
Projeção ficou 14% acima do previsto para o período. Faturamento superou em 52% o projetado para janeiro e fevereiro
Em meio ao cenário de incertezas na economia global por conta da pandemia do novo coronavírus, a Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ) se mantém otimista para o ano de 2021. Impulsionada pelo crescimento de 9,8% em 2020 — o dobro da média nacional —, a companhia fechou o primeiro bimestre com 23,5% de movimentação sobre o mesmo período de 2020. O resultado é 14% superior ao projetado para os meses de janeiro e fevereiro no Plano de Negócios 2021-2023 concluído no fim do ano passado e lançado recentemente.
À Portos e Navios, o diretor de Negócios e Sustentabilidade, Jean Paulo Castro e Silva, informou que o faturamento teve crescimento ainda maior: 39% acima do mesmo período do ano passado, 52% acima da projeção feita no Plano de Negócios 2021, que previa um cenário de dólar num patamar abaixo do atual. Segundo ele, a estimativa anterior não captava um crescimento tão expressivo de movimentação, como o que ocorreu nos dois primeiros meses de 2021.
A autoridade portuária responsável pela administração dos Portos do Rio de Janeiro, Itaguaí, Niterói e Angra dos Reis, divulgou recentemente seu Plano de Negócios 2021-2022. A expectativa em relação à movimentação de cargas prevê um crescimento de 2% ao ano, o que colocaria o complexo portuário entre os cinco principais do Brasil. O plano prevê investimentos da ordem de R$ 2,1 bilhões até 2022, resultado de ações referentes à administração portuária, arrendamentos em vigor e novos arrendamentos.
De acordo com a CDRJ, a receita total estimada de R$ 742 milhões para o ano 2021 baseia-se na tendência esperada com os contratos de arrendamentos em vigência. Somam-se a isso os incrementos previstos com o novo formato de cobrança das tarifas de acessos aquaviários, novos arrendamentos e cessões onerosas, além do resultado da execução do Plano de Desinvestimentos de ativos não operacionais.
“As projeções de mercado indicam uma sustentação da demanda por minério de ferro nos próximos anos, puxada pela recuperação da economia global no pós-Covid-19. Medidas anticíclicas que tendem a ser adotadas pelos diversos países devem gerar um novo ciclo de crescimento econômico que sustentará a demanda por commodities. Como a CDRJ administra o segundo principal complexo portuário do país em movimentação de minério de ferro, temos boas perspectivas de crescimento nesse novo ciclo”, explicou.
Plano de Negócios já incorporou impactos da pandemia
Segundo ele, o Plano de Negócios de 2020 foi revisto logo após o início da pandemia para incorporar seus impactos, principalmente atrasos nos prazos previstos nos projetos de receitas incrementais, como arrendamentos e cessões onerosas, desinvestimentos em ativos operacionais e revisão da forma de cobrança do acesso aquaviário. Por conta disso, o Plano de Negócios 2021 não teve ajustes significativos.
“Já as projeções financeiras para o período 2021-2023 foram revistas, considerando cenários para o câmbio elaborados por importantes instituições financeiras (FMI, Banco Central, grandes bancos)”, disse o executivo. Para o valor do minério de ferro (principal commodity movimentada nos portos da companhia), foram usadas projeções do mercado futuro das principais bolsas do setor, como a de Cingapura.
Elevação do minério de ferro é principal razão
A elevação das commodities no mercado internacional – especialmente do minério de ferro, maior fonte de receitas da CDRJ – deverá impactar positivamente nas atividades da companhia este ano. “Segundo projeções do mercado, a recuperação da China deve sustentar a demanda por minério de ferro e as maiores dificuldades de oferta, justamente devido às restrições da pandemia, devem continuar pressionando o preço do commodity em patamares elevados”, explicou.
De acordo com o executivo, como os contratos de Docas são atrelados ao valor FOB da mercadoria exportada em seus portos, “a conjugação de dólar alto, minério de ferro valorizado e crescimento do volume movimentado traz boas perspectivas para o faturamento neste ano”.
“Apesar da crise severa que estamos atravessando, a demanda por commodities segue firme, ainda impulsionada pelas importações da Ásia, principalmente China. Em 2020, a movimentação nos portos brasileiros cresceu 4,2% na comparação com 2019 e essa tendência vem sendo observada neste início de 2021”, disse, ao analisar o cenário nacional.
