “A CSN precisa de escala para suas exportações e o porto da CSA já está pronto, não necessita de novos investimentos”, diz uma fonte próxima às empresas.
O projeto Lago da Pedra previa investimentos de US$ 1 bilhão em berços e pátios de carga para atingir capacidade anual de movimentação de 60 milhões de toneladas de minério, 12 milhões de toneladas de carvão e 11 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos. Após o fracasso do empreendimento, a CSN juntou-se a Gerdau e Petrobras em um novo projeto, que também previa terminais para o escoamento de produtos siderúrgicos e de minério, mas ainda não avançou. Daí o caráter estratégico do terminal da CSA.
A própria Techint, que chegou a negociar com a ThyssenKrupp, valorizava o ativo como alternativa para exportar a produção da Usiminas — apesar de ter acordo como Porto Sudeste, que está sendo construído pela MMX, do grupo de Eike Batista, e deveria ter iniciado as operações no final do ano passado. A CSN opera dois terminais no porto de Itaguaí, perto da CSA, que têm berços para a movimentação de minério, contêineres e cargas gerais e que têm projetos de expansão. Já a Vale opera um terminal mais ao sul, chamado Ilha de Guaíba, por onde escoa a produção de minério de ferro de suas operações em Minas Gerais.
Alto endividamento preocupa
A principal dúvida do mercado com relação à compra do controle da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) reside na origem dos recursos para a transação. Com alto nível de endividamento, a CSN enfrenta a resistência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a participar da operação. A CSN fechou o primeiro trimestre de 2013 com dívida líquida de R$ 16,8 bilhões, crescimento de 3,18%com relação ao final de 2012, provocado pelo pagamento de R$ 300 milhões em dividendos no início deste ano. A relação dívida líquida/Ebitda, de 3,75 vezes, é considerada alta pelo mercado.
Notícias sobre a compra da CSA geralmente provocam queda nas ações da companhia, em reação ao risco de explosão do endividamento. À alta dívida da compradora, soma-se o histórico de problemas da siderúrgica construída pela ThyssenKrupp, que enfrentou, desde sua inauguração, uma série de dificuldades, desde ambientais até operacionais. Por outro lado, a empresa tem a seu favor a possibilidade de comprar, em conjunto coma CSA, uma das mais modernas laminadoras do mundo, a Alabama Steel, que amplia o acesso a um mercado de aço que começa a dar sinais de recuperação da crise. Considerada a “parte boa” da Steel Americas, a laminadora foi usada pela ThyssenKrupp como um atrativo para conseguir um comprador para a CSA.