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Para engenheiro, Brasil deve apostar em inovação e pode contribuir para melhorar gestão de ativos a bordo dos navios e processo de inventário de materiais perigosos
A Convenção internacional para a reciclagem segura e ambientalmente adequada de navios (Hong Kong Convention) entrará em vigor em junho de 2025. O professor de engenharia industrial metalúrgica na Universidade Federal Fluminense (UFF), Newton Pereira, defende que o Brasil garanta segurança jurídica, assim como fizeram países europeus, como a Noruega, que foi o primeiro país a ratificar a convenção em 2013.
Pereira avalia que ratificar a HKC pode ser um risco para o Brasil antes do projeto de lei 1.584/2021, que está em tramitação na Câmara dos Deputados, pois acredita que o país deve ter um regulamento nacional para ordenar a atividade. O professor observa que existem países que já ratificaram a HKC, mas não estão na lista porque não atendem aos requisitos do regulamento europeu.
“A partir de 2019, tivemos um alto índice de países que ratificaram a HKC, mas o regulamento europeu figura a partir de 2018. Precisamos que o PL seja aprovado para dar a segurança jurídica para que não tenhamos problemas”, analisou Pereira, que é coordenador do Centro de Estudos Para Sistemas Sustentáveis da Universidade Federal Fluminense (CESS/UFF).
O professor percebe que alguns países que ratificaram a HKC ainda praticam o método de reciclagem nas praias, o que oferece riscos ambientais. Durante o 8º Workshop sobre descomissionamento e desmantelamento de embarcações promovido pela Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena), ele destacou que é possível reciclar com segurança utilizando métodos como rampa e alongside, que são utilizados por diversos países, de forma combinada e segura.
Em visitas recentes a estaleiros de reciclagem na Europa, Pereira constatou a preocupação de integração da reciclagem de navios dentro do ambiente portuário, como também em retirar um estigma de que é uma atividade suja. Ele disse que países como Espanha e Portugal enfrentaram dificuldades para provar às autoridades locais que a reciclagem poderia ser feita de maneira segura.
O professor ponderou que, diferente do Brasil, alguns desses estaleiros foram projetados e pensados para a reciclagem de navios, e não para construção. Ele relatou que esses empreendimentos contam com rampa impermeável, sistema de drenagem de materiais perigosos ou efluentes, além de áreas de armazenamento de resíduos oleosos retirados das embarcações e tanques adicionais para tratar e destinar resíduos.
Pereira acrescentou que a indústria colocou novos desafios que vão gerar uma nova demanda para estaleiros para identificar materiais perigosos. O registro e o termo de conformidade também terão que identificar a localização desses materiais e a massa contida neles. Para navios novos, haverá necessidade de os fornecedores declararem os componentes dos equipamentos a bordo dos navios. Segundo Pereira, essas informações devem ser pensadas desde o estágio do projeto de construção.
Para o professor, é possível melhorar a gestão dos ativos a bordo dos navios para o processo da reciclagem e o Brasil pode contribuir para uma gestão mais eficiente baseada em IoT (Internet das Coisas). Ele destacou que existem grupos acadêmicos trabalhando nesses projetos, com pesquisadores de várias áreas e que a iniciativa está ganhando corpo no cenário nacional. “Temos que reverter essa indústria que, aparentemente, parece suja. Vamos usar [o termo] reciclagem, é tecnologia que precisamos colocar aqui”, sugeriu.
Pereira observa tecnologias de identificação por rádio frequência (RFID) já disponíveis que podem ser utilizadas para inventário. O professor entende que é possível utilizar tecnologia RFID como passaporte digital para reciclagem de navios. “É possível gerarmos inventários de materiais perigosos e ativos dos navios que permitem processo de reciclagem mais seguro”, projetou. Segundo Pereira, gerar um inventário digital dos ativos do navio permite um processo de reciclagem mais seguro e transparente para os armadores, estaleiros, recicladores e partes interessadas.
O RFID pode ajudar partes interessadas, desde fabricantes a recicladores, com dados detalhados em tempo real, transparência aprimorada, eficiência e rastreabilidade. “Vemos que o RFID, um canal para ter o passaporte implementado, está sendo trazido para dentro da indústria marítima. É importante porque já se aplica esse tipo de tecnologia em inventários diversos da indústria, mas não temos utilização em grande escala na nossa indústria”, destacou Pereira.
Pereira diz que essa tecnologia pode ser utilizada, inclusive, em plataformas e navios-tanque, pois não há risco de explosão em unidade com atmosfera perigosa. O navio escola Ciências do Mar III da Universidade Federal Fluminense (UFF) é um campo de pesquisa com etiquetas RFID, mapeamento disponível na internet e gestão do inventário a bordo da embarcação. “Nosso setor tem que inovar, é uma gestão mais eficiente nesse processo dar rastreabilidade ao longo da cadeia”, afirmou.
Fonte: Revista Portos e Navios