Por Juliana Estigarríbia e Cynthia Decloedt
As dificuldades enfrentadas pela Gol para incorporação da Smiles chegam em momento ruim para a companhia aérea. Nesta segunda-feira, a Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para discutir a proposta não foi instalada por falta de quórum e a tendência para a próxima reunião, segundo apurou o Broadcast, é de que minoritários recusem a oferta, forçando a Gol a formular uma nova proposta.
Apenas 11% dos acionistas com papeis em “free float” compareceram à AGE, segundo acionistas que participaram da reunião. Eles têm exigido da companhia aérea valores maiores na incorporação. A próxima assembleia pode ser marcada para os próximos dez dias, conforme afirmaram executivos da Gol em teleconferência na semana passada.
A proposta da Gol prevê que o prêmio da relação de troca das ações será de 26,3% sobre o preço médio dos últimos 30 dias.
Conforme apurou o Broadcast, embora não haja consenso entre os minoritários da Smiles, um grupo grande avalia que o “valor justo” seria entre R$ 39 e R$ 40 por ação da companhia. A oferta da Gol prevê R$ 22,32 por ação. Além disso, boa parte dos minoritários não estaria sequer propensa a votar a favor da incorporação. Para eles, a Smiles é rentável e poderia sobreviver “tranquilamente”, mesmo se a Gol viesse a quebrar.
O horizonte também é desfavorável para o setor de aviação, cuja perspectiva de demanda no curto prazo é incerta em meio a maiores restrições no combate à pandemia da covid-19 no País, o que é visto como um risco adicional para a Gol.
“Acho que se a Gol não conseguir incorporar a Smiles, adicionada às novas restrições, a aérea estará em uma situação dificílima para se recuperar”, diz a advogada da área de reestruturação e insolvência do Kincaid, Mendes Vianna Advogados, Ana Carolina Monteiro.
Segundo ela, ao fazer sua reestruturação no ano passado, em meio à crise que assolou as companhias aéreas na pandemia, a Gol escolheu uma opção “complexa”, com diluição de capital. “A Gol priorizou o financeiro e não reestruturou a operação, que seria também importante no momento”, acrescentou.
Monteiro lembra que há um processo de arbitragem que corre paralelamente ao caso entre um grupo de minoritários da Smiles e a Gol, o que adiciona um ingrediente perigoso ao futuro do caixa da companhia aérea. O grupo quer invalidar um acordo de compras antecipadas de passagens no valor de R$ 1,6 bilhão feitas no ano passado, sob a alegação de que a aérea usou o caixa da companhia de fidelidade em benefício próprio durante a crise. Ainda não há decisão sobre o caso e a disputa pode se arrastar por até dois anos.
Para um outro especialista em reestruturação de empresas, que preferiu não se identificar, a Gol assumiu premissas de uso de capacidade arrojadas ao reestruturar sua dívida no ano passado, o que deixa seu caixa e as dívidas renegociadas em situação frágil. Ele nota ainda que o cenário é complicado também para a Smiles, que não via valor na incorporação pela Gol antes da crise e, agora, menos ainda. Entretanto, na avaliação do especialista, sem companhia aérea não há programa de milhagem. “O movimento das companhias tem sido de manter o programa de milhagem com elas. Esses spin offs não foram regra no mundo”, observou a fonte.
A incorporação da Smiles poderia significar um reforço no caixa da Gol. A aérea informou em comunicado ao mercado, no último dia 8 de março, que encerrou fevereiro com R$ 2 bilhões de liquidez total e que vem “readequando a oferta de voos” conforme a demanda. Na próxima quinta-feira, ao divulgar balanço financeiro referente ao exercício do quarto trimestre e consolidado de 2020, a Gol deve dar mais detalhes sobre a retomada.
No balanço referente ao terceiro trimestre de 2020 (último divulgado pela empresa), a receita líquida recuou 73,7% na comparação anual, para R$ 974,9 milhões. Segundo o documento, ao final do terceiro trimestre de 2020 a dívida de curto prazo da companhia somava R$ 5,33 bilhões e, de longo prazo, R$ 12,9 bilhões. O total de empréstimos e financiamentos, no encerramento do período, era de R$ 18,2 bilhões. Em tempos de incertezas no setor aéreo, o futuro da companhia permanece incerto.
Procurada, a Smiles informou que não vai comentar o assunto. A Gol ainda não se pronunciou sobre o tema.
Fonte: Agência Estado