Engenheiros, especialistas e agentes do setor de petróleo e gás discutiram com parlamentares do estado do Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (6), um projeto conceitual para o desenvolvimento de um hub de gás natural na Baixada Fluminense. O escopo para desenvolver plantas industriais e fomentar o estado tem como base um gasoduto marítimo na chamada rota 4-B, partindo do campo de Bacalhau, na divisa entre o Rio e São Paulo. O traçado prevê entrar no continente por Itaguaí, com projeções de 20 milhões de metros cúbicos diários. Os defensores do projeto destacam a estrutura do Porto de Itaguaí, além de acessos terrestres.
O engenheiro Wagner Victer considera que é o projeto com maior potencial econômico para o estado do Rio nesta década. Ele destacou que, caso seja implementada, a iniciativa pode alavancar o desenvolvimento de toda a Baixada Fluminense, permitindo a construção de uma série de empreendimentos, desde uma unidade de processamento de gás natural (UPGN) e petroquímicas até plantas de fertilizantes e termelétricas, além da melhoria das siderúrgicas já instaladas. Entre as oportunidades que podem ser desenvolvidas, está uma UPGN em Itaguaí, com expectativa de 10.000 barris/dia de gasolina e 20.000 botijões/dia de GLP.
Victer, que é diretor-geral da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), chamou a atenção para a necessidade de haver articulação e engajamento para viabilizar a rota 4-B, que concorre com outros projetos, como a rota-4A, que escoaria o gás para São Paulo. Ele enfatizou que a distância entre as duas rotas tem diferença inferior a 10 quilômetros, o que reforça a necessidade de se entender as vantagens da Baixada Fluminense e criar ou atualizar incentivos fiscais existentes para empresas no entorno, ampliando a competitividade, principalmente ante o estado de São Paulo.
“Não há projeto mais importante para o estado do Rio nesta década. Se ficar aguardando, São Paulo vai levar. Se não se movimentar de maneira competente, vamos perder esse projeto”, afirmou Victer, durante o encontro, organizado pelo Fórum permanente da Alerj de Desenvolvimento Estratégico do Estado do Rio. Ele compara que os investimentos (capex) da implantação das rotas 4-A e 4-B são da ordem de R$ 4,5 bilhões, conforme dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Entre os pontos que favorecem a rota 4-B, segundo seuss incentivadores, estão a localização na região frontal às reservas do pré-sal na Bacia de Santos e a mão-de-obra abundante e os centros de capacitaçao. “Nossa área de desenvolvimento é próxima de onde chega o duto de escoamento marítimo”, destacou Victer. Ele também citou a proximidade do Porto de Itaguaí, os acessos rodoviários e ferroviários, bem como a proximidade com siderúrgicas da região (Gerdau e Ternium) e terminais de exportação de minérios. Segundo o engenheiro, existe um potencial de consumo de gás muito grande para melhoria de processos.
A consultora e ex-diretora da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, considerou que muito do gás retorna às jazidas por falta de projetos estruturantes. Ele destacou que a ideia desse hub para a Baixada pode promover desenvolvimento industrial e alocar a oferta de mão-de-obra, além de levar gás às indústrias siderúrgicas e petroquímicas, as que mais consomem o insumo no Brasil.
“O projeto tem todas as condicionantes presentes para dar certo: energia abundante, porto disponível, acesso a esse porto e espaço em retroárea para colocarmos as indústrias necessárias para, em sinergia, promover desenvolvimento industrial do estado”, disse Magda durante a sessão. Ela torce que a Petrobras se una a esse projeto para levar a rota 4 para o Rio de Janeiro e, futuramente, providenciar a emenda da rota 2 na direção ao Porto do Açu, no Norte Fluminense. “Temos um momento grandioso de petróleo no Brasil e o estado do Rio não pode ficar para trás”, acrescentou.
A diretora-executiva de gás natural do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Sylvie D’Apote, concordou que o mercado brasileiro de gás precisa de projetos desse tipo para maior aproveitamento das reservas de gás do pré-sal, que ainda possuem descobertas em desenvolvimento ou em avaliação. Ela frisou que identificar a demanda adequada tem sido o maior desafio dos produtores brasileiros e mundiais, já que a produção de gás precisa de demanda, considerado o elo mais importante da cadeia. Ela explicou que a geração térmica tem sido a principal âncora de projetos de gás, porém representa um problema de difícil equacionamento porque as reservas são de gás associado e precisam de demanda industrial firme. “Projetos como esse hub, que buscam desenvolver demanda industrial de gás, são importantes para a indústria de petróleo e gás que está a montante”, analisou.
Sylvie disse ainda que as duas rotas de escoamento são equivalentes e que está claro que a decisão será feita pelos investidores dos campos nas rotas após considerar vantagens competitivas de cada um dos estados. Segundo a diretora do IBP, existem muitos aspectos que determinam a competitividade de projetos industriais em diferentes de gás e a competitividade de gás para o consumidor final localizado em diferentes estados. Ela explicou que o preço final para o consumidor é composto de várias partes, algumas sem relação com preço do gás doméstico e importados, e que a decisão cabe aos estados, por meio da regulação estadual da distribuição e impostos.
Fonte: Revista Portos e Navios
