Interferência na paisagem. Uma fotomontagem mostra onde ficaria o píer em Y, ao lado do futuro Museu do Amanhí, projeto do arquiteto Santiago Calatrava na Zona Portuária.
Os Jogos Olímpicos de 2016 podem ser realizados independentemente da construção de um píer em Y entre os armazéns 2 e 3 da Zona Portuária, como deseja a Companhia Docas do Rio de Janeiro, que pretende gastar cerca de R$ 250 milhões em recursos públicos no projeto.
A informação é do diretor-geral do Comitê
Organizador Rio 2016, Leonardo Gryner, que ontem fez críticas severas ao projeto. Nas Olimpíadas, os navios atracados no porto funcionariam como uma reserva técnica de até 10 mil leitos para a chamada família olímpica, caso não haja acomodações suficientes na rede hoteleira da cidade.
– A questão é a seguinte. Nós não pedimos, não precisamos e somos contra o píer em Y. Até porque essa é uma solução operacional ruim, que não é adotada em lugar algum. A análise não é apenas minha, mas também do consultor de transportes do Comitê Olímpico Internacional (COI), Philippe Bouvy.
O formato em Y obrigará os passageiros dos navios a percorrer longas distâncias a pé, carregando bagagens em meio a carros de passeio e outros obstáculos – disse Leonardo Gryner.
Paes diz ser contra local de píer.
O diretor-geral do Comitê Rio 2016 acrescentou que uma das provas de que o projeto não seria necessário é que, no carnaval, até seis navios já atracam no porto do Rio sem quaisquer problemas.
Ele explicou ainda que, no caderno de encargos da candidatura do Rio como cidade-sede, encaminhado ao COI, não havia a
previsão de um píer em Y. Mas apenas de uma estrutura perpendicular ao cais existente, para melhorar a atracação dos navios.
Gryner falou do projeto durante um seminário organizado pelo COI, num hotel na Barra
da Tijuca, para repassar aos brasileiros as experiências dos britânicos na organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres 2012.
– O que precisamos é ter leitos alternativos nos navios. Mas nem o comitê organizador e nem o COI têm como vetar qualquer proposta para a Zona Portuária, por se tratar de um projeto que atende à infraestrutura da cidade.
Não se trata de um equipamento esportivo – ressaltou Gryner. Em entrevista a jornalistas brasileiros e estrangeiros que cobrem o seminário, no futuro Parque Olímpico da Barra, o prefeito Eduardo Paes reafirmou ontem ser contrário ao local escolhido por Docas para o píer em Y.
– Sou contra um local tão perto de um equipamento da qualidade do Museu do Amanhí, que está sendo construído ali (no antigo píer da Praça Mauá). Nos meses mais agradáveis do ano, teremos navios atracando num ângulo que pode atrapalhar a vista do Mosteiro de São Bento – disse Paes.
Caso saia do papel, o projeto do píer em Y pode impor uma verdadeira maratona aos passageiros. Ele prevê um atracadouro perpendicular ao porto com 350 metros de comprimento e duas pernas de 400 metros de extensão cada.
Além disso, se ele ficar na altura dos armazéns 2 e 3, implicará um deslocamento de cerca de
300 metros até os armazéns 4, 5 e 6, previstos para abrigar o futuro terminal de embarque e desembarque do porto.
O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), Jorge Arraes, defende que o píer seja construído na posição original do projeto, na altura do armazém 6. Para ele, a mudança compromete o projeto de revitalização da área.
A prefeitura teme ainda pela segurança das manobras de navios de grande porte, como O GLOBO mostrou ontem, uma vez que o novo píer ficaria a 500 metros do píer antigo.
– Hoje, todo o cais do porto é alfandegado e não é possível haver circulação de terceiros ali. Entre os armazéns 1 e 8, é feito o trânsito de passageiros e, do 8 em diante, temos a área de cargas.
Se o píer novo fosse construído no armazém 6, a circulação de passageiros seria concentrada, liberando os armazéns 1, 2 e
3 para bares, restaurantes ou pontos culturais – diz Arraes.
Licitação conturbada
O GLOBO procurou ontem, sem sucesso, o presidente da Companhia Docas, Jorge Mello. No início do mês, Mello disse que a opção pelo armazém 6 foi descartada há dois anos, porque o local não teria área de manobra suficiente para os navios.
O canal de navegação na Baía de Guanabara teria que ser deslocado. Na 3 para bares, restaurantes ou pontos culturais – diz Arraes.
Na época, ele argumentou ainda que o píer teria importância fundamental nas Olimpíadas de 2016.
A construção do píer em Y constava da matriz de responsabilidades da Copa do Mundo de 2014. Mas a licitação do projeto foi contur bada.
O edital passou por revisões, a mando do Tribunal de Contas da União (TCU), que identificou indícios de sobrepreço de R$ 45 milhões em itens do projeto.
Também houve questionamentos em relação à eliminação de concorrentes. As obras estavam previstas para começar no primeiro semestre de 2011. Agora, a expectativa é que o início da construção aconteça em 2013.
Mas o projeto também depende do aval do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Capitania dos Portos.