Novos arrendamentos nos Portos do Rio e Itaguaí
Jean Paulo Castro e Silva, no entanto, reconhece que um dos principais desafios da empresa é buscar fontes de recursos que permitam prover investimentos em infraestrutura, potencializando as operações portuárias nos portos sob sua administração. “O Plano de Negócios traz a possibilidade de novos contratos nos Portos do Rio de Janeiro e Itaguaí”, disse ele.
Ainda em 2019, a CDRJ enviou à Secretaria Nacional de Portos estudos para arrendamento de algumas áreas brownfield e outras greenfield nos dois portos. “Agora no início de 2021, estamos justamente na etapa de identificação de interessados, juntamente com a SNPTA e a EPL, que os apoia nesses processos de novos arrendamentos”, disse. Os processos de novos arrendamentos são conduzidos pela SNPT E pela Antaq, com o apoio das autoridades portuárias.
Sem adiantar nomes, o diretor informou que para as áreas brownfield, onde já há operação, existem interessados claramente identificados, que são justamente as empresas que atuam nessas áreas. “Também há interesse manifesto em uma área brownfield que atualmente não está em operação em Itaguaí. No caso das áreas greenfield, ainda estamos trabalhando na sua promoção para identificar a demanda necessária para o desenvolvimento desses projetos”, disse ele.
Ações para aumentar a atratividade de carga
Segundo ele, o plano também contempla investimentos da própria CDRJ, dos atuais arrendatários e dos potenciais novos arrendatários das áreas ofertadas. “Esses investimentos irão modernizar e ampliar nossos acessos aquaviários, permitindo não só a vinda de embarcações de maior porte, como também um uso mais eficiente dos nossos canais de acesso”, adiantou. Ainda de acordo com o executivo, os acessos terrestres também serão renovados, dando maior fluidez à entrada e saída de veículos.
“Além desses investimentos em infraestrutura física, também estão previstos investimentos em tecnologia para dar mais agilidade e eficiência aos nossos processos de atendimento aos usuários”, disse ele. “Todos esses investimentos em modernização da infraestrutura comum dos portos se complementam aos realizados pelos arrendatários em renovação e expansão de superestrutura, o que aumentará a atratividade dos nossos portos.
Possível privatização e competição com o Porto do Açu
O executivo reconhece que, embora não esteja incluída no Plano Nacional de Desestatização, a desestatização da CDRJ “é um cenário possível, principalmente se as privatizações em curso no setor portuário forem bem-sucedidas”. A eventual desestatização da CDRJ é uma decisão a ser tomada pela União. Ele ainda falou sobre a necessidade de aumentar a competitividade dos portos administrados por Docas diante do seu principal concorrente: o Porto do Açu.
“A CDRJ já convive com a concorrência de um porto privado no Norte do estado e entendemos que isso é mais um estímulo para nos planejarmos adequadamente para elevar nossas receitas e gerar as fontes de recursos para os investimentos necessários para manter e elevar a atratividade dos nossos portos”, comentou. “É com essa consciência, de que um cenário de maior competitividade exige seriedade e compromisso da gestão com o futuro da empresa, que temos trabalhado para construir uma nova CDRJ, e essa é a ideia subjacente no nosso Plano de Negócios 2021”, completou.
Terreno do Museu do Amanhã pagará dívidas com prefeitura
O Plano de Negócios 2021-2023 detalha a previsão de novos arrendamentos e cessões onerosas, um Plano de Desinvestimentos de ativos não operacionais, as principais estratégias comerciais, o aprimoramento das atividades voltadas para o desenvolvimento socioambiental e a modernização tecnológica e de processos das operações portuárias.
O Plano de Desinvestimentos incluiu o terreno do Museu do Amanhã – o espaço cultural mais visitado do Rio de Janeiro – em um encontro de contas com a Prefeitura. A proposta já foi apresentada para a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), empresa pública municipal que administra a região do Porto Maravilha. O prefeito Eduardo Paes, que assumiu em janeiro, autorizou a continuidade das tratativas.
“Acreditamos que essa é uma proposta benéfica para todas as partes, uma vez que solucionará questões pendentes entre a CDRJ, Cdurp e o Município, já há alguns anos e dará maior segurança jurídica para o próprio Museu do Amanhã, cuja destinação da área já está claramente definida como equipamento turístico”, disse o executivo.
Fonte: Revista Portos e Navios